     UMA AVENTURA ALUCINANTE
      Penny Jordan
        Bought With His Name
        Sabrina n 303
         
         
           

         
         
         Glria era a mulher mais bonita da festa: esguia, elegante, os longos cabelos loiros caindo pelos ombros. E l estava o homem mais charmoso que ela j tinha 
visto. Encostado displicentemente  parede, Luke a olhava com insistncia, o desejo transparecendo de seu corpo msculo. ''Preciso ter voc, Glria.  como uma doena 
que tomou conta de mim...", disse Luke, mais tarde, depois de beij-la  fora, numa rua escura e deserta. Glria estava apavorada, subjugada por aqueles lbios 
ardentes, aquele corpo rijo, sensual. Ela o odiava, mas Luke tinha uma arma poderosa para domin-la: a chantagem ! Glria ia ser violada... Como escapar?
         
Digitalizao: Zaira Machado
Reviso: Cynthia M. 
         
         
         
         
         
         
         
         
         
         Copyright: Penny Jordan
         Ttulo original: "Bought With His Name" 
         Publicado originalmente em  pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra
         Traduo: Therezinha Monteiro Deutsch
         Copyright para a lngua portuguesa:  
         Abril S.A. Cultural - So Paulo
         Esta obra foi integralmente composta e impressa na Diviso Grfica da Editora Abril S.A
         Foto da capa: Keystone
         





















         
                
        
CAPTULO I
         
         A festa estava no auge quando Glria empurrou a porta, j aberta, do apartamento de Greg Hardman. Havia tocado a campainha vrias vezes, mas, com a algazarra 
generalizada l dentro, ningum ouvira. A sala estava repleta de casais movimentando-se ao ritmo sensual da msica que saa da aparelhagem de som hi-fi, e levou 
algum tempo para Glria encontrar o dono da casa. Quando conseguiu, ele passou um brao pela cintura fina dela, puxou-a para si, sorrindo muito perto do rosto da 
moa. Ela ergueu as sobrancelhas e afastou-se. Greg havia bebido e apertou-a mais.
         - Olha s! Que bons ventos a trouxeram? - exclamou ele, percorrendo-lhe o corpo com olhar avaliador. - Pensei que voc no viesse, boneca, Um passarinho 
me contou que ia ficar trabalhando at tarde, hoje. Esse seu chefe ocupa voc um bocado, no?
         -  Bem, algum tem que trabalhar, naquela firma! - retrucou Glria secamente.
         E era verdade. Ia trabalhar at tarde, mas Elaine, esposa de Bob, seu chefe, telefonara, pedindo ao marido que chegasse mais cedo do que tinha planejado. 
Assim, livre, Glria resolvera ir  festa. Mas j estava arrependida. Devia ter ficado trabalhando, fazendo o que pudesse sozinha. Tinha acabado de voltar de frias 
e o escritrio estava na maior confuso.
         - Venha, vou apresentar voc  turma - disse Greg, interrompendo-lhe os pensamentos. - No  sempre que voc nos d a honra de comparecer s festinhas dos 
humildes, comuns mortais.  uma pena eu ter que ir para os Estados Unidos no fim da semana. Sempre me amarrei em voc, Glria. Gostaria de saber o que h por trs 
da muralha que a rodeia... Ser que no tem a impresso de vegetar, enquanto os outros vivem?
         Glria j ouvira mais ou menos esse tipo de pergunta muitas vezes, para se sentir zangada ou chocada. Por que os homens achavam que toda mulher que no 
tinha ningum e estava com mais de vinte e um anos devia ir direto para a cama com eles? H mais de quatro anos, vinha driblando homens como Greg, Eles tinham sempre 
a arrogncia de pensar que bastava sorrir e dizer alguns galanteios para uma mulher ficar doida para dormir com eles.
         Afastou-se, recusando o oferecimento de Greg para apresent-la ao pessoal. Conhecia a maioria. Como ela, todos trabalhavam na Computerstore, pequena firma 
que vendia computadores modernssimos para a indstria e o comrcio. Convivia com eles a quatro anos, desde que chegara a Londres, e gostava de trabalhar como secretria-assistente
 do chefe de relaes pblicas da firma. Pelo menos, gostara at agora. Uma sombra passou-lhe pelo rosto quando lembrou das novidades que encontrara ao chegar das 
frias na Grcia. A Computerstore fora englobada por uma grande empresa e o pessoal andava com medo de perder o emprego; era evidente que agora havia gente sobrando. 
Bob Norman, seu chefe, passara a semana inteira preocupado. Glria mordeu o lbio. Era muito afeioada a Bob, gostava de trabalhar com ele. Eram eficientes, juntos, 
e se bem que se policiasse para no se envolver emocionalmente com ningum, reconhecia que seria difcil trabalhar to bem com outra pessoa.
         Pegou uma bebida no bar, encostou-se  parede e ficou observando. Pelo jeito, pelo menos dois prometedores casos iriam comear naquela noite, graas ao 
ambiente quente da festa. Seus lbios franziram-se levemente, sem que percebesse. Era uma das mulheres mais bonitas que estavam ali. Alta, esguia e elegante, os 
longos cabelos loiros caindo pelos ombros, rosto de traos mais para o clssico. Levou alguns segundos para perceber que estava sendo observada. No cometeu o erro 
de olhar diretamente para ver quem a fitava com tanta intensidade. Primeiro, passou os olhos distraidamente pela sala.
         Ele estava encostado na parede oposta e ergueu o copo para ela, num cumprimento elogioso e, ao mesmo tempo, arrogante. Com uma vaga sensao de mal-estar, 
semelhante  raiva, Glria sentiu que ele esperava que ela atravessasse a sala e fosse at l. Sem dvida nenhuma, era o homem mais charmoso que estava ali, o tipo 
de quem as mulheres, com certeza, corriam atrs. Bem, s que ela no. Estava indolentemente encostado  parede, seu corpo msculo fazendo imaginar que estivesse 
numa floresta, e no num apartamento em Londres. Usava cala e camisa pretas, esporte. Os cabelos fartos, muito negros, chegavam at a gola da camisa, atrs. Deveria 
ter uns trinta anos, calculou Glria, consciente do impacto que ele produzia nas mulheres. Ele se movimentou, mudando o peso do corpo de uma perna para outra, e 
os msculos fortes evidenciaram-se, delineados pelo tecido da cala. Continuava a olh-la fixamente. Uma loirinha linda, que era uma das datilgrafas da empresa, 
passou por ele, olhando-o, provocante. Bobinha, pensou Glria, com pena. Ser que no percebia que ele estava quilmetros longe dela e que, se brincasse com aquele 
homem, iria se machucar?
         Nem tentou imaginar quem era ele. No tinha essa curiosidade e no sentia prazer com o jeito que a olhava. Podia ler na mente daquele homem como se fosse 
um livro aberto. Sairia com ela algumas vezes e, sem dvida, esperava como recompensa ir para a cama; ento, quando se cansasse, iria deix-la de lado e partir para 
nova conquista. Observou a datilografazinha loira que fazia de tudo para chamar a ateno dele. O homem sabia o que a moa estava querendo e observava os esforos 
dela com um sorriso levemente aborrecido: a garota no iria passar pela sensao de ser usada por uma noite e desiludida com a indiferena que nasceria com o amanhecer. 
Olhou para Glria de novo e o que ela leu naquele olhar desagradou-lhe mais do que o jeito dele: uma arrogante certeza de que iria consegui-la. Isso fez com que 
Glria se determinasse a demonstrar o quanto ele se enganava. Sorriu de modo provocante, com o copo quase nos lbios, sabendo que o rapaz iria achar que o sorriso 
era para ele. E prometeu a si mesma que, antes da noite acabar, ela o teria humilhado de tal maneira que ele nunca mais iria se atrever a olhar para qualquer mulher 
com aquele ar insolente.
         Virou as costas para ele e caminhou para a janela. Encostou-se no parapeito e ficou olhando a noite l fora. Estava vestida de modo mais simples do que 
todas as mulheres dali, pois fora para a festa diretamente do escritrio, mas a blusa preta e a saia de seda preta e branca realavam o tom moreno que conseguira 
em Samos. Ela adorava as ilhas gregas e Samos mais do que todas. Pouca gente ia para l. As praias eram pequenas, particulares. Sabia que as colegas a achavam boba 
por escolher, para as frias, um lugar onde quase no havia homens disponveis.
         Estava olhando pra as estrelas quando sentiu a mo dele num de seus braos.    - Elas exercem um fascnio perigoso sobre a gente, no? So um desafio atordoante, 
atraindo os homens como a luz atrai as mariposas.
         Via o reflexo dele na vidraa e agora, que estavam lado a lado, dava-se conta de que ele era muito mais alto do que ela.
         -  Voc  astrnomo? - Havia um, tom evidente de divertido desprezo na voz de Glria.
         Como  fcil fazer os homens pensarem o que a gente quer! Podia apostar que ele tinha certeza que ela estava querendo flertar. Como estava enganado!
         -  Bem, quando me sinto atrado por coisas perigosas e fascinantes, prefiro que elas se mantenham a uma distncia prudente.
         Os olhos do rapaz estavam fixos nela, enquanto falava, e, apesar de sorrir, Glria pensava, cnica: "Acredito! E acredito, tambm, que voc encurta depressa 
a distncia que o separa daquilo que quer. Bem, desta vez, meu amigo, quando esticar as mos para pegar o que est querendo, vai sentir um terremoto violento embaixo 
dos ps!"
         -  Voc est aqui sozinha?                                       
         Ele achava que estava jogando na certeza, vendo que no havia anel nem aliana nas mos dela. Glria ergueu as sobrancelhas e sorriu:
         -   E se no estiver?                                                  
         Ele tambm sorriu e, pela primeira vez, ela notou que seus lbios tinham um trao levemente cruel, os cantos ligeiramente cados. A boca de um homem que 
no sentia a menor compaixo diante da fraqueza.
         -  Ento, esse homem  maluco, deixando uma coisa to linda solta por aqui. E a perda dele  lucro para mim!
         Glria quase teve de morder a lngua para no fazer um comentrio spero sobre aquela "coisa". Era tpico. A atitude dele era exatamente como ela esperava. 
No aprendera, desde bem jovenzinha, que o sexo forte considerava toda mulher bonita assim como que um prmio a ser conquistado por meio de um jogo excitante e divertido? 
Ser que ele era casado? Achava que no. Ele no parecia casado, se bem que isso no era* nenhum dado vlido para um julgamento. No entanto, no era difcil descobrir.
         -  E voc? - perguntou com voz macia. - Voc  um homem s?
         -  S e sem compromissos - confirmou ele, pegando o brao dela. Seus dedos eram clidos e fortes, firmes na pele morena e suave. Apesar de ter cabelos loiros, 
ela se bronzeava bem e com facilidade. Sua pele tinha o tom e a textura do pssego maduro.
         -- Gostaria de danar?
         Glria ia recusar, mas viu Greg vindo na direo deles. Ultimamente ele andava demonstrando, sem disfarce, que estava interessado nela. Pensou que tivesse 
disfarado bem as reaes, enquanto ia com o rapaz para o centro da sala, mas surpreendeu-se com a pergunta dele, enquanto lhe rodeava a cintura num gesto possessivo. 
Um ex-admirador? - Na verdade, um chato - respondeu, erguendo as sobrancelhas, aborrecida por ele ter percebido que quisera escapar de Greg.
         Aquilo tambm era tpico, pensou, amolada. Sem dvida, ele achava que ela havia encorajado Greg, gostando secretamente das atenes dele. Parecia que era 
impossvel os homens acreditarem que uma mulher podia no se interessar por eles! Bem, esse homem iria aprender.
         -  Descontraia-se, relaxe! - murmurou ele.
         Glria no tinha percebido como se tornara tensa, ao sentir a mo dele percorrer-lhe de leve a espinha. O gesto a apanhara desprevenida e ela estremeceu, 
enquanto os longos e escuros clios velavam os olhos cor de ametista.                      
         Na certa, o rapaz achava que tinha sido um arrepio de prazer, claro, pois apertou-a mais contra si, a ponto de os seios dela se esmagarem contra seu peito. 
Ela tentou se afastar, mas a mo dele segurava-lhe, firme, as costas. Podia sentir o calor da pele dele atravs do tecido da camisa.
         -  Que tal a gente se apresentar? Meu nome  Luke Ferguson. E o seu?
         -  Glria - disse, apenas.
         Detestava falar muito de si mesma. Isso deixava as pessoas ainda mais curiosas e comeavam a fazer perguntas. Era um complexo que vinha desde os tempos 
da escola, quando as outras crianas estranhavam por ela no ter pai. Agora, ningum ligava s algum era filho natural ou no, legtimo ou no, mas as velhas cicatrizes 
ainda doam.
         -  Glria... Um nome bonito como a dona.
         -  Voc acha? - Agora ela se sentia num terreno conhecido, firme: o comeo de um flerte declarado.
         -  Sim... - Ele a apertou mais contra si. - Na verdade,  algo mais... "Bonita"  uma palavra fraca. Voc  uma mulher lindssima, Glria, e eu quero passar 
o resto da noite na sua companhia.
         -  Qual  a idia? 
         Muita gente estava olhando para eles; alis, tinham se tornado o centro das atenes no momento em que haviam comeado a danar. Glria percebeu que Greg 
os observava, atento, parado junto  porta da cozinha. Pessoalmente, tinha quase certeza de qual era a idia de Luke; a mesma que seu pai tivera quando encontrara 
sua me e Richard, quando... No, no ia comear a pensar em Richard agora. Queria se dedicar a fazer aquele homem subir bem alto e, depois, ter o prazer de v-lo 
cair.
         -  Se eu disser, na certa voc no vai concordar. Acho que  a mulher mais linda que j vi...
         Havia um tal brilho nos olhos dele que Glria ficou satisfeita por no estarem a ss. Luke Ferguson no era um rapazinho inexperiente, mas sim um homem 
sofisticado, seguro de si, e demonstrava isso.
         -  Ser que devo pensar, ento, que at agora voc ficou trancado numa cela, sem ver ningum?
         Aquela troca de frases intencionais era apenas o preldio do real propsito da noite, e Glria sentiu um arrepio, ao ver a expresso dos olhos de Luke. 
O desejo que ardia neles era real; to real que, por um instante, antes de afastar o pensamento, achando que era imaginao, ela achou que talvez tivesse ateado 
um fogo que no seria capaz de controlar.
         Quando a msica terminou ele a largou com relutncia, e Glria deixou que lhe passasse um brao pelos ombros, enquanto saam do meio da sala. Ela estava 
agindo de um jeito que no era, absolutamente, o seu. Mas Luke no sabia disso. Era evidente que at ento ele encontrara mulheres que tinham concordado imediatamente 
com sua sugesto. Ela s estava surpresa por Luke ainda no a ter convidado a ir para o apartamento dele. Iria ter uma rude - e pblica - surpresa quando o fizesse, 
disse Glria para si mesma, sombria. Os olhos dele, que haviam parecido negros na penumbra da sala, eram, na realidade, de um cinza-escuro, de ao, e o desejo que 
brilhava neles parecia ser sua nica fraqueza.
         Greg aproximou-se, o brao passado na cintura da datilografazinha loira que parecera to interessada em Luke. Os olhos dele estavam vermelhos. Percebia-se 
que bebera demais.
         -  Muito bem! - exclamou, barulhento. - Ento, aconteceu, afinal? Nossa donzela de gelo derreteu-se, enfim? Voc  um homem de sorte, Luke. Glria  a nossa 
mais distinta senhora!
         -  Voc exagerou na bebida, Greg - disse Luke. - Por que no o leva at a cozinha e lhe d uma xcara de caf? - sugeriu  loira.
         Algumas pessoas observavam-nos discretamente. Glria esperava pela chance de esvaziar o inflado ego de Luke e no tardou a aparecer. Ele se voltou para 
ela, passando os dedos de leve em seu rosto, num arremedo de carcia terna, o desejo ardendo nos olhos, para todo mundo ver.
         -  Se voc quiser ir embora...    :
         Luke era, de fato, um excelente ator, surpreendeu-se Glria. A voz dele soara com um leve toque de tremor, como se sentisse enorme dificuldade em controlar 
o arrebatador desejo de estar sozinho com ela; como se sentisse por ela mais do que um urgente desejo passageiro, cuja satisfao iria afirmar mais uma vez sua atrao 
irresistvel.
         - Ir embora? Com voc? - Ela ergueu as sobrancelhas e soltou uma gargalhada fria. - Meu amigo, voc  uma companhia agradvel, nada mais. Espero muito mais 
do homem que ir me levar, um dia... - Virou as costas para ele e sorriu para Greg: - Seja bonzinho, Greg, e me arranje outra bebida, sim?
         Ele estava bbado demais para responder. Consciente de que todos estavam olhando para eles, Glria voltou-se de novo para Luke, como se tivesse pensado 
melhor. Sua expresso era levemente gozadora, quando sugeriu:
         -  Se est se sentindo to s, por que no pede a Mary que v com voc? Voc gostaria que Luke a levasse para casa, no , Mary?
         A loira olhou-a com raiva, ignorando Luke, e sacudiu a cabea com desprezo.
         -  No estou to sem homem a ponto de precisar de uma intermediria, obrigada! - exclamou bem alto.
         A retirada da loira ficou meio complicada, quando ela girou sobre os saltos altos demais; no entanto, suas palavras tinham sido exatas, como se Glria tivesse 
feito o roteiro da cena.
         Luke a encarava com olhos que pareciam vulces prestes a explodir, mas Glria ignorou os sinais de aviso e disse, doce:
         -  Ainda aqui? No gosta de seguir sugestes?
         -   o que acho que estou fazendo, desde que voc entrou aqui - disse ele, sem o menor trao da ternura que demonstrara pouco antes. - Voc passou o tempo 
todo me sugestionando, me empolgando e agora me fez cair de quatro! Quero saber por que, Glria.
         Ela no esperava por aquilo. Pensara que sua recusa seria o bastante para faz-lo desaparecer sem uma palavra.
         -  Quer? - disse, esforando-se por parecer calma. -- Oh, querido! Detesto ferir os sentimentos dos outros, Voc  um homem muito atraente, Luke - acrescentou, 
meiga - mas acontece que no  o meu tipo.
         Olhou-o de alto a baixo, surpresa consigo mesma por representar to bem o papel que se impusera. Era verdade, mesmo, que havia um pouco de atriz em cada 
mulher, se bem que ela duvidasse seriamente de poder repetir to bem aquela cena. Suas pernas estavam comeando a tremer.
         Havia algo ameaador no silncio com que Luke a olhava. Comeou a pensar se no teria sido melhor se satisfazer com o sucesso inicial e deixar Luke de lado, 
sem tentar humilh-lo diante de todos. Mas agora era tarde. Tinha ido longe demais!
         -  Oh... - A suave exclamao de Luke soou ameaadoramente calma. - E quando voc descobriu que eu no era o seu tipo? Quando me ofereci para lev-la e 
no acompanhei o meu oferecimento com... "algo mais tangvel'' para voc passar a noite comigo?
         Glria teve que fazer um esforo sobre-humano para no avanar em cima dele. O brilho cnico dos olhos cinzentos fez o rosto dela ficar violentamente vermelho. 
Mas encontrou foras para se controlar. Com os punhos fortemente cerrados, disse com voz gelada:
         -  No existe no mundo dinheiro que me faa suportar uma noite na sua cama. Acho que nada pode me provocar mais repulsa.
         -  Mesmo? - A voz de Luke estava alterada pela raiva. - Acho que voc tem imaginao e memria bem curtas... Esteve me convidando para fazer amor o tempo 
todo que danamos. Se estava sentindo repulsa por mim, tem um jeito engraado de demonstrar isso!
         Glria no disse uma palavra. Os olhos dele escureceram de repente, desconfiados; agarrou-a por um pulso e a puxou para si.
         -  Voc me provocou, no foi? - perguntou, spero. - Voc me provocou de propsito, j com inteno de me humilhar, sua vagabunda! Voc no vale nada!
         Ele falara em voz baixa. O pessoal, desinteressado, j no prestava ateno a eles. Pelo jeito, todos achavam que Luke estava tentando convencer Glria 
a ir com ele, imaginou ela. Ento ele a largou e, enquanto ela esfregava o pulso dolorido, saiu da sala.
         -  Puxa! Voc se arriscou um bocado, no? - comentou Gil Holmes para Glria, dez minutos depois de Luke ter ido embora.
         Gil era secretria de Greg. Glria gostava dela. Ergueu a cabea, sacudiu os ombros e respondeu:
         -  Bem feito para ele. Tem que aprender que nem todas as mulheres caem a seus ps, quando ele sorri.
         -  Para ser franca, voc no desencorajou Luke... - observou Gil. - Ao contrrio, acho que deu corda  beca. E acho que ele no  homem de aceitar quieto 
uma humilhao dessas. Voc exagerou, no acha?
         -  O que est querendo? Que eu me arrependa do que fiz? Nada disso. Aquele tonto presunoso teve exatamente o que merecia, Gil.
         -  Que nada! Aquele homem  uma coisa! Eu gostaria que ele olhasse para  mim do jeito que olhava para voc. Conseguiu enganar ate a num, Glria. Quando 
vocs estavam danando, pensei que o impossvel tinha acontecido, que voc tinha encontrado o homem certo. Quer saber? Voc teve sorte por ele no ter sido grosseiro. 
Estava na cara que deu sinal verde para ele...
         Pare de sentir pena dele! - zangou-se Glria. - A nica coisa que fiz, foi alimentar o ego dele. No acredito que voc seja boba o bastante paia achar que 
ele estava mesmo se importando comigo. Acabamos de nos conhecer! O que ele queria era me levar para a cama.
         No tenha tanta certeza... Nunca ouviu falar de amor  primeira vista?
         J, mas nunca conheci ningum que tivesse tido essa experincia pessoal. Sempre contam a experincia dos outros. Bom, acho que vou embora. Alis, nem sei 
por que vim.
         - Humm - fez Gil. - Voc no pode bancar a eremita a vida inteira. Sei que vive dizendo que  muito feliz na sua solido, mas tenho certeza de que em certos 
momentos voc sente...
         -  Falta de um lar, de uma famlia? - interrompeu Glria, brusca. - Nunca! Famlias felizes so mitos. S isso. Por favor, despea-se de Greg por mim, Gil. 
Vou embora.
         -  E vai sair andando sozinha pelas ruas de Londres a esta hora da noite. Acho que voc  maluca mesmo!                               . 
         -   uma caminhada curta, no vai acontecer nada. No se preocupe. Afinal de contas, acho que estou mais segura indo para casa sozinha do que se tivesse 
aceitado a carona de Luke.
         -  Acho que esse tipo de perigo a gente pode correr... - disse Gil, brincalhona.
         Mas havia uma sombra em seus olhos, enquanto Glria saa. Vira uma expresso no olhar de Luke Ferguson que a fazia ficar apreensiva pela amiga.
         Sem imaginar sequer as preocupaes de Gil, Glria pegou o casaco e despediu-se, amvel, de um dos mais novos funcionrios da firma, que passou por ela 
enquanto abria a porta do apartamento.
         A noite estava fria, e a rua estreita, deserta. Por instantes, ela pensou cm subir de novo e chamar um txi. Mas, ao pensar na demora, desistiu. Levaria 
no mximo quinze minutos, andando, para chegar em casa. Nunca lhe acontecera nada nas ruas de Londres. Era ridculo ficar impressionada com o que Gil dissera.
         Coitada   da   Gil!   Pelo   jeito,   estava   cada   por   Luke   Ferguson.
         Estremeceu. Ele tivera o que merecera. Sem querer, lembrou-se do calor e da presso da mo dele em suas costas enquanto danavam. Ele a apertara muito, 
fazendo-a sentir todos os movimentos de seu corpo ondulando ao ritmo da msica. Sabendo que a aparente aceitao daquela aproximao tornaria a vingana mais saborosa, 
ela nada fizera para se afastar. Mordeu o lbio sem perceber, enquanto comeava a andar rapidamente pela rua deserta, afastando-se do prdio, pensando na repercusso 
que o acontecido poderia ter entre a diretoria da  Computerstore. No precisava trabalhar para viver, mas gostava de Cerj trabalho e no queria perd-lo.
         Caminhara alguns metros quando comeou a perceber o macio rumor | de um motor de carro atrs dela. No comeo, no se alarmou; muitos dos | antigos casares 
daquela rua tinham sido transformados em edifcios de  apartamentos e no era de estranhar um carro andando por ali naquela j hora. Era algum chegando em casa. 
Mas o carro no parou. | Acompanhava-a de perto, rodando macio e devagar. Podia perceb-lo i com o canto do olho.
         Automaticamente, comeou a andar mais depressa. A boca ficou seca e o estmago se contraiu de medo: o corao disparou, as pernas ficaram | trmulas e ela 
rezou mentalmente para um policial aparecer e livr-la do  perseguidor. J tinha ouvido falar de moas seguidas por homens em carros, mas isso nunca havia acontecido 
com ela!
         Recusava-se a olhar diretamente para o carro e tentava controlar o pnico. Mas o carro emparelhou com ela e, quando percebeu, estava I olhando ansiosamente 
para o motorista. Quando reconheceu o homem, | sentiu o corao subir  boca. Luke Ferguson! Ele ficara esperando na rua. Em vez de se acalmar, ficou mais nervosa, 
ao ver quem a perseguia. No duvidara um instante de que sua atitude deixara Luke furioso, isso ficara mais do que evidente. E achara que tinha agido muito bem, 
devido ao jeito arrogante dele. Mas agora estava comeando a se perguntar se no subestimara o rapaz. Ele a esperara para se vingar. Provavelmente ; queria lev-la 
a um tal estado de pnico que a fizesse sair correndo de modo ridculo. Virou uma esquina e lembrou, com alvio, que ia dar: numa   pequena   praa   em   frente 
ao   prdio   onde   morava.   Era   s | atravess-la. Luke no podia segui-la pela praa. Andou mais depressa e  entrou na pracinha, abenoando-a por ser mal iluminada.
         Estava empolgada pelo alvio de ter escapado. Ento no percebeu de I imediato os passos abafados que seguiam o barulho dos saltos de seus sapatos. Foi 
mais um aviso do sexto sentido, que a fez hesitar, os ouvidos alerta, os olhos querendo penetrar a semi-escurido, j no to protetora; ao contrrio, terrivelmente 
estranha, cheia de perigos. Nada se movia. Disse a si mesma que estava imaginando coisas. Voltou-se, e o grito foi cortado por dedos fortes que lhe envolveram a 
garganta.
         - Voc achou que tinha me enganado, mas veio se meter numa verdadeira armadilha - murmurou Luke. - No se preocupe. No vou machucar voc... se bem que 
tenho vontade de apertar a sua garganta at voc pedir misericrdia. Achou que eu ia deixar que me humilhasse daquele jeito, sem fazer nada?
         O aperto na garganta no a deixou responder. O terror tinha sumido, deixando lugar apenas para a raiva, e ela se debateu selvagemente, tentando libertar-se 
do brao que lhe envolvia a cintura, obrigando-a a ficar de costas para ele, encostada nele.
         -  Quando entrei na casa de Greg e vi voc, achei que estava sonhando. Sua beleza me dominou completamente; pareceu haver uma ligao imediata entre ns... 
pelo menos foi o que pensei. Mas estava errado, no , Glria? Tudo o que via era mais um homem para erguer bem alto e depois deixar cair. Ouvi falar de mulheres 
que se divertem assim...
         A mo na garganta de Glria relaxou o suficiente para ela falar. O desprezo refletia-se nos olhos dela.
         - Uma ligao imediata? - disse, com escrnio. - Que  isso? Acha que vou acreditar? Eu no nasci ontem, Luke. Sei o que homens como voc querem, quando 
pem os olhos numa mulher. Algum para levar para a cama, algum que no crie caso quando for posta de lado para dar lugar a outra. Um divertimentozinho, um jeito 
de passar o tempo. Voc me olhou com ar de quem estava calculando quanto tempo precisaria para me levar para a cama. Sua vaidade  to grande que nem sequer lhe 
passou pela cabea que eu poderia no querer ir. Voc me queria e isso bastava. Voc mereceu o que eu fiz, Luke; por isso, no espere que eu pea desculpas. Afinal, 
no fiz nada mais do que voc j deve ter feito com muitas mulheres.
         -  mesmo? - disse ele, e Glria pde sentir seu corpo ficar tenso. - Nunca discuto com uma senhora... - Acentuou ironicamente a ltima palavra, e ela sentiu 
a raiva crescer nele; raiva a que no tinha direito, lembrou-se, enquanto ele continuava: - Ao contrrio do que voc parece pensar, nunca humilhei fisicamente mulher 
alguma... at hoje.
         Antes que ela percebesse o que acontecia, ele a fez girar e apertou-a de frente contra si. Glria sentiu o peito forte sob suas mos, sentiu o calor da 
pele atravs da camisa, pois Luke no vestia nenhum agasalho. Ficou com a boca seca de apreenso, sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo, apesar- do frio 
da noite, e comeou a suar.
         -  Me solte!
         A voz saiu insegura, e Glria compreendeu, pelo brilho zombeteiro dos olhos cinzentos, que no conseguia esconder o medo que sentia dele.
         -  Isto  para me indenizar... - disse Luke, aproximando os lbios dos dela com lenta deliberao. -  uma pena no ter ningum para testemunhar, mas, assim 
que eu arranjar um jeito de retribuir publicamente o que voc me fez esta noite, retribuo.
         O que se seguiu parecia um pesadelo. Os lbios dele estavam frios, decepcionantemente delicados no comeo, apoderando-se da boca macia de Glria. Tentou 
afast-lo, mas ele lhe segurou os pulsos com uma das mos, s costas dela, obrigando-a a curvar o corpo para trs, expondo-o a seus olhos e  mo livre. Luke no 
hesitou em aproveitar a situao e percorreu o corpo macio com a mo nervosa, parando bem junto  curva do seio, enquanto o corao de Glria pulava como um pssaro 
engaiolado. Fazia muito tempo que um homem no a tocava com tanta intimidade. Richard tinha sido o nico a faz-lo - carcias inseguras, desajeitadas, muito diferentes 
do toque experiente daquele homem, que parecia saber instintivamente  momento em que o frio controle dela cedia a violentos arrepios, passando a explorar a fraqueza 
sem piedade, apoderando-se do seio inchado, acariciando o bico, to duro que doa.
         Quando os lbios dela se entreabriram para protestar, o beijo de Luke se tomou imperioso e ele se apoderou da boca indefesa com violncia. Glria teve um 
amargo ressentimento. Ele a estava forando e nada podia fazer contra isso. A presso da boca de Luke esmagava os lbios macios, apertando-os contra os dentes. Sentia-se 
humilhada pela reao que seu seio demonstrava  carcia dele. Homem nenhum, alm de Richard, aproximara-se dela sexualmente; amara Richard e, mesmo com ele, fora 
distante e recatada. Agora, ali estava um estranho atrevido demonstrando que seu corpo era capaz de sentir uma luxria de que jamais desconfiara, porque, apesar 
de antipatizar com ele, estava fisicamente correspondendo. E ambos sabiam disso.
         Quando a largou, havia um brilho de satisfao nos olhos cinza-ao. Infantilmente, Glria passou a mo pela boca, como se assim pudesse apagar a sensao 
do beijo. Intil. Ela estava consciente de que o toque da mo dele em seu seio tinha despertado uma ansiedade profunda que jamais pensara existir.
         - Na minha casa ou na sua?
         A pergunta fria e cnica trouxe Glria de volta  realidade:
         -  Em nenhuma das duas - respondeu. - Sustento o que eu disse, Luke: no quero voc.
         -  Mas eu quero voc - retrucou ele ->, e parece ter esquecido que desta vez eu estou com a vantagem. No estamos rodeados de amigos, Glria. Estamos sozinhos 
e no h ningum que me impea de obrig-la a entrar no meu carro e lev-la para o meu apartamento. E pode ter certeza de que eu fao isso.
         -   capaz de me forar s para satisfazer o seu orgulho masculino? - Uma certa averso vibrou na voz dela e, por instantes, viu algo hesitante naquele 
olhar; depois ele se tomou ardente de novo.
         -  Por que no? Seria uma experincia interessante.
         - Isso quer dizer que normalmente voc no precisa usar a fora? - perguntou, amarga, sentindo medo mas no querendo demonstrar.
         -  Em geral, no -- admitiu Luke, e um leve tremor nos lbios dele demonstrou que estava irritado. - Seria mesmo uma experincia interessante. Mas no sei 
se voc iria gostar. Nem mesmo uma mulher experiente gosta de ser violentada.
         Violentada? Glria arregalou os olhos e disse, assustada:
         -  Eu dou parte na polcia. Isso  crime. Voc vai preso...
         -  No vou - disse Luke, cruel. - Acha que, depois, do jeito que agiu na festa, algum jri vai acreditar em voc? Todos viram que voc me provocou. Quantos 
anos tem? Vinte e trs? Vinte e quatro? Idade bastante para ter tido vrios amantes. Isso nunca pega bem, num processo.
         Era um pesadelo, pensou Glria. Aquilo no podia estar acontecendo. Mas estava e tinha certeza de que Luke varia o que ameaara. Violentada! estremeceu, 
horrorizada. Vrios amantes, dissera Luke. Conteve uma risada histrica. No tivera um s amante. Richard que o dissesse! Respirou fundo, pensando febrilmente num 
meio de escapar. Podia sair correndo, mas Luke a alcanaria. Sentira que o corpo dele era musculoso, gil, muito mais forte do que o dela.
         -  Ento?
         -  Est bem - suspirou ela, tentando relaxar-se. - Vamos para o meu apartamento.
         Ele a olhou com ateno, como se quisesse ler-lhe os pensamentos. Glria parou de respirar, rezando para ele no desconfiar do que tinha planejado.
         -  Est certo - concordou ele. - Me d a chave da porta, como prova de confiana - ironizou. - Nunca bateram a porta na minha cara | at agora, Glria.
         Com as mos trmulas, ela abriu a bolsa, pegou a chave e a deu a ele,  que continuava a segur-la firme por um brao e a fez ir para o carro. Era um Maserati 
vermelho-escuro. Pelo jeito, Luke no tinha problemas de.-  dinheiro, pensou Glria, enquanto ele abria a porta e esperava que ela I sentasse no lugar do passageiro.
         -  No tente abrir a porta, eu a tranquei por fora - disse, enquanto entrava pelo outro lado.
         A intimidade do interior do carro fez soar um alarme em Glria. O estofamento era cor de creme, macio, e no ar pairava um trao da colnia  que Luke usava. 
O carro movimentou-se, suave.
         - Onde voc mora?
         Ela deu as indicaes de modo automtico.  Se hesitasse e Luke a I levasse para o apartamento dele, nem queria pensar nas conseqncias. O I que comeara 
com a inteno de demonstrar quele homem que no podia i ter tudo o que quisesse, simplesmente porque queria, transformara-se num I pesadelo. No podia suportar 
o modo pelo qual Luke queria se vingar da I humilhao que sofrer e no iria ter que suportar, se tivesse sorte. Estava com as mos no colo e cruzou os dedos, numa 
superstio infantil, rezando para o porteiro de a noite estar no saguo do prdio, quando chegassem.  Ela mais sentiu do que viu as sobrancelhas de Luke se erguerem, 
quando indicou o prdio. Cada apartamento tinha um boxe para: carro, mas Glria no o fez ir para a garagem. Indicou-lhe para parar diante do luxuoso edifcio e 
ficou imvel, esperando que ele abrisse a porta para ela sair.
         -- Voc mora aqui?              
         - Moro - respondeu, tensa com o tom rspido dele,
         Tinha comprado aquele apartamento ao chegar em Londres. De certo modo, havia sido um erro, pois a maioria dos condminos eram casais de certa idade e, alm 
de um ou outro bom-dia ou comentrios sobre o tempo, nunca conversara com ningum. O saguo estava bem iluminado e George solidamente sentado  macia escrivaninha. 
Glria sentiu a tenso diminuir.   O porteiro da noite reconheceu-a imediatamente e sorriu, enquanto ela entrava. Pegando a coragem com ambas as mos, Glria voltou-se 
para Luke, um sorriso forado nos lbios: - Muito obrigada pela noite magnfica - disse, esperando que George no notasse o tremor em sua voz. - Boa noite. Por um 
instante, pensou que ele fosse reagir com violncia. Sentia George olhando para os dois e, quando j achava que a jogada no tinha dado certo, Luke disse:
         - Boa noite, Glria. - A mo dele deslizou do brao de Glria para o pulso; levou a mo dela aos lbios, num gesto que provocou um aceno de aprovao de 
George. - O jogo no terminou... est apenas comeando!
         O que aos olhos de George era um caso de amor comeando, no passava de um aviso para Glria: Luke no desistira da vingana!
         S depois do Maserati se afastar  que ela suspirou, aliviada, e voltou-se para o porteiro, dizendo:
         - George, perdi a minha chave. Pode abrir a porta do meu apartamento? Acho melhor mudar a fechadura. Todo cuidado  pouco, hoje em dia.               .
         - Pode deixar que eu cuido disso amanh - ofereceu-se George. - Vou pegar as chaves mestras e subo com a senhora, para abrir.
         George era zelador e porteiro noturno do prdio. Simpatizara com ela desde que se mudara e comentara com sua mulher que aquela moa o fazia sentir-se protetor 
e que um dia ela iria arranjar um namorado... E, agora, parecia ter arranjado um  sua altura: bonito, forte, dono de carro esporte...
         Sem saber que era alvo dos comentrios do zelador e de sua mulher, Glria tratou de se deitar. Sentia a garganta, dolorida. Estremeceu. Bem que Gil a avisara 
de que Luke poderia ser perigoso. E ela rira. No tinha vontade de rir, agora, e desejava nunca mais ver Luke Ferguson. A primeira coisa que iria fazer, no dia seguinte, 
era pedir a George que no esquecesse de mudar a fechadura. Quando a raiva esfriou um pouco, achou que talvez Luke no continuaria a persegui-la. Mas no conseguia 
dormir, sabendo que ele tinha a chave de seu apartamento. Passou as mos pelos .seios, que reagiram de leve ao toque delicado, e emoes que jamais experimentara 
antes reviviam, fortes, enquanto lembrava Richard. Luke... Richard... seu pai... Eram todos iguais. Todos os homens eram iguais. Virou de bruos, enfiou o rosto 
no travesseiro e as lgrimas que vinha contendo desde o momento em que Luke a beijara comearam a correr, quentes e livres, afinal.
         
         
        CAPTULO II
         
         Glria dormiu mal, coisa que nunca acontecia, e, certa ou errada, culpava  Luke Ferguson disso. Ele era o culpado por ela passar a metade da noite acorda- 
I da, atormentada de todas as maneiras por estranhas emoes. Esquea esse homem, dizia a si mesma, enquanto andava pela rua. Parou to de repente que o  senhor 
que vinha atrs quase esbarrou nela. Acabara de lembrar que no recomendara a George de mudar logo a fechadura. Mordeu o lbio. Tinha que telefonar para ele assim 
que chegasse ao escritrio. Achava que Luke no iria usar a chave, que era homem orgulhoso demais para tentar qualquer coisa com ela de novo, a no ser que ainda 
estivesse com muita raiva e querendo se vingar. Estava se deixando levar pela imaginao outra vez, disse a si mesma. Tudo tinha terminado.
         Bob j estava  mesa dele lendo uns papis, quando ela chegou. A Computerstore era uma firma pequena; o pessoal todo trabalhava numa sala enorme, menos 
o diretor-geral, Brian Hargreaves, que geralmente estava na rua, vendendo os servios da empresa. Desde que correra a notcia de que a firma tinha si- | do vendida, 
ningum mais havia visto Brian, se bem que dissessem que os no-  vos donos pretendiam mant-lo. Se no era verdade, iriam aparecer dois novos funcionrios, um para 
substituir Brian e outro para substituir Greg, que estava de partida para os Estados Unidos para trabalhar l. A perda de Greg no aborrecia Glria. Tratava-o bem, 
tolerava-o, mas sabia que, sob as maneiras gentis, ele escondia um gnio maldoso que revelara todas as vezes que ela se recusara a sair com ele.
         -  Bom dia! Est atrasada!
         Gil entrou na sala logo atrs de! Glria, olhando com inveja o conjunto lils-plido e gelo que ela usava.
         -  Voc tem roupas lindas! - comentou, com ar de queixa.
         Ela e o noivo estavam economizando para se casar, por isso no podia gastar comprando roupas novas. E Glria comprava as dela numa das melhores casas de 
moda. Ficara surpresa quando, seis meses depois da morte de uns parentes, que    estavam    passando    a    "segunda    lua-de-mel"    numa    cidadezinha nos Alpes, 
recebera uma carta de um escritrio de advocacia da Austrlia informando que ela era a nica herdeira. O tio, por parte de sua me, lhe deixara tudo. Lembrava-se 
de a me ter falado nesse tio, que fora embora da Inglaterra sem um centavo. E tambm no sabia que ele ficara rico na Austrlia. A herana era o bastante para que 
Glria vivesse muito bem at o fim da vida, se o dinheiro fosse bem investido. Como no sabia ficar sem fazer nada, Glria se mudara para Londres, comprara o apartamento 
e arranjara um emprego para preencher sua vida vazia.
         -  Ei, espere! Aonde vai com tanta pressa? Pensou sobre ontem  noite? - brincou Gil. - Ele  sensacional e est caidinho por voc. Quando entrou na sala 
e a viu, ficou paralisado, como acontece nos filmes!
         -  No foi nada disso! - protestou Glria, sentindo-se pouco  vontade. - Voc v tudo com lentes cor-de-rosa. Ele s queria ir para a cama comigo.  s 
isso que os homens como ele querem.
         -  Se acredita mesmo nisso, voc  que tem alguma coisa nos olhos, Glria. E eu acho que  uma viseira, que no a deixa enxergar nada direito... - retrucou 
Gil. - Francamente, s vezes acho que voc no existe! O homem mais maravilhoso que j vi chega na festa, olha para voc, age como se tivesse encontrado o grande 
amor da sua vida e a nica coisa que voc acha  que ele quer lev-la para a cama! Se ele quisesse apenas isso, por que no pegou Mary, que estava se oferecendo?
         -  Vai ver que ele prefere as mais difceis... -respondeu Glria.
         Gil estava dizendo besteiras. As pessoas apaixonadas viam amor por todos os lados. Por isso pensara que Luke havia se apaixonado por ela.
         - Quem  ele, afinal? - perguntou Gil. - Nunca o vi por aqui, antes. O resto do pessoal, na festa, era o de sempre,
         -  No tenho idia - respondeu Glria. - No ficamos juntos tempo bastante para trocarmos as fichas...
         No pretendia contar a Gil o que acontecera depois que sara da festa. Mas a pergunta aguou-lhe "a curiosidade. Luke chegara  festa sozinho e era evidente 
que no conhecia os outros convidados. Se no fosse pelo arrogante ar de superioridade e o carssimo Maserati, ela acharia que era um dos ex-colegas de universidade 
de Greg ou algum que morava no prdio. Mas, agora que pensava nisso, lembrava que havia um ar de indiferena de Greg em relao a Luke, o que no aconteceria se 
ele fosse um de seus amigos.
         -  Vocs deram o telefone um ao outro? - perguntou Gil, ainda achando que Glria encorajara Luke.     
         -  No.
         O tom de Glria era definitivo, enquanto imaginava o que July diria se soubesse que dera a chave de seu apartamento a ele.
         -  Vamos almoar juntas? - indagou Gil.
         -- Vou ver se d. Temos muito trabalho atrasado. Bob queria trabalhar ontem  noite, mas teve que ir para casa mais cedo.
         Olhou para Bob Norman, que ainda estava enfronhado em seus papis. Franziu a testa. Ele parecera meio nervoso, depois de ter falado com a esposa na noite 
anterior, e Glria torceu para que no tivesse acontecido nada de errado. Elaine era uma criatura encantadora, mas tinha pouca autoconfiana. Tinham um filhinho 
que j ia ao jardim de infncia e Glria achava isso errado. Julgava que Elaine podia se dedicar muito mais ao marido e ao filho, mas isso no era de sua conta.....
         Bob sorriu para ela, quando sentou-se  sua mesa.
         -  Desculpe o atraso. Dormi pouco e Gil me segurou para comentar a festa de ontem-desculpou-se Glria.
         -  Eu sei... - disse Bob, ainda sorrindo. -Tudo bem. Ouvi dizer que.o nosso novo patro vem nos conhecer hoje. Ele me telefonou, dizendo que esperava chegar 
de Amsterd a tempo de vir aqui ontem, mas no deu.
         - Sabe alguma coisa sobre ele? - perguntou Glria, largando a carta que estava lendo.
         Bob sacudiu a cabea. Era um homem alto, elegante, muito atraente, os cabelos negros prateados nas tmporas, olhos azuis muito expressivos. A atitude dele 
com Glria era paternal, em geral brincalhona, e ela podia curtir a companhia de Bob sem temer que ele pensasse que estava apaixonada: Bob era feliz no casamento, 
um dos pouqussimos homens que eram felizes no casamento, achava ela.     
         -  Correm uma poro de boatos - disse ele -, mas nada de concreto. O empresrio que construiu a L.F.N. Corporation  um homem misterioso, pelo jeito. E 
no gosta de publicidade. Greg o conheceu. Ele costumava ficar no apartamento de Brian quando vinha para c.
         - E tratou logo de arranjar um lugar, um emprego novo - comentou Glria, irnica. - Homem esperto, aquele!
         -  Voc conhece Greg.., Uma vida mansa, trabalho teve, bom ordenado e ele fica feliz. Desconfio que ele ficou sabendo que a firma ia ser vendida antes de 
todo mundo. Brian Hargreaves  um profissional competente, mas como administrador  um pouco frouxo.
         Glria sabia que isso era verdade. A Computerstore tinha boa reputao e ia bem, mas poderia ir melhor com um bom controle financeiro, e alguns membros 
da diretoria davam muito pouco em troca de seus substanciosos salrios.
         -  No se preocupe - disse Bob, como se lesse seus pensamentos. - Voc  uma excelente funcionria e eu no conseguiria tocar em frente sem a sua ajuda.
         O telefone da mesa dele tocou e Glria afastou-se quando Bob disse, rspido:
         -  Elaine!
         Elaine no costumava ligar para a firma. Glria imaginou, de novo, se eles estariam com algum problema. Dava-se muito bem com o chefe, conhecia a mulher 
dele, mas ele preferia no falar em sua vida particular. E Glria no tinha inteno de se meter nela. Concentrou-se no trabalho que se acumulara durante as frias 
e, quando uma agitao perto da porta de entrada a fez voltar  realidade, olhou o relgio. Surpreendeu-se: a manh estava terminando.
         Pelo canto dos olhos, viu Bob erguer-se de sua mesa. Sem querer parecer curiosa, tomou a se concentrar no trabalho, imaginando que a agitao teria sido 
causada pela chegada do novo patro. Na certa, Simon, o relaes-pblicas da firma, j havia mostrado a ele a ala de recepo. Ouviu a voz de Bob apresentando a 
equipe tcnica de vendas. A mesa dela vinha em seguida e teve a tentao de erguer os olhos e observar o "homem". Mas dominou-se e esperou, enquanto, depois de breve 
troca de palavras com o pessoal de vendas, Bob encaminhou-se para a mesa dela.
         -  Esta  Glria, minha assistente - ouviu-o dizer. Verdadeiro pilar de sustentao da firma. Excelente funcionria.
         - Sim... Eu j ouvi falar dessa moa.
         Glria sentiu o sangue gelar. Conhecia aquela voz de algum lugar! Mantivera os olhos fixos na gravata cinza do homem de p diante dela, at ento. Fez um 
esforo e ergueu mais o olhar, e seu estmago se contraiu, ao fitar os olhos cinza-ao, apesar de ter sabido de quem era aquela voz, assim que a ouvira.
         Ele estendeu a mo e ela no teve outro remdio seno estender a sua. Ele parecia completamente diferente, naquele terno cinza, bem cortado, com a camisa 
de seda branca. Muito diferente do homem de camisa e cala esporte, pretas, que a perseguira na pracinha, que a beijara contra a sua vontade. No entanto, aquele 
homem e o homem frio, distante, que
         Bob apresentava como Luke Ferguson, o cabea da L.F.N. Corporation, eram a mesma pessoa.
         Sustentou o olhar dele o melhor que pde e percebeu que o choque que Luke tivera fora to forte quanto o dela. Greg sabia quem ele era, pensou Glria, amarga, 
e na certa se divertira muito, vendo que ela estava arriscando o emprego. Bem, Luke podia atingi-la, se quisesse. E mesmo que no quisesse, pois ela no teria condies 
de continuar trabalhando na Computerstore, se isso significava estar em constante contato com ele.
         -  Ento,  assistente de Bob?
         Havia uma inflexo esquisita na voz dele e uma expresso nos olhos cinza que provocou um arrepio de alarme na espinha de Glria. Mas ela ergueu a cabea, 
num gesto automtico, desafiando-o a dizer o que estava pensando.
         -  Estou com a impresso de que vocs j se conheciam... - comentou Bob, desconcertado. - Mas, Glria, hoje cedo.
         -  Eu no sabia que o Sr. Ferguson era o nosso novo patro - interrompeu Glria, fria.
         Corou ao lembrar como humilhara Luke, de propsito, na noite anterior. E a maior parte do pessoal que estava na festa trabalhava na Computerstore. No iria 
demorar muito para todo mundo saber quem era o novo patro e para seus colegas comearem a apostar quanto tempo levaria para ela ser demitida. No iria esperar por 
isso. Assim que Luke se afastasse, contaria tudo a Bob. O telefone tocou, interrompendo-lhe os pensamentos. Estendeu a mo para atender, mas Luke foi mais rpido. 
Atendeu, ouviu e depois passou o telefone para ela comentando, irnico:
         -   para voc. Essa  uma das desvantagens de se ter uma funcionria bonita; o telefone dela no pra nunca!
         Glria teve vontade de dizer que nunca "recebia telefonemas particulares no escritrio. Mas calou-se e pegou o telefone. Era o vendedor da loja onde ela 
encomendara um carro novo. O homem prometera entregar o carro h semanas, mas at ento no tinha chegado. Agora chegara e ele queria saber quando ela iria busc-lo. 
Glria respondeu e desligou, mordendo o lbio. Luke estava falando com Gil, que, apesar de noiva, fazia mil trejeitos e olhava intencionalmente para ele. Aproveitando, 
Glria tentou chamar a ateno de Bob.
         --Tem algum compromisso para o almoo? - perguntou, baixo.
         Pelo visto, no foi em tom baixo o bastante, pois Luke Ferguson virou-se imediatamente para Bob, dizendo:
         -  Desculpe, Bob, mas esqueci de dizer que marquei com o meu assistente para voc almoar com ele. Precisa conversar com voc sobre os nossos planos a respeito 
da firma e tem que ser hoje, porque ele vai amanh para Aberdeen resolver uns problemas numa das nossas companhias de petrleo. Parece que h em vista um bom contrato 
com a Computerstore e no quero perder essa chance. Sinto muito se atrapalho algum compromisso...
         Luke no sentia coisa nenhuma, pensou Glria, zangada. Tinha certeza de que ele inventara aquele almoo para atrapalh-la.
         -  No faz mal -- disse Bob, gentil. - No "h nada de to urgente assim, no , -Glria? O que voc quer? - brincou, fazendo uma careta. - Espero que no 
seja minha opinio sobre um vestido novo!
         Glria sacudiu a cabea, imaginando se era raiva a expresso que percebia nos olhos cinzentos, fixos nela.
         -  Eu posso esperar. Converso com voc depois.
         Queria que Bob fosse com ela buscar o carro. Ficava meio nervosa ao pensar que teria que dirigir um carro novinho em folha no trnsito agitado da hora do 
almoo. Bem, depois que eles sassem, podia telefonar para a loja e dizer que iria pegar o carro no dia seguinte.
         -  Ser que no me aceita como substituto? - perguntou Luke, pegando Glria de surpresa. - J que a deixei sem a companhia de Bob, acho que o mnimo que 
posso fazer  oferecer-lhe a minha.
         -  Acha mesmo? - comentou, certa de que Bob devia estar surpreendido com sua atitude agressiva.
         Gil, ento, ficou de boca aberta, enquanto ela continuava:
         -  Desculpe, Sr. Ferguson - disse, com um sorriso encantador -, mas acho que no pode, de modo algum, substituir Bob.
         Era uma excelente tirada final, e Glria tratou de pegar a bolsa e caminhar rapidamente para a porta, antes que algum pudesse dizer qualquer coisa. Era 
hora do almoo e tinha necessidade de ficar sozinha para se recuperar do choque causado pela descoberta de que o novo dono da firma era o homem que ela humilhara 
daquele jeito. Bem que Greg podia t-la avisado! Ele devia t-la avisado! Devia ter-se divertido Um bocado. E ela devia ter lembrado que ele costumava fazer brincadeiras 
como aquela, devia ter percebido que Luke no era como os amigos de Greg, Sabia que Greg costumava se vingar das moas que o repeliam, e ela o repelira vrias vezes.
         No conseguiria almoar. Comeu um sanduche e tomou caf, decidida a voltar logo para o escritrio. Esperava que estivesse deserto, mas encontrou algum 
sentado  sua mesa e seu corao disparou, quando viu que era Luke. Estava de cabea baixa, lendo alguma coisa, e levantou-se assim que sentiu a presena dela. Estendeu-lhe 
algo metlico.
         - Achei melhor no lhe dar isto na frente de todo o pessoal - disse, suave. - Se bem que acho que estaria fazendo um favor a Bob, que na certa no iria 
continuar com voc, se soubesse que outro homem tem a chave do seu luxuoso apartamento. Como  que ele consegue? -h Os olhos cinzentos percorreram Glria de alto 
a baixo. - Voc no me parece uma mulher de gostos simples... Roupas caras, apartamento em bairro de elite, jias discretas, mas .evidentemente muito valiosas, enfim, 
todas as coisas que uma mulher bonita exige. Bob tem esposa e filho para sustentar... mas acho que, quando um homem arranja uma mulher como voc, sempre d um jeito, 
no, Glria?
         Ela estava atordoada demais para conseguir falar. Por instantes, achou que tinha entendido mal. Luke no podia estar insinuando que era amante de Bob e, 
pior ainda, que ele a sustentava! Mas estava, como ele mesmo logo esclareceu:
         - Se est pensando era negar, no perca tempo. Conheo bem essas coisas e tenho um senso de percepo muito bem desenvolvido. Por isso consegui chegar onde 
estou. Assim que vi voc, percebi que no era uma garota comum, mas deixei que o desejo atrapalhasse o meu julgamento. Nunca pensei que iria se recusar a me deixar 
lev-la para casa! Voc  uma vigarista refinada, no? Por que me encorajou, no comeo, Glria? Ou ser que posso adivinhar? Sabia que eu era um homem rico e sentiu 
ambio. Se um homem como Bob Norman podia lhe dar tanta coisa, imagine o que eu poderia dar! S que esfriou o entusiasmo e pensou melhor... Achou que era prefervel 
ter menos, mas de maneira segura. Afinal, nada garantia que eu ia lhe dar alguma coisa e iria perder Bob. Devia ter sido mais corajosa, meu bem - disse, macio. - 
Do jeito que eu estava querendo voc, ontem  noite, seria capaz de lhe dar tudo o que quisesse. No entanto, a luz do dia trouxe o meu juzo de volta e acho que, 
afinal, voc decidiu certo. Bob sabe do que houve ontem  noite?
         -  H alguma coisa para ele saber? - Glria estava surpresa por conseguir parecer to calma, apesar das vis acusaes terem provocado algo sufocante em 
seu peito.
         -   mesmo - concordou Luke. - Mas os amantes sempre tm cime, e eu tenho isto... - Sacudiu a chave, sorrindo de modo cruel. -
         Para mim, seria a coisa mais fcil do mundo tir-la do bolso, sem querer, diante de Bob, e seria muito difcil para voc convenc-lo de que no h nada 
de mais no fato de eu estar com a chave da sua casa.
         Aquelas palavras acabaram com o controle de Glria, que cerrou os punhos e encarou-o, vermelha, os olhos soltando chispas:
         -  Prefiro morrer, a deixar que voc ponha as mos em mim! Nunca pense em fazer amor comigo!
         A voz dela tremia de dio. Estava empolgada demais para perceber que Luke empalidecia de raiva, enquanto ela demonstrava averso por ele, o desprezo pelas 
ameaas sujas, pela idia que fazia dela com Bob. Era uma atitude tpica de um homem como ele, pensou, desgostosa. Tirar suas prprias concluses e pronto. Na certa 
tinha tido com inmeras mulheres o relacionamento que atribua a ela e a Bob. Era mais fcil livrar-se de mulheres aborrecidas quando eram simplesmente "compradas". 
Homem algum a compraria! O amor era a nica coisa que permitiria uma intimidade sexual e aprendera  prpria custa que o amor no existia. Por isso, decidira viver 
sozinha para sempre e era o que ia fazer. Uma amante sustentada! Seus lbios franziram-se numa expresso amarga.
         -  Ento, prefere morrer, ? - murmurou ele.
         Havia uma pesada ameaa naquelas palavras, mas Glria no se deu conta. Agora estava muito plida, os olhos sombrios. Nunca um homem falara com ela daquele 
jeito e a crueza das acusaes a tinha despojado da capacidade de se defender.
         -  Que me diz da mulher' de Bob? Ou nunca a incluiu nos seus clculos? - continuou Luke, com desprezo. - No se importa de estar destruindo um casamento, 
roubando um marido e pai?
         Glria quase respondeu que a principal regra de sua vida era manter distncia de qualquer homem comprometido. Ficara muito magoada com a falta de lealdade 
de um homem e nunca mais correria esse risco de novo.
         -  Pelo jeito, voc no conseguiu envolv-lo direito, ainda acrescentou Luke, sarcstico. -Seno, ele estaria morando com voc.
         O jeito cheio de desprezo, os insultos pesados, tudo contribuiu para Glria responder, decidida:
         -  Talvez eu no queira morar com ele. Talvez...
         -  Talvez voc ache a sua liberdade mais importante do que qualquer homem - interrompeu-a Luke, agressivo. - Esse  seu tipo de mulher, no, Glria? Usa 
a sua beleza como uma arma, exigindo tudo e dando nada em troca. O que vai acontecer, quando se cansar de Bob? Ou ser que j se cansou? Ser que tudo aconteceu, 
ontem  noite, porque j est procurando um substituto para ele?
         Dessa vez, o autocontrole de Glria rompeu-se completamente. A marca de sua mo no rosto moreno de Luke primeiro foi branca, depois ficou vermelha e, afinal, 
a pele voltou ao tom normal. Nenhum dos dois falou ou se moveu, durante aqueles interminveis momentos, mas encaravam-se com um brilho feroz nos olhos.
         Tinha reagido como uma megera, pensava Glria, atordoada. O que dera nela? Orgulhava-se tanto de ser controlada! Nem mesmo Richard, cujas atitudes e palavras 
tinham sido bem mais dolorosas do que as de Luke Ferguson, provocara reao to violenta nela. Sentiu-se mal, enjoada, as pernas amoleceram e ela tentou aproximar-se 
cegamente de uma cadeira. - Voc est enganado. Eu... A tentativa de explicao, de um pedido de desculpa foi anulada.
         -  No. Voc  que est enganada, Glria, se acha que pode me tratar do jeito que tratou e que tudo fica por isso mesmo.
         Como se uma escala de valores tivesse surgido diante de seus olhos, de repente Glria viu Luke como o homem que realmente era. Um homem que construra um 
imprio financeiro partindo praticamente do nada; um homem conhecido no mundo dos negcios pela frrea determinao com que abria seu caminho; um homem que ela humilhara 
e insultara grosseiramente e que agora se erguia, ameaador... um homem com quem estava completamente sozinha...
         Deu alguns passos para trs, com as pernas tremendo, pensando em sair correndo, mas quase que imobilizada, fascinada pelos olhos cinza-ao.
         -  Agora parece que no est mais to valente - disse Luke, movimentando-se para ela com gestos elsticos como os de uma pantera.
         O terror tomou conta de Glria, mergulhando-a num abismo negro, paralisando-lhe o crebro.
         -  No... - continuou ele, com a voz assustadoramente contida. --No vou pr as mos em voc agora, Glria. Mas um dia vou fazer voc pagar as promessas 
que os seus olhos e o seu corpo me fizeram ontem. - Riu, cnico. - E no tente dizer que isso  mentira. Voc me desafiou para um jogo, Glria. Agora, quem est 
dando as cartas sou eu, e o jogo s vai acabar quando eu quiser.
         Ele brincava com ela como um gato com um rato, pensou Glria amargamente; atormentava-a de propsito, sabendo que, como patro, tinha certo poder sobre 
ela.
         -  No acredito que v lutar por mim como um homem interessado em qualquer mulher - disse Glria, tentando parecer indiferente. - Principalmente quando 
sabe que essa mulher tem um amante.
         Por instantes, teve a impresso de que ele ia agarr-la. Seu corpo contraiu-se de medo, ao ver o brilho nos olhos dele.
         -  Eu sou um homem de negcios - disse Luke, frio - e no gosto de ser tapeado. Quis voc no momento em que a vi, Glria... voc  mesmo uma mulher muito 
bonita... e pretendo ter voc!
         Virou as costas e saiu da sala, deixando-a na rdua tentativa de pr os pensamentos em ordem. Aquele homem era louco! Estava agindo como se fosse um senhor 
feudal com direitos sobre ela. Sabia que deveria estar furiosa de raiva, mas, por um motivo que no entendia, aquele confronto parecia t-la esvaziado de toda energia 
para qualquer coisa, menos para sentir medo.
         Com mo trmula, discou o nmero do telefone da portaria do prdio onde morava. George atendeu imediatamente e disse que havia mudado a fechadura. O alvio 
foi to grande que seus olhos encheram-se de lgrimas, e ela se surpreendeu mais uma vez: no era assim to emotiva!
         Quando Bob chegou do almoo, Glria perguntou se podia ir com ela at a loja e explicou:
         -  Morro de medo de dirigir sozinha um carro novo pela primeira vez. Preciso de apoio moral.              
         -  Por que no pediu ao patro? - indagou Gil. - Ele demonstrou que estava disponvel e disposto.
         -  Deixe de ser boba, Gil! - explodiu Glria, antes de Bob falar. - J disse que voc vive com romances na cabea!
         -  T... Me fale do carro novo, ento - pediu Gil. - De que marca ?
         -  Um Mercedes - respondeu Glria, sem jeito, achando que aquilo podia parecer ostentao. - Sempre quis um carro assim e agora resolvi.  esporte, conversvel...
         -  Um Mercedes?! - Gil ficou maravilhada. - Um carro esporte sensacional! E como vai fazer no inverno?
         Nenhum deles viu Luke, que tinha entrado na sala. Feliz por ver que a amiga no demonstrava inveja, Glria respondeu, brincando:
         -  No inverno vou usar uma Ferrari. O que acha, Bob? Que tal comprar uma Ferrari, depois de levarmos o Mercedes para casa?
         Glria ainda estava rindo, quando se virou e viu a expresso desgostosa de Luke. Sentiu surpresa, vergonha, percebeu que demonstrava isso no rosto e compreendeu, 
aflita, que aquilo era, para Luke, uma confirmao de que Bob havia comprado o carro para ela.
         O telefone de Bob tocou, ele foi atender e Gil dirigiu-se para a mesa dela, deixando Glria s e indefesa. Luke aproximou-se o bastante para murmurar, sem 
que os outros ouvissem:
         -  Acho que preciso dar uma espiada nos livros de contabilidade. Bob no pode corresponder ao luxo que voc exige, a no ser que tenha meios particulares. 
Voc se atribui um preo bem alto, no?
         -  Tanto que voc no pode pagar? - retrucou Glria, impulsiva, sem pensar na interpretao que ele podia dar quelas palavras.
         Luke j pensava dela o pior que se pode pensar de uma mulher; tudo  mais no importava:
         -  Ao contrrio - respondeu ele rapidamente, pegando-a desprevenida. - Posso, facilmente, dar-lhe o Mercedes e a Ferrari. Pense nisso, Glria. Gosto de 
pagar generosamente pelo meu prazer.    
         -  Como voc  bonzinho! - ironizou ela. - Se quer alguma coisa, acha imediatamente que pode compr-la. Nunca lhe ensinaram que existem coisas que no podem 
simplesmente ser compradas?
         Aquelas palavras fizeram Luke erguer as sobrancelhas, enquanto seus olhos brilhavam, zombeteiros. Olhou-a fixamente, dizendo:
         - Mas ns dois sabemos que voc no  uma dessas coisas, no , Glria?
         
        
        CAPTULO III
         
         Bob e Glria saram do escritrio um pouco mais cedo, para ir buscar o carro. Bob e o vendedor examinavam tudo, enquanto ela olhava o elegante carro verde-metlico, 
imaginando se conseguiria dirigir aquele monstro!
         -  Tem cmbio automtico, perfeito para uma mulher bonita! - disse o vendedor, galante.
         Bob ficou ao lado dela, paciente, enquanto Glria dirigia, nervosa, at em casa. Tinha uma hora pela frente, dissera, e, se ela quisesse, podia dar umas 
voltas, para se familiarizar com o carro. Quando estavam chegando ao apartamento, Glria j estava comeando a se sentir confiante. Apesar do tamanho e do peso, 
era um carro fcil de dirigir. Os assentos estofados em couro eram cmodos e havia espao bastante para suas longas pernas.
         -  Posso retribuir a sua pacincia com um drinque? - perguntou a Bob, quando pararam.
         Ele olhou o relgio com o ar preocupado que ela notara nos ltimos dias.
         -  No d, Glria- disse. - Por causa de Elaine, sabe? Ela anda esquisita... - Movimentou-se sem jeito, diante do olhar intenso de Glria, e explicou: - 
Ela meteu umas besteiras na cabea, acha que est ficando velha e que eu ando interessado em alguma garotinha bonita. Disse a ela que isso no tem sentido... - Sua 
voz era repassada, de aflio e Glria sentiu pena dele e de Elaine. - O fato  que... Bem, Glria, ela descobriu um caroo no seio e est apavorada. O nosso mdico 
disse que h mais chance de ser um tumor benigno, mas Elaine no se conforma. Tem que ser operada.
         -  Coitada! - exclamou Glria, penalizada.        
         Era horrvel uma mulher sensvel como Elaine enfrentar uma operao como aquela. Devia imaginar que Bob no a achava mais atraente. Bobagem. Bob adorava 
a mulher. Glria sabia disso, mas no adiantava para Elaine. Sentiu um frio na espinha. E se por acaso ela ficasse sabendo o que Luke pensava? Era impossvel. Como 
iria saber? Depois, era s ele que pensava aquilo. Todos, na firma, sabiam que nada havia entre ela e Bob. Se Luke perguntasse, iria acabar se convencendo disso, 
tambm.
         Bob foi embora e Glria, pouco depois, fazia uma refeio ligeira. De vez em quando, parava de comer e ia at a janela, para olhar?- l embaixo, seu carro 
novo. George a vira chegar e fora ao seu encontro, cumprimentando-a, entusiasmado, pelo carro novo. E, depois de lhe dar a chave da nova fechadura, oferecera-se 
para estacionar o Mercedes no ptio do prdio.
         Depois de comer e lavar a loua, ela sentou-se na sala para ver um pouco de televiso. Era um documentrio sobre a vida rural da Inglaterra. Por acaso, 
tratava-se da cidade do interior onde ela nascera e crescera. Enquanto ouvia o locutor falar do contraste entre a vida urbana e a rural, percebeu um homem' atrs 
dele, de p na pequena praa. Reconheceu-o, emocionada. Era Richard. Um Richard mais velho, mas ainda bonito, vigoroso. Procurou por Elizabeth ao lado dele, em 
vo. Claro que a filha do maior fazendeiro local no iria querer ser vista num barzinho da praa, que era para onde o reprter se encaminhava. Era um bar muito freqentado 
por fazendeiros e ela estivera l algumas vezes... com Richard. O primeiro encontro... Lembrava-se dele como se tivesse acontecido ontem.
         Vivera naquela cidade a vida toda. Por motivos que s descobrira muito mais tarde, seus pais faziam questo de viverem isolados. Seu pai era advogado, ela 
era filha nica e a me no tinha amigas. Os dois viviam mesmo um para o outro e s vezes ela se sentia sobrando. Um amor como aquele era coisa rara, como ela iria 
descobrir algum tempo depois da morte deles.
         Conhecera Richard quando ele fora pedir conselhos a seu pai sobre a compra de umas terras pegadas  sua fazenda. O pai dele tinha organizado uma das fazendas 
mais produtivas da regio. Morrera de um ataque cardaco, e Richard, que estava estudando numa escola de agricultura, tomara o lugar dele. A me e duas irms moravam 
com ele. Richard era um dos homens mais importantes da cidade. Glria tinha acabado de se formar e estava trabalhando no escritrio do pai para adquirir prtica. 
Depois de falar com o pai dela, ao sair, quando o acompanhara at a porta, Richard a convidara para sarem juntos e Glria ficara maravilhada. Levara dez segundos 
para entender o convite e outros quinze para responder que sim, enquanto ficava muito vermelha. Em parte por ser muito tmida, em parte por ter estudado apenas em 
colgios femininos, ela no sabia como agir com rapazes.  Richard parecia-lhe um deus.
         Sempre via as garotas da cidade conversarem sobre ele, entusiasmadas, e achava um milagre ele a ter convidado para sair.
         O encontro foi marcado para o sbado, quatro dias depois. Foram quatro dias de encantamento e de medo. Encantamento por ter sido escolhida por Richard para 
sair; medo de ele a achar ridiculamente infantil c sem a sofisticao que, naturalmente, esperava de suas namoradas. Gastou o dinheiro que guardara cuidadosamente, 
dos ordenados recebidos, num vestido que a vendedora afirmou ser o ltimo grito da moda, e num estojo de maquilagem.                                             
.        .
         Seus pais sabiam do encontro e achavam divertido o efeito que aquilo fazia nela. Richard chegou para peg-la com o carro que ganhara do pai ao fazer vinte 
e um anos, pouco antes de ele morrer. Depois de prometer aos pais de Glria que iria cuidar bem dela, levou-a at o carro esporte vermelho e o romance deles comeou.
         Depois de dominar a timidez inicial, Glria no duvidou nem por um momento de que seu amor por Richard era correspondido. Se no fosse, por que ele iria 
continuar saindo com ela? Verdade que "ele no a havia levado para conhecer sua me, nem s festas das famlias para as quais era convidado. Mas ela achava que era 
porque preferia que ficassem sozinhos. Correspondia aos beijos dele com timidez, tinha sensaes que no conseguia identificar, quando ele a abraava com paixo. 
A nica vez que Richard tocara seus seios, suas emoes culminaram numa mistura de excitao e vergonha, que a fizera retrair-se. Saam h seis, meses quando chegou 
o Natal. Richard sempre lhe dizia que a amava e a desejava, que no devia ter vergonha disso, nem medo. Ele iria ensinar-lhe tudo.
         Os pais dela viajaram uma semana antes do Natal. Seu pai tinha um encontro de negcios em Londres e a me o acompanhou. Glria no gostava muito de ficar 
sozinha em casa, mas eles no tinham sugerido que fosse tambm e, se fosse, perderia o encontro com Richard, no fim da semana.
         J era noite quando ele chegou, dizendo vagamente que estivera ocupado at mais tarde na fazenda. Glria deixara as luzes da casa acesas, pois tinha medo 
de voltar e entrar na casa s escuras. As janelas brilhavam na escurido, quando ela entrou no carro,
         Richard levou-a ao cinema. Lembrava-se vagamente do filme: homens lutando, sangue por todo lado, mulheres gritando. Quando voltavam para casa, apoiou a 
cabea no ombro de Richard. Pararam em frente  casa e ele a beijou com uma fome que a deixou assustada e excitada. Convidou-o para tomar um caf e, s quando ela 
j estava voltando da cozinha para a sala, com a bandeja,  que ele percebeu que estavam sozinhos. O jeito dele se alterou, mas ela era ingnua demais para notar. 
Quando Richard a tomou nos braos, correspondeu com toda a ansiedade do amor de seu jovem corao, protestando francamente quando a mo dele insinuou-se sob a blusa 
e tocou o bico de um seio. Seu corao batia to pesado que teve a impresso de que ia sufocar de excitao. Richard beijava-lhe, rpida e ardentemente, o rosto, 
o pescoo e, ento, entre espirais de sensaes, ouviu-o perguntar por que no iam l para cima. Ficou chocada. No podiam, respondeu, isso no era certo.
         Besteira, respondeu ele. Eles se amavam, no?
         Amavam-se, sim, concordou Glria, e acrescentou, tmida, que sempre sonhara se casar de branco e que "aquilo" no podia acontecer antes de estarem casados. 
No iria demorar, pois j tinham casa onde morar e...
         Inocente, no entendeu a brusca mudana que se operou nele. Com uma  expresso  dura,  Richard  levantou-se  e  caminhou  at  a  lareira, parecendo frio, 
distante. - O que foi?-perguntou ela, alarmada pela expresso dos olhos dele.
         -  No vou me casar com voc - disse Richard. - Onde diabo foi buscar essa idia? Eu nunca falei em casamento.
         -  Voc disse que me ama! - Era o grito de um animal apanhado numa armadilha.
         -  Ora, deixe disso! - exclamou Richard, brutal. - No me venha bancar a inocentinha! Uma coisinha quente e apaixonada como voc no foi feita para casar... 
Podemos passar momentos deliciosos juntos, Glria.
         A autoconfiana dele estava voltando e tornou a sentar-se ao lado dela, abraando-a e tentando beij-la. Mas Glria o repeliu. Richard no queria se casar 
com ela, vai ver que nem a amava. Por dentro, estava chorando de agonia; por fora parecia feita de mrmore.
         -  Pensei que me amasse... - Tinha que se esforar para as palavras sarem de sua boca seca. - Pensei que quisesse casar comigo.
         - Casar com voc? - Era evidente que Richard estava zangado por causa da reao dela. - Meu Deus, minha me teria um ataque! Eu vou casar com a filha de 
sir Peter Lawtry... pelo menos  o que mame espera... e no com a filha ilegtima de um advogadozinho de provncia! Casar com voc? Aposto que minha me preferia 
me ver morto!
         Deviam ter dito outras coisas, mas Glria no se lembrava. Tudo o que conseguia recordar era que ficara esmagada de dor e desiluso; primeiro porque Richard 
no a amava; estava apenas usando-a friamente enquanto esperava por um casamento socialmente vantajoso; depois porque era, como ele dissera, filha ilegtima!
         Quando, afinal, ele percebeu que no ia mesmo conseguir lev-la para a cama, foi embora, depois de cham-la de nomes que a fizeram ficar enjoada e que provaram 
que Richard jamais ligara, mesmo, para ela. Com os sonhos destrudos, Glria passou o resto do fim de semana pensando no que ele tinha dito.
         Pelo que Richard dissera, ficara sabendo que seu pai tinha sido casado com uma amiga de sua me. Essa amiga sofrer um acidente e ficara presa a uma cadeira 
de rodas, paraltica e, apesar de sua me ter ficado grvida, s tinham se casado depois de a mulher dele morrer.
         Assim que os pais chegaram, Glria os interrogou. Eles no negaram. A me encarava, triste, o rosto plido e angustiado da filha.     ,
         -  Em essncia, o que Richard disse  verdade, Glria ;- dissera, mais tarde, ao procurar Glria, que se refugiara em "eu quarto. - Procure entender. Seu 
pai e eu nos apaixonamos. Ele tentou agir certo, me afastar, mas eu no quis. Sabia que ele precisava de mim... O acidente de Anne no a inutilizou apenas fisicamente, 
mas tambm lesou o crebro dela. Era como uma criana, e seu pai no seria o homem que , se a abandonasse. Respeitei a deciso dele de ficar com Anne, mas ele no 
conseguiu me convencer a ir embora, a levar a minha vida por minha conta. Porque ele era a minha vida. Quando eu soube que estava esperando voc, fiquei contente. 
Voc era a prova viva ,do nosso amor e no senti vergonha. Sabamos que Anne no tinha muito tempo de vida e, quando pudemos nos casar, a nossa felicidade tornou-se 
completa, principalmente porque no a tnhamos conseguido  custa de Anne.
         -  E eu?! - gritou Glria, angustiada. - Eu fui uma filha ilegtima! A me de Richard prefere ver o filho morto a v-lo casado comigo! Ele s queria transar 
comigo... disse que tal me, tal filha!
         A me de Glria estremeceu, ao ouvir aquilo, e a abraou.
         -  Filhinha... - disse baixinho.-- Ele magoou voc tanto... voc ainda  to criana! Sei que no vai me acreditar, mas, se Richard a amasse mesmo, nada 
do que a me dissesse ou fizesse o impediria de casar com voc. Um dia vai encontrar um homem que a ame de verdade e ele no vai ligar se os seus pais eram casados 
ou no, ele vai se importar s com voc.
         A msica que abria e fechava o programa de tev trouxe Glria de volta ao presente. Sua me tinha razo sobre o fato de Richard no a amar, e, ao chegar 
a Londres, viu que aquilo de parentesco no tinha grande importncia. Os companheiros de trabalho a aceitavam como ela era. Alem disso, atualmente esse negcio de 
filhos naturais no queria dizer mais nada. Mas a atitude de Richard tinha causado um ferimento profundo. Desde ento, nunca tivera um namorado. No comeo, achava 
que odiava os pais, principalmente ao saber que Richard iria se casar. Quatro meses depois, seus pais tinham morrido, felizmente depois de ela ter ido passar um 
fim de semana com eles e dito que, de fato, compreendera que, se Richard a amasse de verdade, no ligaria para os fatos do seu nascimento. Seria terrvel se eles 
tivessem morrido achando que ela os odiava.
         J era tempo de esquecer o passado, disse a si mesma. Mas era fcil dizer e muito difcil fazer, principalmente com um homem como Luke Ferguson por perto. 
Uma sombra passou-lhe pelos olhos. Levantou-se e desligou a televiso. O irnico era que tudo tinha ficado s avessas. Ela, amante de Bob! No era obrigada a agentar 
insultos como aqueles! Se no fosse pelo fato de Bob j estar com problemas bastante srios, poria seu pedido de demisso na mesa de Luke Ferguson na manh seguinte! 
Ficara horrorizada, ao saber que Luke pretendia se demorar vrias semanas na firma, a fim de verificar se estava funcionando com o mximo de eficincia. Tudo o que 
podia desejar era que a operao fosse feita, que o tumor de Elaine fosse benigno e que pudesse sair da firma sem deixar Bob em m situao.
         Suas esperanas morreram ao chegar ao escritrio, no dia seguinte. Bob j estava  mesa dele, com expresso abatida, os cabelos parecendo mais grisalhos. 
Havia duas xcaras de caf vazias e papis espalhados na mesa. Ele devia estar ali h bastante tempo.
         -  Elaine? - perguntou Glria.
         -: Ms notcias, acho - respondeu Bob, desanimado. - Levei-a para o hospital hoje cedo. Vo operar  tarde. Ela parecia muito calma... - observou, preocupado, 
- O mdico concordou comigo: parece que ela no aceita o que est acontecendo. Tentei conversar com ela, mas no quis me ouvir. Estou com medo, Glria...
         -  No pode deixar Elaine sozinha neste momento, Bob... - comeou ela a dizer.
         Ia perguntar a que horas Elaine seria operada, se ele no queria ir para o hospital, que ela cuidaria de tudo, ali, quando percebeu que Luke entrara na 
sala e ouvira o restinho do que tinha dito. Era fcil saber o que ele pensava, por sua expresso.
         -  Bob, pode me emprestar Glria, hoje? - indagou Luke, spero. - Quero atender a Millington pessoalmente e vi que vocs sempre vo falar com eles juntos, 
quando surge algum pedido.
         -  Mellington? - murmurou Bob, confuso.
         Ele estava to preocupado com Elaine que no conseguia se concentrar no trabalho, mas ela lembrava: era uma pequena firma especializada em mveis. S podiam 
ter problemas. A firma vinha sendo dirigida h duas geraes pela famlia que a fundara, e pai e filho no concordavam completamente. O filho quisera usar os servios 
da Computerstore, enquanto o pai teimava em permanecer com os velhos mtodos que usara a vida toda.
         -- Aquela firma de Lake District - disse ela a Bob. - Quando fomos atend-los, passamos o fim de semana l.
         Fez o comentrio sem lembrar as concluses que Luke tiraria. Elaine tinha ido com eles e Glria passara a maior parte do tempo sozinha, descobrindo as belezas 
do lugar, deixando marido e mulher  vontade.
         -  Ah, sim! Agora lembrei - concordou Bob, um brilho feliz passando pelos olhos cansados. - Ficamos naquele hotel velho, o nosso quarto tinha uma cama enorme, 
com dossel!
         -  No d tempo de ir at l e voltar no mesmo dia - explicou Glria, esperando que Luke mudasse de idia.
         Mas, com um brilho gelado nos olhos cinzentos, com expresso irnica, ele disse:
         -  Podemos ficar l, no? Preciso de um de vocs comigo. Como Brian ainda no voltou de Amsterd,  melhor Bob ficar aqui.
         Glria abriu a boca para dizer que no iria,,quando olhou para Bob e se lembrou de Elaine. Se recusasse, ele teria que ir. Ergueu a cabea, com ar de desafio:
         -  Quando pretende ir?
         -  Hoje. Tem uma hora para fazer a mala. Vou peg-la em casa. D o nome do hotel a Gil e diga-lhe para reservar dois apartamentos.
         -  Eu posso ir no meu carro - tentou Glria. - No precisa...
         -  E a firma ter que pagar a despesa de dois carros? ~- indagou Luke, erguendo as sobrancelhas. - No. Vamos juntos, no meu carro. - Olhou o relgio. - 
J passaram quase dez minutos da sua hora. Quero chegar l antes do anoitecer. A entrevista est marcada para amanh cedo.
         Glria sentiu um arrepio de medo na espinha, ao pensar em passar a noite sob o mesmo teto que Luke, mas no tinha jeito, se no quisesse complicar Bob mais 
ainda. Aproximou-se dele, pondo a mo num ombro do chefe. Sabia que Luke os observava; ento virou-lhe as costas, para que no ouvisse o que ia dizer.
         -  Espero que tudo corra bem na operao.
         -  Eu tambm... Elaine sempre foi muito insegura - confidenciou Bob --, e esse tumor a fez piorar. Acha que no vou mais gostar dela... No sei o que fazer 
para lhe devolver a confiana. Mas isso no  problema seu, Glria. Tem certeza de que quer ir com ele? Sei que no  da minha conta, mas dizem que ele  metido 
a conquistador.
         Ela teve vontade de rir. Bob tentando preveni-la contra Luke. Se ele soubesse!
         Determinada a no deixar que Luke subisse ao seu apartamento, ela fez a mala num instante, esperando que a qualquer momento o intercomunica dor tocasse 
e o porteiro avisasse que ele chegara. No precisava de muita coisa: uma muda de roupas de baixo, um conjunto para o encontro de negcios, uma cala jeans para o 
caso de ter algum tempo livre, uma blusa e roupas confortveis para a viagem. Estava fechando a mala quando o intercomunicador soou.
         -  J estou descendo - disse, esperando que Luke ficasse l embaixo. Mas ele j estava subindo. Frustrada, vestiu o casaquinho do terninho
         que escolhera para viajar, ps a bolsa no ombro e ficou parada no meio da ampla sala elegante, esperando a campainha tocar. Quando tocou, sentiu o som atingir-lhe 
os nervos. Abriu a porta com as mos trmulas. Pensava fazer Luke ficar esperando no hall enquanto pegava a mala, mas ele entrou, observando o apartamento com ar 
apreciador.
         -  Muito lindo... - disse, por fim. - Bob gasta um bocado com voc.
         O tom era cnico e Glria parou no umbral da porta do quarto, segurando a mala, sem imaginar como estava linda, os cabelos loiros realados pelo conjunto 
verde-musgo, os olhos brilhando devido s emoes que tentava desesperadamente controlar.
         -  S o que acho que ele pode gastar - respondeu, tensa.
         -   mesmo? - Havia descrena na voz dele e algo mais que ela no conseguiu identificar.
         Luke estava plido, seus olhos escuros, quase negros. Obsessivos, pensou ela, frios e insensveis.                                        .:..:
         -  Quer mesmo destruir o casamento dele?
         - No, no quero - respondeu ela, quase sem querer, ficando plida.
         -  Ento, prove - falou Luke, rouco. - Prove, casando-se comigo.
         -  Casando com voc? - A voz de Glria soou incolor, os olhos espelhando todo seu espanto. - Acho que no quis dizer isso. Voc...
         -  Quis, sim. Case comigo, Glria, seno vou fazer a mulher de Bob ficar sabendo do caso de vocs.
         -  Voc vai fazer o qu?! Por qu?
         Estava perplexa. Podia entender que ele usasse de chantagem para lev-la para a cama, mas casar com ela? Ele no podia, mesmo, querer casar com ela; aquilo 
devia ser parte do plano.
         -  Por qu? - uma expresso to torturada espelhou-se no rosto e nos olhos de Luke que Glria ficou petrificada. - Porque, desde que a conheci, no como 
nem durmo. Porque  uma tortura pensar em voc noite e dia. Preciso ter voc, Glria.  como uma doena que tomou conta de mim.              .
         - Mas... casamento!
         -  No quero dividir voc com ningum - disse ele, amargo -, nem ser mais uma pea da coleo de homens que alimenta a sua vaidade. Espero, um dia, acordar 
livre desta obsesso que est me devorando; ento me divorcio de voc. Mas, at ento, voc ter que ser s minha e fazer o que eu quiser.
         -  E se eu recusar? - replicou Glria, a garganta apertada.
         Ele chamara o desejo de possu-la de obsesso. E era isso: uma fome aguada pela loucura dela ao humilh-lo. Por instantes, teve a tentao de abrir a porta 
e fugir. Mas lembrou-se de que ele no a deixaria ir muito longe. Casamento!
         -  Se recusar, vou fazer Elaine saber do caso entre vocs, deste apartamento, do fim de semana que passaram juntos, do carro que ele comprou para voc...
         -  No  verdade! - gritou Glria, revoltada. - Nada disso  verdade! No temos caso nenhum, este apartamento  meu, eu comprei. Bob  apenas um bom amigo.
         -  Voc gosta o bastante dele para proteg-lo. No sei o que pretende, mas no adianta, Glria. Vou fazer o que disse. Case comigo ou Elaine vai ficar sabendo 
de tudo.
         Em circunstncias normais, Glria nem hesitaria. Diria tudo a Bob e ele avisaria Elaine. Mas, com a operao, com o estado emocional em que. ela se encontrava, 
isso era impossvel. Se Luke dissesse a Elaine que ela e Bob tinham um caso, ela acreditaria. Por momentos, Glria teve a idia maluca de ir falar pessoalmente com 
Elaine, de contar tudo, mas achou que isso iria fazer com que parecessem ainda mais culpados, Luke estava com todos os trunfos na mo, pensou amargamente. Mas casamento...
         -  Por que casamento? - perguntou. - Por que no apenas um caso? Uma noite, talvez? Afinal,  para isso que eu sirvo, segundo voc pensa, no?
         Ficou vermelha, enquanto dizia isso. Ele se aproximou, segurou-a pelos braos, os olhos com um brilho to ardente que ela chegou a pensar que preferia quando 
estavam frios, gelados.
         -  J disse por qu. No consigo analisar a necessidade que tenho de voc, Glria.  um desafio a todas as leis da lgica. Sei que voc  uma vigaristazinha 
que vende caro os seus favores; sei que no se importa a mnima com quem machuca ou como, mas eu quero voc de um jeito que me faz sentir dores no corpo todo... 
e sei que essas dores no vo parar com uma noite apenas. No  possvel matar a fome de um homem com apenas uma migalha de po!
         Glria ficou assustada, ao perceber a intensidade com que Luke a desejava. Era realmente como uma doena, pensou, aflita, estremecendo sob o olhar incandescente. 
Richard tambm a queria, no hesitara em mentir, dizendo que o simples desejo sexual era amor, mas Luke era de uma sinceridade cruel.
         -  Quero a sua resposta agora - disse, cortando-lhe os pensamentos. - Voltamos dessa viagem como marido e mulher ou eu conto a Elaine o que est havendo 
entre voc e o marido dela.
         E Glria sabia que ele faria isso. Sentiu como se uma mo gigantesca lhe apertasse o corao, mal conseguia respirar, imaginando o que significava ser a 
mulher de Luke. Estremeceu, ao se lembrar do beijo que ele lhe dera. Ainda agora, ao lembrar como ele a fizera sentir-se, tinha vergonha. Naqueles momentos, sentira-se 
como a mulher que ele a acusava de ser...
         -  Se eu concordar, perco Bob para sempre - disse, tentando desesperadamente encontrar uma sada.                
         O instinto lhe dizia que no adiantava insistir na verdade, contar o estado em que Elaine se encontrava. Ele usaria isso como mais uma arma.
         -  Perde mesmo! - admitiu Luke, selvagem. - No pretendo dividir voc com ningum, Glria. Afinal, isso devia deix-la orgulhosa! Sabe que ele no pretende 
deixar Elaine por voc e, se o ama mesmo, no deve destruir um casamento importante para Bob. Esquisito... no pensei que voc fosse o tipo de mulher que protege 
seu homem. Talvez o faa enquanto ele pagar as suas despesas, no ?
         Glria sentiu vontade de gritar que ele estava completamente enganado. Ela pagava suas despesas, preocupava-se por Bob apenas como, amigo, mas sabia que 
Luke no acreditaria. Estava to convencido do que pensava que nada iria fazer sua opinio mudar. Enquanto ela permanecia imvel no meio da sala, ele entrou no quarto, 
observou-o, enquanto palavras de gelada fria subiam-lhe aos lbios:
         -  Esquisito... - disse, notando a delicadeza do quarto feminino, decorado em tons suaves de pssego. - No parece um quarto usado por um homem e uma mulher.
         Antes que ela pudesse impedi-lo, abriu o guarda-roupa.
         -  Vestidos lindos - comentou - e caros. Onde Bob guarda as coisas dele? Ou  to discreto que no deixa nada aqui?
         Indignada demais para responder, Glria foi para a cozinha. Talvez um copo de gua aliviasse a sensao de enjo que a atormentava. Estava pegando o copo 
quando percebeu Luke atrs dela.
         -  Ento? - indagou ele, frio. - Qual  a resposta? !
         -  Se dependesse apenas de mim, eu no hesitaria em dizer no - respondeu, com voz trmula. - Isso que est fazendo,  chantagem... Pensar em fazer amor 
com voc me deixa doente! - A voz dela comeou a subir histericamente.
         Sentiu duas mos frreas agarrarem-lhe os ombros e vi-la-. Viu-se de frente para Luke, enquanto lgrimas lhe corriam pelo rosto e pingavam na blusa branca.
         -   mesmo? - Havia uma velada ameaa na voz dele. - Bem, podemos dar um jeito para ver se mudamos isso, no? Mas no agora - acrescentou, vendo que ela 
empalidecia ainda mais. - Quando eu tiver voc, Glria, quero saborear tudo, no agir apressado como um adolescente ansioso. E voc vai gostar... - disse, acariciando 
de leve os ombros dela, descendo as mos at tocar o tecido do casaquinho sobre os seios. - Voc vai corresponder... - murmurou, os lbios junto aos cabelos dela. 
- Seja qual for o prazer que Bob lhe d, eu vou dar mais!
         -  No pode! - As palavras rasgaram a garganta de Glria como um grito de terror.
         Por instantes, ela mesma ficou surpresa; seu corao batia como louco, sentia um medo que lhe contraa o estmago, amolecia-lhe as pernas, dava-lhe o desejo 
de se apoiar no corpo de Luke. Tinha emoes que a assustavam. Odiava aquele homem; no entanto, sentia-se fraca diante da idia de ser possuda por ele. Falou de 
novo, sem querer:
         -  Experimente!
         Apavorou-se mais ainda com o convite implcito naquela palavra. Estavam a ss. Passou a lngua pelos lbios secos, sem lembrar que era um gesto provocante, 
at que viu a fome aumentar nos olhos de Luke.
         -  No me tente - avisou ele, ofegante. - Ento? Conto tudo a Elaine ou vai se casar comigo?
         Ser que no tinha outra escolha? Tinha direito de arriscar a sade e o casamento de Elaine com uma recusa? Se casasse com Luke, ele iria descobrir que 
estava errado. Ficou corada, ao lembrar de que maneira ele iria descobrir isso, e comeou a tremer ao pensar nas intimidades prprias do casamento. Poderia concordar 
e, depois, arranjar um jeito de escapar. Podia pedir-lhe que esperasse um pouco, assim Elaine j teria sido operada...
         -  No vou esperar, Glria - disse ele, como se pudesse ler-lhe os pensamentos. E no tente fugir de mim. Se fizer isso, conto tudo a Elaine. Quero a resposta 
agora.
         Glria respirou fundo. Tinha que fazer aquilo por Bob. Casamentos podiam ser anulados... daria um jeito de manter Luke distante at Elaine estar melhor.
         -  Est bem. Caso com voc. - Sentia os lbios secos, doloridos, mas teve receio de umedec-los.
         -  timo - disse Luke. - Mas no pense que vai ser um noivado longo. Vamos casar hoje.
         -  Hoje?! - O corao pareceu querer saltar-lhe pela boca. - Mas... mas isso  impossvel!
         -  No quando se tem a licena de um arcebispo e um tio dicono - respondeu ele, frio.
         Puxou a manga do palet para ver as horas, num gesto que j estava se tornando familiar para Glria. A viso dos plos escuros na pele morena do brao musculoso 
provocou-lhe uma contrao no estmago. Algo lhe dizia que o corpo dele era arrasadoramente masculino e sentiu as palmas das mos midas de suor, ao perceber a atrao 
que exercia sobre ela.
         -  Em cerca de uma hora, ajeito tudo. Podemos nos casar em Lake District. E no pense em escapar de mim, porque eu descubro onde est e fao Elaine ficar 
ciente do que h entre voc e o marido dela. Enquanto isso, aconselho que pense numa roupa condizente com cerimnia de casamento. - Pegou um talo de cheques, preencheu 
um, assinou e estendeu-o para ela. - Explicando melhor: v comprar roupas. No quero que minha noiva use roupas pagas por outro homem.
         -  Eu no vou vestir nada pago com o seu dinheiro! - rebateu Glria. - Prefiro andar nua!                                   
         - Idia bem interessante... - ironizou Luke, frio. - Mas acontece que tenho o conceito antiquado de me considerar o nico com direito a ver,a nudez da minha 
noiva. E se no usar esse cheque para o que eu disse, pego voc e vou comprar roupas pessoalmente.
         -  Acredito que faa isso mesmo - retrucou Glria, irritada. - O que quer que eu compre? Um vestido branco? Se for por mim, acho que devo me vestir de luto!
         Por instantes, os olhos dele tiveram uma expresso que Glria no conseguiu identificar. Depois, tomaram-se de novo frios, a boca apertou-se com sarcasmo 
e Luke a olhou de alto a baixo.
         -  Guarde essas tiradas dramticas para quem sabe apreciar - disse, seco. - Um vestido simples, um tailleur,  o bastante. O que escolher est bem. Bom 
gosto no lhe falta. Mas lembre-se de que vamos casar numa igrejinha do interior e que ningum, a no ser ns, deve saber que no  um casamento normal.
         -  Quando, na verdade,  um meio legal de voc satisfazer os seus desejos baixos! - disse Glria, amarga. - E quando, estiver satisfeito, vai me pr de 
lado como um trapo.
         -  Eu no poderia ter falado mais claramente, Glria - concordou ele, sarcstico. - Uma hora e, lembre-se, se voc no estiver aqui quando eu voltar, vou 
diretamente ao encontro de Elaine, contar tudo.
         Quando ele saiu, Glria sentou-se na cadeira mais prxima, as pernas trmulas. Casar com Luke Ferguson! Ainda no conseguia acreditar que aquilo estava 
mesmo acontecendo, que no era um pesadelo. Era verdade, pensou, olhando para o telefone. Ento, teve uma esperana. Discou o nmero do escritrio e perguntou por 
Bob.
         -  Ele est no hospital - disse Gil. - Telefonaram para c, sobre Elaine. Parece que vo precisar fazer uma operao mais ampla. Ele est muito aflito. 
Quer que eu d algum recado?
         Depois de dizer que no era nada importante, Glria desligou. Sentiu-se presa numa armadilha. O relgio de pndulo, que fora de seu av e herdara da me, 
bateu, lembrando-lhe que s tinha quarenta e cinco minutos. Olhou o cheque de Luke com desgosto, ento se lembrou do conjunto que comprara no ms anterior. Ainda 
no fora usado. Era verde-plido, com trs peas: saia de chefona de seda com preguinhas, uma elegante blusa tomara-que-caia e um casaquinho de mangas compridas, 
que o tornava mais social. Sem o casaquinho, a saia e a blusa passavam por discreto vestido. Com o conjunto, comprara um chapeuzinho de chiffon, no mesmo tom, com 
um detalhe de delicadas rosas cinza-prata. A vendedora at comentara que era digno de uma noiva. Sim... Fazia tempo, desde a ltima vez que ela pensara em casamento. 
Desde Richard. Ser to desejada no alterava o fato de ela ter o direito de se casar de branco, do modo tradicional.
         A mala pronta estava na sala, e Glria se recusava a acrescentar qualquer coisa mais ao que escolhera. No era um casamento de verdade; no precisava das 
coisas de que uma noiva precisa. A primeira coisa que viu, ao abrir a mala para pr o conjunto verde, foi o quimono de seda verde-jade que pusera por cima de tudo. 
Comprara-o em Hong-Kong e adorava a maciez do tecido sobre a pele. Tinha uma linha reta e seguia o contorno esguio de seu corpo. Homem nenhum a vira usando aquele 
quimono, nem iria ver, pensou. Acabaria achando um jeito de impedir que Luke consumasse aquela pardia de casamento.
         Tinha acabado de fechar a mala quando Luke chegou. Havia trocado o terno que estava usando por uma cala jeans e uma camisa esporte que marcava os msculos 
das costas e do peito. A camisa estava aberta no alto do peito e Glria sentiu a j familiar contrao no ventre, ao observar a pele morena, com plos escuros.
         -  Pronta?
         Como ele podia ser to frio? O homem que lhe dissera que a desejava tanto a ponto de querer se casar com ela parecia ter desaparecido, sendo substitudo 
por aquela criatura fria, distante, que a perturbava.
         -  Est tudo certo - disse Luke. -- Casamos em Lake District, passamos o fim de semana l e depois voltamos para Londres.
         Nem uma palavra sobre onde iriam morar, sobre o que ela faria com o emprego, sobre o que a famlia dele iria pensar daquele casamento repentino com uma 
moa que nunca tinham visto. Confusa, Glria olhou-o, enquanto Luke pegava a mala dela como se fosse uma pluma.
         -  O que est esperando?
         O tom brusco a fez levantar-se de um salto. Como num sonho, saiu com ele do apartamento.
         
         
        CAPTULO IV
         
         Viajar de carro era rpido, mas montono, pensou Glria, olhando a paisagem rapidamente enquanto o Maserati percorria quilmetros. Lancaster chegara e passara, 
o ambiente ia se tornando cada vez mais selvagem. A sensao de vazio no estmago lembrou-a de que a hora normal do almoo tinha passado. Deu um olhar rpido ao 
perfil ausente de Luke. No dissera nada desde que tinham sado e ela ficara satisfeita com isso, apesar de seus pensamentos no serem dos mais alegres. Logo depois 
de terem entrado no carro, ele contara que seu tio arranjara tudo com o padre da igrejinha de Lake District.
         - Meus pais se casaram l - comentara, antes de se calar, e Glria
         ficara curiosa. O Maserati comeou a diminuir de velocidade e Glria olhou de novo para Luke, que disse:
         - Vamos parar para almoar. H um excelente hotel aqui perto. Comamos l, sempre que amos para o norte.
         -  Seus pais moram na regio de Lake District? - perguntou ela, querendo saber mais dele.
         Se os pais dele morassem l, na certa iria conhec-los e talvez os conseguisse como aliados!
         -  No - respondeu Luke, matando-lhe a esperana. - Eles morreram... Foi num acidente de automvel, h alguns anos. Ficamos minha irm e eu. Marina  divorciada. 
Mora na Frana com a filha. O marido a abandonou por causa da secretria. - Os lbios dele tremeram. -- Uma histria que voc deve conhecer bem. Infelizmente, Marina 
foi muito mimada pelos nossos pais. Nunca se tornou adulta realmente... Lucy fica  solta, quando no est na escola, enquanto Marina s pensa em si prpria.
         -  Sinto muito.
         Uma expresso comum, mas Glria sentia mesmo. Estava bastante surpresa por Luke ter falado tanto. Era evidente, ento, que seria difcil ele manter aquele 
casamento secreto... Gostaria de saber mais sobre ele.
         -  Seus pais tambm morreram - disse Luke, de repente, percebendo a surpresa dela. - Est na sua ficha de funcionria.
         -  Sim? - Algo no olhar que ele lhe lanou, parecendo ver-lhe o corpo atravs das roupas, fez com que ela continuasse: - Consta tambm que fui uma criana 
sem pai? Que minha me ficou grvida de mim sem ser casada? Que meu pai era casado, mas fez um filho nela assim mesmo?
         -- Isso acontece - comentou ele, calmo.
         -  No est chocado? - surpreendeu-se ela. - No vai me dizer: tal me, tal filha?
         -  E devia? Nunca entendi por que a nossa sociedade ataca crianas inocentes, que no tm culpa do que os pais fizeram. Parece que estamos diante de um 
caso de complexo causado pelos pais.  por isso que voc  o que ? - perguntou Luke, apanhando-a desprevenida. - Um desejo de castigar todos os homens por causa 
do que seu pai fez, permitindo que fosse uma filha ilegtima?
         -  No - respondeu ela. - Meus pais se amavam profundamente... eu s fiquei sabendo de tudo quando era adolescente, e sofri muito.
         -  Na certa, sofreu mais por causa do modo como descobriu a verdade - comentou Luke. - Quem lhe contou? Alguma velha fofoqueira?
         -- No. O homem que eu pensei que me amasse - respondeu Glria, ouvindo a si prpria com horror. - Claro que no me amava. Como podia me amar? Eu tinha 
nascido sem pai, de um amor condenvel... No. Ele s queria me levar para a cama.
         Ela nem imaginava a profunda amargura de sua voz; lgrimas ardentes surgiram-lhe nos olhos, mas engoliu-as: nunca demonstraria fraqueza na frente de Luke!
         -  E ele a levou?
         A pergunta a surpreendeu. Ergueu os olhos e os msculos de sua garganta se enrijeceram, ao ver a expresso do olhar dele.
         -  Ele dormiu com voc, Glria? - insistiu.
         No queria dizer-lhe a verdade. J havia falado demais, contado coisas que nunca contara a ningum, segredos que pretendera guardar a vida inteira. Respirou 
fundo e perguntou, por sua vez:
         -  O que  que voc acha?
         Um msculo comeou a pulsar na juno dos maxilares dele; suas mos apertaram tanto a direo que os ns dos dedos ficaram brancos.
         -  Voc foi louca! - disse, brusco. - Devia ter recusado.
         -  Por qu? Para voc ser o primeiro?
         Teve vontade de morder a lngua, depois de ter falado. No sabia por que tinha dito aquilo. A expresso de Luke era de uma raiva selvagem, e ela ficou aliviada 
por ele ter que prestar ateno  estrada. Parecia querer estrangul-la, mas Glria sabia por qu.
         -  Acho que hoje em dia os homens no apreciam as virgens - acrescentou, tentando falar com indiferena. - Querem experincia.
         -  Tem toda razo. - A voz de Luke era impessoal. - Inexperincia causa medo e. medo diminui o prazer dos dois parceiros. - Sacudiu os ombros. - A virgindade, 
em si, no quer dizer nada, mas desconfio que, no fundo, todo homem que ama gostaria de ensinar a mulher amada a corresponder apenas ao amor dele.
         Aquelas palavras tocaram algo no ntimo de Glria, fazendo-a sentir uma espcie da angstia que se expandiu pelo seu corpo inteiro. No sabia por qu. No 
amava Luke e ele no a amava. Mas ele seria o primeiro homem a fazer amor com ela. Tratou de afastar aquele pensamento. Nunca pensara em casar, nem amar. Ento, 
que importava? Aquele casamento era para o bem de Bob. De repente, afligiu-se a um pensamento. Se a achasse fria e indiferente, ser que Luke no deixaria de desej-la 
e no acabaria com o casamento? E no iria precisar fingir. S de pensar em ficar a ss com ele, nele tocando seu corpo, todos seus msculos se enrijeciam de terror.
         -  Com fome?      
         Estava to distrada com os pensamentos que no percebera que o Maserati parar no ptio de um hotel de estilo vitoriano. No estava realmente com fome, 
mas era evidente que Luke pretendia almoar, e ela, que aprendera depressa, sabia que ele no era homem que admitisse discusses.
         A gentileza com que a ajudou a sair do carro surpreendeu-a. O hotel era imponente, a fachada de tijolos, bonita. Uma escada de pedra dava para a entrada. 
Entraram num saguo com ar condicionado, elegante.
         - Antigamente era uma casa de famlia local - informou Luke. - Depois da guerra, foi transformada num hotel.
         O maitre pareceu materializar-se diante deles, e ficou bvio que conhecia Luke. Foram levados a uma mesa junto  vidraa que dava para o jardim, com uma 
ateno que Glria achou encantadora. At ento, pensara em Luke apenas no seu contexto, e agora estava percebendo que ia se casar com um homem importante e, pelo 
jeito, muito rico. Pegou o menu e olhou-o sem entusiasmo.
         - Se no est com muita fome, aconselho que pea uma truta - disse Luke. -  a especialidade da casa.
         Glria aceitou a sugesto, e o peixe estava delicioso. Sentada em frente a Luke no elegante restaurante carpetado, com garons silenciosos e atentos, de 
repente ela sentiu a enormidade da situao. Parou de comer e ficou com o olhar perdido no nada. Por que tinha concordado? No queria se casar com Luke. No podia 
se casar com ele! Relanceou o olhar pelo rosto dele. Parecia concentrado no que comia. Fixou os olhos nos traos morenos, fortes, tentando dominar os nervos. Luke 
experimentou o vinho que o garom oferecia e disse alguma coisa. O rosto srio do garom iluminou-se com um sorriso, depois ele se afastou e voltou com um balde 
de gelo contendo uma garrafa longa e duas taas de champanhe.
         -  Beba - disse Luke a Glria, depois de o champanhe estar servido. - Vai ajudar para acalmar os nervos.
         -  Seria melhor um copo de Horlicks - murmurou Glria, irreverente.
         Parecia-lhe errado tomar champanhe, bebida que ela sempre associara a comemoraes felizes, antes daquele casamento forado.
         -  Horlicks  bebida para antes de deitar - respondeu Luke, tranqilo. -Tem problemas para dormir, Glria? No me surpreende, com o peso que deve ter na 
conscincia. Dizem que exerccio  o melhor remdio contra insnia.
         Ela corou, diante do insulto. O choro contido apertou-lhe dolorosamente a garganta e imaginou quanto tempo mais resistiria. Sentia-se miservel, com um 
cansao estranho. Era como se, enfim, seu crebro tivesse compreendido que no podia mesmo escapar e tentasse convencer o corpo a aceitar a situao.
         Luke pediu morangos e creme de chantilly como sobremesa. Pediu tambm queijos e biscoitos. Glria afastou a taa com os morangos, enquanto a exasperao 
crescia em seu ntimo.
         -  No quero - disse, desafiadora, - S queria que tudo estivesse terminado...
         -  ... E que as coisas fossem como eram antes - completou Luke.
         -  As coisas nunca podem voltar a ser como eram - comentou ela, com muita pena de si mesma.
         -  ... no podem - concordou ele. - E quero que fique avisada, Glria. Se eu perceber, por um instante, que voc pensa em Bob, quando estivermos fazendo 
amor, vai se arrepender de ter nascido.
         -  J estou arrependida - respondeu Glria, agressiva. - E no pode mandar nos meus pensamentos, Luke. Eles so a nica coisa que me restam.
         Pde perceber a raiva que crescia nele. Imaginou o que aconteceria se ele soltasse aquela raiva. Esperou nunca ficar sabendo.
         Eram duas horas quando saram do hotel. No voltaram para a estrada principal. Continuaram por estradas que passavam por campos, por casares antigos de 
pedras cinzentas, por povoados aninhados em vales, formados quase que por uma nica rua ladeada de casas, e por rios de gua to limpa que dava para ver o fundo. 
O sol brilhava entre uma e outra nuvem, que se perseguiam, pondo claros e escuros sobre as colinas. Em outras circunstncias, a paz da paisagem lhe daria calma, 
pensou ela, mas estava to tensa que mal podia apreciar a beleza que a envolvia.
         Kendal, com seus muros de pedra e casas enormes, estava muito movimentada. Passaram pelo centro da cidade, Luke concentrado na direo. Em Windermere, Glria 
observou a amplido azul-cinza do lago, a tenso crescendo a ponto de provocar arrepios. A estrada rodeava o lago antes de comear a subir, ngreme, para as colinas 
antigas, desgastadas pelo tempo.
         A estrada parecia nunca mais sair de entre rvores, que deviam ser lindssimas no outono, antes de emergir entre as colinas. O longnquo balir de ovelhas 
era o nico rudo que cortava o silncio da tarde. Glria viu um pssaro voando, muito alto, contra o cu azul.    
         -  Um falco peregrino - disse Luke, seguindo o olhar dela. - Estamos perto do local de treinamento de falces. H muitas encomendas, principalmente do 
Oriente Mdio. Tenho a impresso de que em todos os homens h algo de pago que aprecia esse modo antigo de caa.
         O aperto de medo no estmago de Glria aumentou. No era difcil imaginar um daqueles pssaros ferozes, asas abertas, garras recurvas, indo pousar no pulso 
de Luke, que o alimentava com carne. Havia algo primitivo nele, pensou, aflita, alguma coisa que se recusava a ser absorvida pela civilizao. Ficou mais nervosa. 
Se no estivessem numa estrada deserta, talvez tentasse fugir.
         A estrada comeou a descer de repente. L embaixo podia ver uma cidadezinha, a torre da igreja parecendo tocar as nuvens. Algumas crianas estavam na praa 
e correram para perto deles, olhinhos arregalados, quando Luke estacionou o carro.
         Apesar de a tarde estar quente, Glria sentiu arrepios, quando Luke lhe deu a mo para sair do carro. Em silncio, ele a conduziu para a casa paroquial, 
pequenina, pegada  igreja.
         - O padre daqui era muito amigo dos meus pais - disse, enquanto abria o portozinho do jardim. - Uma palavra errada, um olhar que demonstre que este casamento 
no  desejado por ns dois e eu dou um jeito para voc nunca mais, at o fim da vida, esquecer esta noite.
         Glria estremeceu, levando a mo  cabea, que comeava a doer. Luke conseguia dobrar toda sua resistncia; perto dele, sentia-se como uma criana indefesa. 
Caminhou ao lado dele mal notando que no jardim havia flores de lavanda, com seu perfume intensa, enormes rosas e uma trepadeira de glicnias que subia por uma das 
paredes. A porta da casa abriu-se antes de chegarem a ela, e apareceu uma senhora gorda, de cabelos castanhos pontilhados de cinza, que sorriu, feliz. Primeiro, 
abraou e beijou Luke, levantando a cabea para olh-lo. Mal chegava ao ombro dele. Havia lgrimas em seus olhos, quando fitou Glria.
         -  Oh, Luke, ela  adorvel! - disse, emocionada. - Quando John me disse que voc vinha se casar aqui, fiquei encantada. Os pas dele se casaram nesta igreja 
- disse a Glria. - Acho que j sabe disso. Voc devia ter nos avisado antes, Luke. - O sorriso apagou qualquer crtica que houvesse nas palavras e Glria percebeu 
que aquela mulher adorava Luke.
         -  Amy  minha madrinha - explicou a Glria, enquanto a mulher se virava para entrarem na casa. - Desde que meus pais morreram, ela e John so a minha famlia.
         A casa paroquial pareceu escura, depois de sarem da luz do sol. Glria tropeou num degrau e teria cado, se Luke no a segurasse pela cintura. Por instantes, 
sentiu o calor do corpo dele contra o dela e quase entrou em pnico. Amy voltou-se e o medo diminuiu. Luke no iria fazer-lhe nada diante dos outros!
         -  Luke me disse que vocs querem mudar de roupa antes do casamento. Ele pode ocupar o quarto que sempre foi dele e voc o da minha filha. Aonde vai lev-la 
para a lua-de-mel, Luke? - perguntou. - Ou ser que  segredo?                                   -
         Era impossvel no gostar daquela mulherzinha simptica, to maternal. Glria gostou dela imediatamente e, em outras circunstncias - se ela no adorasse 
Luke do modo como o adorava -, teria se arriscado a pedir sua ajuda. Impossvel. Era evidente que Amy achava que Glria estava nas nuvens pela felicidade de casar 
com Luke,  que eles se amavam loucamente. Enquanto subia a escada estreita indicada por Amy. Glria ouviu Luke responder, atrs dela:
         -   segredo, Amy. Infelizmente, s temos o fim de semana.
         -  Voc trabalha demais! - reprovou-o Amy. - Precisa fazer esse menino descansar - disse a Glria. - Um fim de semana! Tem sorte dessa moa querer casar 
com voc, Luke. Eu iria exigir um ms, de preferncia numa ilha tropical!
         - No reparou? Glria  loira. Sofreria com o sol e isso no  bom numa lua-de-mel...
         Amy tentou fazer cara de desaprovao, mas no conseguiu. Glria forou um sorriso. Podia dizer a eles que sua pele agentava o sol muito bem, mas no queria 
enraivecer Luke, pois j estava com bastantes problemas sem isso.
         O quarto a que Amy a levou era bonito, bem feminino. Luke trouxe a mala de Glria, enquanto Amy continuava relembrando a infncia dele e dizia como ela 
e o marido tinham ficado felizes por eles virem se casar na sua igreja:
         - J enfeitei a igreja com flores. Junho  um ms lindo para casamentos. Pena que no haja muitos por aqui. Os jovens vo para as cidades grandes, a fim 
de trabalhar, e se casam por l. John est no escritrio, Luke. Se quiser falar com ele... - disse, enquanto ele punha a mala de Glria sobre a cama. - Marcamos 
o casamento para as quatro horas.
         - Vou falar com ele depois de tomar um banho e trocar de roupa.
         Ele saiu, fechando a porta, e Glria estava por entrar em pnico de novo. - Voltou-se paia a janela, sem enxergar nada. No percebeu que Amy notara a expresso 
angustiada em seu rosto, at que ela falou, suave:
         - Ele  meio impulsivo, no? Mas no podia ter encontrado homem melhor. O casamento dos pais de Luke foi muito feliz. O pai dele cultuava os valores antigos 
e criou Luke e Marina com eles. Acho que  por isso que Marina sofreu tanto, quando o marido a deixou. Ns pensvamos que Luke nunca mais ia casar... Desde que a 
noiva dele fugiu com seu cunhado Philip, nunca mais teve uma garota firme. E Marina vivia recriminando Luke por ter apresentado Wilma a Philip, sem perceber que 
isso o magoava mais ainda... - Suspirou. - Desculpe, meu bem, no  hora de se falar em coisas tristes. Estou contente por Luke ter encontrado a felicidade. Ele 
merece e tenho certeza de que voc vai faz-lo feliz. - Deu uns tapinhas na mo de Glria e sorriu. - Voc deve achar que sou antiquada demais para entender dessas 
coisas, mas sei reconhecer o amor, quando o vejo, e o amor por voc est escrito no rosto de Luke.
         Amy estava confundindo desejo sexual com amor, pensou Glria, quando a mulherzinha saiu, fechando a porta.
         Tomou banho de chuveiro no banheiro anexo ao quarto. No pde vestir suti por causa da blusa tomara-que-caia, cujo tecido macio insinuava o contorno dos 
seios de modo discreto. Calou as meias finssimas e as sandlias de salto alto do mesmo tom de verde do vestido, antes de sentar-se  penteadeira para se maquilar.
         A pele macia e lisa no precisava de base. Passou uma leve camada de p-de-arroz e sombreou os olhos de lils suave, que fez sobressair a cor de ametista 
dos olhos. Escovou os clios com a escovinha; passou batom quase da cor dos lbios e escovou os cabelos at comearem a estalar. Estava pondo um pouco de perfume 
atrs das orelhas quando bateram  porta. Abriu, nervosa, e surpreendeu-se ao ver um rapaz desconhecido.
         -  Sou Jeff Stanley. Luke me pediu para ser padrinho... espero que voc no se importe. Brincvamos juntos, quando crianas. Minha mulher e eu vamos ser 
os padrinhos. Amy proibiu Luke de ver voc antes de estarem na igreja, por isso fui escalado para acompanh-la. Como v, tenho a honra de ser padrinho e o privilgio 
de lev-la - acrescentou, com olhar de admirao. - Agora entendo por que Luke teimava em levar voc... aposto que ficou com medo de que eu cobre o meu beijo na 
noiva com antecedncia!                                     
         Era claro que ele estava tentando ajud-la a se descontrair, mas Glria sentia-se como um autmato, enquanto se dirigiam para a igrejinha. Em outras circunstncias, 
a cerimnia na pequena igreja seria o ideal. O arranjo de flores de Amy punha um colorido bonito no interior branco.
         O marido de Amy, John Tobson, era simptico e agradvel. Foi ele quem orientou, baixinho, Glria no que devia dizer durante a cerimnia; palavras que a 
ligavam ao homem a seu lado, que lhe davam direito de fazer o que quisesse com ela. A certa altura, a voz de Glria falhou completamente e um aperto dos dedos de 
Luke em seu pulso a fez reagir e dizer o "sim" de modo audvel. Pouco depois, tinha terminado. Os sinos da igrejinha comearam a repicar, um grupo de pessoas estava 
 entrada, para desejar-lhes felicidades e ver a noiva. Jeff Stanley beijou-a, mas apenas na face, depois de fazer uma careta engraada para Luke.
         -  Agora ela  sua, homem feliz! - disse. - Brbara fez umas coisinhas para a gente comer, l em casa. Vocs no precisam ficar muito tempo. Ainda lembramos 
do nosso casamento: queramos dar o fora logo! Voc no vai beijar a noiva?
         Glria tentou recuar, quando o brao de Luke lhe envolveu a cintura, mas no pde. Ele j se inclinava para ela, a cabea de cabelos negros bloqueando o 
sol. Foi como na pracinha: ela sentiu o medo, o pnico alastrar-se pelo corpo, como ura incndio. Tremia tanto que Luke no podia deixar de notar. Os lbios dele 
estavam frios, quando tocaram os dela, seus olhos muito escuros e vazios, como poos negros, sem fundo. O pessoal que estava olhando devia achar que eram como quaisquer 
outros recm-casados, trocando o primeiro beijo. Os lbios de Luke mal tocaram os dela, o beijo terminou antes de comear, deixando-a com uma esquisita sensao 
de perda.
         A mulher de Jeff Stanley era animada, bonita. Estavam casados h dois anos e tinham um filhinho de nove meses.
         -  Luke  um homem incrvel, no? - comentou com Glria, quando subiam a escada para ver o nen. - Houve poca em que fiquei terrivelmente apaixonada por 
ele. Onde se conheceram?
         -  Numa festa - respondeu Glria, ainda sem acreditar que estavam casados mesmo.
         - Ei, vocs duas a, desam logo! - gritou Jeff. - Luke est inquieto. Eu vinha correndo, se fosse voc, Glria - brincou. - Ele no tem muita pacincia 
e acho que  bom se apressar!
         Glria no tinha mudado de roupa. No sabia para onde iriam, mas tinha certeza de que ele cancelara o encontro que fora apresentado como motivo daquela 
viagem.
         Sentada no carro, esperando Luke acabar de se despedir dos amigos, sentia o estmago se contrair. Ia para a lua-de-mel, pensou, a ansiedade arrepiando todos 
os nervos. Estava a ponto de abrir a porta do carro e sair gritando que no podia ir com ele, quando Luke sentou-se a seu lado e deu a partida.
         -  Voltem logo! - gritou Amy, enquanto o Maserati dava a volta na pracinha. - Felicidades!
         -  Para onde est me levando?
         Parecia a herona de um romance, pensou Glria. A pior coisa que podia fazer era mostrar que estava com medo. Tinha que mostrar a Luke que a situao estava 
absolutamente sob seu controle. Ele esperava dormir com ela naquela noite, mas Glria estava determinada a impedir    que    isso    acontecesse.     No    podia 
entrar    em    pnico!
         -   surpresa - respondeu ele, num tom to estranho que fez Glria ficar mais nervosa.
         Nunca devia ter permitido que ele a levasse at aquele ponto. Devia ter-lhe dito, desde o comeo, que estava enganado a seu respeito. A confisso da verdade 
subiu-lhe aos lbios trmulos, mas Glria compreendia que no iria adiantar. Ele continuaria desejando-a ainda mais, ao saber que seria seu primeiro homem. Sentiu 
a pulsao acelerar, ao lembrar do que ele dissera no apartamento.
         -  Para onde est me levando? - insistiu, teimosa.
         -  Assustada? - A ironia dele fez Glria reagir. - No precisa. Afinal, no sou o primeiro homem a ir para a cama com voc, mas pretendo ser o mais lembrado 
no futuro, Glria.
         -  Voc confia muito em si mesmo, no ? Pde sentir o olhar dele percorrer-lhe a pele.
         -  Tanto quanto qualquer homem com experincia sobre mulheres. O amor deve ser um prazer para os dois parceiros, e acho que as qumicas dos nossos corpos 
combinam. No pode negar que correspondeu com ardor, quando a beijei.
         -  Detestei! - exclamou Glria, a voz tremendo de medo. - E detesto voc!
         A paisagem comeou a se tornar familiar e, com aflio, ela viu que estavam chegando ao hotel onde ficara com Bob e Elaine.
         -  Est reconhecendo? - perguntou Luke, sarcstico. - Falei de novo com Gil, dizendo para reservar um apartamento s, para casal. Na certa, ela ir ficar 
mais aliviada quando voltarmos e vir isso na sua mo... - Apontou para a aliana que reluzia na mo esquerda de Glria, ao lado do anel de brilhante.
         Ela ficara surpreendida, quando Luke lhe dera a aliana e um anel de noivado. Pareciam ter sido feitos para ficarem juntos: o lindssimo solitrio engastado 
em platina e a delicada aliana de ouro.
         -  Ento, vai me dar licena para voltar ao escritrio? - rebateu Glria, tambm sarcstica, tentando esconder o medo. -Vai me deixar trabalhar com Bob?
         -  No. Ele vai continuar na firma - respondeu Luke, frio. - Mas voc vai deixar de trabalhar. Ir ao escritrio apenas para demonstrar que o pessoal fala 
demais. No quero que Bob me acuse de estar explorando voc. Quando souber que estamos casados...
         - No vai ter coragem de continuar o nosso caso...  isso que est pensando? Acha que no sou capaz de fazer Bob esquecer os seus princpios? Afinal, voc 
esqueceu os seus, por me desejar. No posso ser o tipo de mulher que voc queria para esposa. Um homem de negcios como voc precisa de uma mulher que lhe d orgulho, 
que possa, ser a anfitri perfeita a seu lado, que impressione os seus colegas!
         -  Tenho certeza de que voc  capaz de tudo isso - disse Luke, seco. - Quanto ao mais, faz tempo que aprendi que um homem tem que aceitar as mulheres como 
elas so, no como quer que sejam.
         -  Aprendeu com Wilma?
         -  Quem lhe contou dela? - Ele no escondeu a irritao que sentia, ao ver que ela sabia da outra mulher.
         -  Amy. Quando voc me contou que sua irm foi abandonada pelo marido, no imaginei que ele tinha fugido com a sua noiva.
         -  Wilma era uma arrivista, voc sabe... Philip j era um homem de negcios estabilizado, enquanto eu estava apenas comeando. Sem dvida, Wilma achou que 
ele era mais vantajoso. Ela estava errada, mas conseguiu me dar uma boa lio. Por isso,  bom lembrar que aprendi o que fazer num caso desses, se por acaso pensar 
em me trair, Glria.
         -  Nem por sonho! - ironizou ela, mas era verdade.
         Quanto mais conhecia aquele homem.,, mais se arrependia de t-lo provocado. Com apenas um olhar, devia ter percebido que aquele corpo atraente, sensual, 
tinha a estrutura do ao. Mas, sem saber por que, no percebera o perigo, quando mergulhara na profundeza daquele olhar cinzento, a primeira vez que o vira. Devia 
estar com a cabea em outra coisa. Na mudana de dono da firma, quem sabe... Mas isso no a desculpava e era tarde para se arrepender, agora.
         O velho hotel continuava encantador como ela o lembrava. Uma sorridente recepcionista cumprimentou-os e Glria no pde deixar de notar o interesse brilhando 
nos olhos azuis, quando a moa fitou Luke.
         -  Sr. Ferguson... reservou uma sute, no? Se quiser, ainda pode-ir ao restaurante. Do contrrio, posso mandar subir o jantar no apartamento.
         -  Mande ir para o apartamento - respondeu Luke. - A viagem foi longa e queremos descansar.
         -  Vou lev-los ao apartamento e depois mando o menu para a escolha - prometeu a moa, com entusiasmo grande demais para a pequena misso que se propunha, 
achou Glria.
         Tinha certeza de que, se estivesse sozinha, no seria atendida com tanta presteza. A sute compunha-se de uma confortvel saleta dando para o parque do 
hotel, um quarto onde dominava uma enorme cama com dossel e um elegante banheiro.
         O camareiro chegou com as malas, enquanto a recepcionista estava mostrando o quarto para Luke. Glria ficara na saleta, fingindo admirar os mveis antigos. 
S em pensar na grande cama com reposteiro, sentia o estmago se apertar. Quando o garom chegou com o menu, ela pediu que o deixasse na mesa, certa de que no iria 
conseguir comer nada.
         A recepcionista saiu, fechando a porta. Luke pediu o jantar para dois, enquanto ela ficava junto  janela, olhando para fora e tentando dominar o pnico 
que ameaava domin-la. Quando a porta se fechou, como a da cela de um condenado, perdeu o controle: comeou a chorar, os soluos parecendo rasgar-lhe a garganta.
         -  Pare com isso! - ordenou Luke. - Eu disse que no quero histeria. No vai me convencer desse jeito, Glria. Umas lgriminhas de crocodilo no vo me 
fazer mudar de idia. Paguei caro pelos seus favores... paguei o preo mais alto que um homem pode pagar. Comprei voc com o meu nome e vou usar o que  meu!
         -  No pode fazer isso!
         O protesto desesperado foi abafado pelo peito de Luke, pois ele puxara Glria para si e a abraava, obrigando-a a sentir seu corpo.
         -  Eu quero voc, Glria, e vou ter voc!
         -  Ento, vai ter que me tomar  fora - respondeu ela -, porque eu no quero voc, nunca vou querer!
         -  Acha que no?
         O sorriso seguro de Luke provocou uma profunda sensao de desalento em Glria. Teve a certeza de que ele no iria mudar de idia. Por instantes, pensou 
em se jogar pela janela, mas afastou o pensamento, horrorizada. Viu, ento, Luke aproximar-se do telefone.
         -  O que vai fazer?
         - Cancelar o jantar - respondeu ele, calmo. - Descobri que estou com outro tipo de fome, que prefiro matar primeiro. Venha, c, Glria - ordenou, quando 
ela comeou a recuar. - No precisamos continuar fingindo. Ns dois sabemos para que estamos aqui.
         "Voc pode saber", pensou ela, desesperada, "mas eu no sei." O orgulho fez com que se mantivesse calada. Foi recuando, sem perceber que ele a acuava em 
direo ao quarto. S notou quando chegou  parede do fundo. Teve que parar e olhou, apavorada, para a cama enorme.
         Por favor,, no faa isso, Luke! - implorou. - Por favor, me deixe ir embora...
         Tarde demais, Glria. - Os olhos e lbios dele eram cruis, to cruis quanto os dedos que lhe apertaram os ombros. - J era tarde no momento em que entrei 
no apartamento de Greg Hardman e vi voc. Se voc tivesse juzo, teria vindo ao meu encontro. Mas no veio; por isso tivemos que fazer tudo do modo mais difcil. 
Eu quero voc e nada vai me impedir de ter voc. Nada!
         
         
        CAPTULO V
         
         No havia sada. Glria se convenceu disso momentos depois, quando Luke a tomou nos braos. O casaquinho escorregou-lhe pelos ombros, quando ele a ps na 
cama, revelando a pele morena e macia do colo. Luke tirou o palet e, quando se aproximou dela, na cama, a largura dos ombros e o volume dos msculos sob a camisa 
de seda branca cortaram-lhe a respirao. Fascinada, ficou olhando, enquanto ele soltava a gravata e desabotoava os primeiros botes da camisa. Os olhos dela iam 
nervosamente da garganta morena, forte, para o rosto tenso.
         -  Voc  que devia estar fazendo isto - disse ele, cido. -  mais ertico a gente ser despido pela amante.
         -  Voc deve ter muita prtica no assunto. - Ela esperava que as palavras soassem irnicas, mas foram apenas um sussurro hesitante.
         Estava com o estmago contrado de tenso. Tinha vontade de pular da cama e sair correndo para escapar daquele homem que- no tirava os olhos de seus seios, 
que comeavam a arfar  medida que a respirao se acelerava. Mas no podia sofrer a humilhao de ser carregada para a cama de novo. Tentando se convencer de que 
seria como tomar uma dose de um remdio muito ruim, dizia a si mesma que o melhor, mesmo, era acabar com aquilo logo. Sentia-se muito diferente da moa que achara 
que poderia persuadir Luke a esperar, reconheceu, amargamente, observando o homem a seu lado. Ele passou a mo, de leve, pelo brao de Glria, fazendo o corao 
dela bater descontrolado. Podia sentir o calor do corpo dele atravs dos tecidos finos que os separavam. Tinha a impresso de ter o corao na garganta e fazia um 
esforo sobre-humano a fim de parecer calma.
         -  Voc  uma excelente atriz - disse Luke, erguendo os cabelos que ocultavam em parte o rosto dela. - Olhando para voc, tem-se a impresso de que  a 
primeira vez que est com um homem. Mas ns dois sabemos que isso no  verdade, no, Glria?
         Ela era incapaz de falar, incapaz de qualquer coisa, a no ser de sentir D medo que a sufocava, quando ele baixou a cabea lentamente, fitando os lbios 
trmulos dela. As mos dele foraram-na a deitar-se sobre os travesseiros; depois sentiu que Luke lhe erguia a blusa e tornou-se mais rgida. Os lbios dele separaram-se 
dos dela e fitou-a, zangado.
         -  Pare com isso! - avisou. - No precisa e, se insistir em continuar com essa brincadeira, vai me obrigar a machuc-la. Sabe o que eu quero, Glria - murmurou, 
o desejo brilhando em seus olhos. - E vou fazer voc querer tambm,.
         Ps a mo sobre um seio dela, acariciando-o por cima da seda. Glria tremia da cabea aos ps. Tinha a boca seca. Luke lhe beijava a garganta, os ombros, 
e percebia que uma sensao esquisita ia se apoderando dela. Quando ele tirou a blusa dela, Glria estremeceu e tentou fugir, mas Luke passou uma perna sobre suas 
coxas e a prendeu na cama, sob seu peso.
         -  Me beije, Glria- murmurou, rouco. - Me acaricie!
         A ordem saiu num gemido. A testa estava coberta de suor, os olhos pareciam negros. Glria sentiu como se seus ossos se dissolvessem, tal o medo que tinha.
         -  Pare de me atormentar! Sabe o que eu quero! - gemeu Luke.
         As mos dela estavam presas ao peito dele e podia sentir os msculos movimentarem-se, enquanto Luke, gemendo, desabotoava a camisa. Ela estremeceu, quando 
ele tirou a camisa. Sentiu a, pele morena, mida e quente. O corpo de Luke se retesou, quando encostou nela com a pele nua. Estava anoitecendo e,  luz do crepsculo, 
Glria pde perceber a forte estrutura dos ossos dos ombros fortes sob a pele. Atordoada, sentiu que Luke abrira o zper de sua saia  a tirava, com gestos nervosos.
         Ficou paralisada pela timidez, quando ele se afastou um pouco e ficou olhando para ela, agora apenas com a calcinha e as meias.
         -  Voc  mais linda do que eu pensava - disse, rouco.
         Abaixou-se e, quase com reverncia, beijou o bico de um seio e depois o do outro. Uma sensao ardente invadiu o corpo de Glria, seguida por tumultuada 
excitao, to forte que a levou quase  beira da inconscincia. Emoes que jamais sonhara existirem envolviam-na completamente. Gemeu, quando sentiu os lbios 
de Luke em seu seio de novo, enquanto o bico se enrijecia ao toque experiente da lngua de Luke. Prazer  e  medo   misturavam-se,   violentos,   enquanto,   sem 
saber,   ela abraava Luke, passava-lhe os braos pelo pescoo, mantendo-o mais junto de seu corpo.
         A respirao de ambos estava ofegante, agitada. As mos dele apoderaram-se dos seios inchados, enquanto todo o corpo de Glria correspondia, ansiando por 
ele. Ento, aquilo era desejo, pensou ela, maravilhada, mal acreditando que todas aquelas sensaes lhe percorriam o corpo. Seu crebro era incapaz de controlar 
a carne ansiosa. Seu corpo queria as carcias de Luke, queria o prazer que adivinhava que ele podia lhe dar. S quando Luke comeou a tirar-lhe a calcinha, ela voltou 
 realidade. Chocada com o abandono, com o jeito como correspondera a ele, aproveitou para saltar da cama.
         -  Glria? - indagou Luke, surpreso.
         -  Quero tomar um banho - foi a primeira desculpa que lhe veio  cabea.
         Queria ficar longe dele por alguns minutos, a fim de pensar sobre o lado sensual de sua natureza que nunca sonhara existir. Parecia que o toque de Luke 
abrira a porta atrs da qual ela encerrara todo o instinto natural. Nos braos dele tornava-se uma mulher selvagem, primitiva, e isso a perturbava.
         Luke segurou-a por um pulso. Nos olhos dele havia tanta fome que Glria enrubesceu. A expresso dele era to explcita que provocava uma resposta direta 
do corpo dela, ainda ardente.
         -  Depois - disse ele, baixinho. - Vamos tomar banho juntos, depois. Agora, quero outra coisa.
         Luke puxou-a para si, fazendo-a cair sobre ele, na cama, e o protesto foi abafado pelos lbios dele, num beijo que acabou com qualquer dvida sobre o quanto 
a desejava.
         -  Me acaricie, Glria - pediu. - Me ame como voc ama Bob...
         As mos dela estavam apoiadas no peito forte; sentia os plos sedosos, os msculos tensos. Sentiu a pulsao acelerada do corao dele, quando Luke se voltou, 
fazendo-a ficar embaixo dele. Acariciou os bicos dos seios duros fazendo o corpo dela ansiar pela posse completa. Nunca imaginara que o desejo sexual podia ser assim; 
uma espiral de excitao que ia crescendo, crescendo, at no haver mais nada que no fosse sensao, seu corpo perfeitamente afinado com o de Luke, correspondendo 
ao dele sem que ela interferisse.
         Era como estar ao sabor das ondas violentas de um mar revolto, numa excitao deliciosa e perigosa, mas j no sentia medo. Seus dedos, sem que a vontade 
dela agisse, acariciavam o corpo tenso de Luke, enquanto a boca ansiosa dele apoderava-se prolongadamente de seus lbios li ementes, a ponto de tirar-lhe a respirao. 
Qualquer pensamento consciente estava paralisado; somente existia a exigncia intensa de seu corpo, o desejo de pertencer inteiramente a Luke, to urgente que suas 
pernas abriam-se sob ele. Ento, sentiu a primeira poderosa investida do corpo dele no dela. A lngua de Luke introduziu-se em sua boca, explorando o macio e ardente 
interior.
         Gritinhos selvagens, abafados, subiam-lhe da garganta, sob a presso dos lbios dele, seus braos apertavam com fora o corpo de Luke, enquanto o dela arqueava-se, 
fremente, sob o dele. Incapaz de suportar as sensaes que cresciam, as unhas de Glria penetraram nas costas de Luke, enquanto sentia que precisava dele, de todo 
aquele corpo, numa urgncia angustiada que a forava a reconhecer que no apenas correspondia a ele, como quase que incitava Luke a possu-la.
         Quando ele pressionou mais, Glria no pde conter um grito de dor, e Luke imobilizou-se imediatamente. Ela pde perceber, na penumbra, que ele a olhava. 
Os msculos de seu corpo, que h instantes ansiavam por ele, agora se opunham, tensos,  sua intruso. Os braos dela j no o apertavam contra si, mas jaziam, soltos, 
sobre o lenol, ao lado do corpo. Virou o rosto, querendo esconder as lgrimas. O nico som que cortava o profundo silncio era o de suas respiraes pesadas. B 
ela teve uma estranha sensao de vergonha. Como pudera corresponder a ele to livremente, to... to ansiosa? Estremeceu e ouviu Luke praguejar, enquanto lhe segurava 
o rosto e a obrigava a olhar para ele.
         Parecia que ele ia dizer alguma coisa e Glria olhou-o, desamparada. Seu corao batia to forte que tinha certeza de que ele ouvia as batidas. Sua boca 
estava seca de novo e afligia-se por ter trado suas convices.
         -  Meu Deus... - comeou, e os braos de Luke a apertaram mais, os lbios dele sufocaram as palavras que ela ia dizer.
         Sentiu que as ltimas barreiras da inocncia cediam  presso do corpo ardente de Luke e uma estranha sensao misturou-se  dor aguda que a percorreu. 
Como num sonho, ouviu Luke murmurar:
         -  Relaxe... Eu... eu no queria machucar voc...
         Ento, o prazer apenas entrevisto comeou a vir, em ondas que se avolumavam, enquanto seu corpo correspondia aos movimentos do corpo de Luke, entre gemidos 
febris.
         -  Me ame, Luke... Por favor, me ame... - Ouviu a prpria voz com impressionante clareza, depois mergulhou num turbilho.
         Luke estava lhe ensinando o verdadeiro significado da palavra "prazer" e seu corpo parecia estar vivo de verdade pela primeira vez. O mundo pareceu dissolver-se, 
enquanto se projetava entre estrelas de uma luminosidade ofuscante, formando apenas um ser com Luke. Um ser feito de delcias.
         S mais tarde, quando o prazer deu lugar  exausto, lembrou-se das palavras que gemera. Luke estava deitado a seu lado, um brao passado possessivamente 
pela cintura dela, a respirao ainda um pouco alterada. Sentia-se maravilhada e chocada com o jeito como ele a empolgara, consciente de que, apesar de seu crebro 
detestar aquele homem, seu corpo o aceitara como o amante longamente esperado.
         -  Por que voc no me disse a verdade? - indagou Luke.
         Ela tentou se virar de costas, mas ele no deixou. Levantou-se sobre o cotovelo e segurou-a pelos cabelos, obrigando-a a olh-lo.
         -  No sei do que est falando - respondeu Glria.
         Era uma besteira e logo se arrependeu de t-la dito. Os olhos dele escureceram. J o vira zangado, antes, mas no tanto.
         -  Mentirosa! Sabe muito bem o que eu quero dizer. Por que me deixou pensar que era amante de Bob, quando, o tempo todo... - Calou-se e s ento Glria 
notou como estava plido, alterado. - Por qu no me disse que era virgem, que nunca tinha estado com um homem? Voc sabia que...
         -  Sabia o qu? - perguntou Glria, com voz incolor. - Tudo o que eu sabia era que voc me ameaava.
         -  E se entregou a mim? Por qu? Como pretende me castigar? Me fazendo sentir culpado?
         -  Eu queria proteger Bob - disse Glria baixinho. -- Voc ameaou contar a Elaine que tnhamos um caso e eu no podia deixar que fizesse isso.
         -  Mas no tinham, no ? - A mo dele crispou-se nos cabelos dela, obrigando-a a olh-lo de novo. - Estava pensando nele, enquanto fazamos amor? Desejando 
que eu fosse ele?
         - Isso importa? - A voz dela soou estranha, pelas lgrimas contidas. - Qualquer coisa pode importar, agora? Gosta tanto assim dele?
         - Ele  meu amigo - disse Glria, sem ligar se ele acreditava ou no.
         Achava que no tinha o direito de contar a Luke sobre a operao de Liliane e desejava, ardentemente dormir para esquecer o modo terrvel como seu corpo 
a atraioara. Tentava, inutilmente, convencer a si mesma que no tinha tido prazer, que Luke no a levara aos cumes da mais maravilhosa experincia humana. Quase 
sem querer, tentava afastar-se dele e percebeu que Luke estava ficando com raiva. Isso estava errado, ela era a nica que tinha o direito de ficar ressentida, ela 
 que havia sido prejudicada!
         -  Voc est zangado comigo? - perguntou.
         -  Zangado? - Os lbios dele tremeram, enquanto a encarava, incrdulo. - Claro que estou muito zangado! Voc era virgem. Voc no sabia nada do amor e me 
deixou agir como agi, me fez agir desse jeito... Me senti frustrado, quando me repeliu... achei que estava brincando comigo. Mas isso no faz com que me sinta melhor.
         -  Podemos anular o casamento.
         -  No! - negou ele, decidido. - Voc j se divertiu bastante comigo. No vou lhe dar essa segunda chance. Alm disso, como voc disse, Bob ama a mulher 
dele. No, Glria. Estamos casados e vamos continuar casados, apesar de o nosso casamento ter comeado to mal. - Interrompeu-se e olhou-a intensamente, como se 
procurasse algo em seu rosto. - S Deus sabe o quanto eu sinto por isso. Voc era inocente como ama criana e tudo em voc indicava isso, mas eu no percebi. Por 
que agiu daquele jeito na- festa?
         -  No gostei do modo como voc me olhou.
         -  E como foi que eu a olhei?
         -  Como se... como se...
         -  Como se estivesse imaginando ns dois numa cama? E por isso nos meteu nesta situao?
         Tinha sido mais do que isso, mas Glria estava se sentindo muito confusa e sonolenta para discutir. Tinha sido a calma arrogncia dele, a evidente certeza 
de que ela estava ali para ser apanhada por ele que a enfurecera.         
         -  Eu no queria casar com voc - murmurou ela.
         -  Mas casou... para proteger o homem que no era seu amante. Mas estou avisando, Glria: no quero nenhum fantasma na cama conosco, quando fizermos amor. 
Estamos casados.
         -  Voc me machucou!
         A queixa quase infantil era para castig-lo por ter ensinado o corpo dela a desafi-la. Mas no estava preparada para a expresso sombria que apareceu nos 
olhos dele, enquanto comprimia os lbios e largava dela.
         -  No havia outro jeito - respondeu, spero. - Foi o preo que pagou por ter sido idiota. Se me dissesse que nunca tinha estado com um homem...
         -  O que voc faria?
         -  H modos e modos, Glria. Pensei que voc fosse uma mulher experiente e te desejava tanto que no pensei sequer em agir de um modo que tornasse tudo 
mais fcil para voc.
         Ela corou, ao ouvir a explicao franca, e ficou satisfeita por estar escuro e ele no pode ver que ficara vermelha.
         -  Agora, durma - disse Luke, brusco. - Amanh a gente conversa. Glria dormiu muito bem e ficou surpresa corri isso. Era cedo, quando
         acordou. A princpio, estranhou o peso do brao de Luke ao redor de seu corpo, depois lembrou-se com clareza de tudo o que tinha acontecido. Seu corpo estava 
estranho, letrgico, parecia sem ossos e dava a impresso de no pertencer apenas a ela.
         Luke estava dormindo, o rosto sombreado pela barba que comeava a crescer. Parecia mais jovem, os traos do rosto suavizados, os longos clios escurecendo 
a pele delicada sob os olhos. Glria sentiu um estranho desejo de se aproximar, de tocar>de conhecer melhor aquele homem com que se unira to intimamente. Ele se 
mexeu no sono, virou-se e ela estremeceu de horror quando o lenol deixou a descoberto as marcas nas costas dele. Lembrou-se de ter cravado as unhas em Luke quando 
fora arrebatada pelas ondas de prazer. Afastou os olhos das marcas roxas " estremecendo de repulsa aos pensar que tinha sido to selvagem.
         O brao dele estava logo abaixo de seus seios, lembrando-a da intimidade com que a tocara, de como ela quisera que a acariciasse, de como os lbios dele 
e as mos tinham explorado cada centmetro da pele macia de seu corpo.
         Incapaz de controlar os pensamentos, afastou o lenol e deslizou para fora da cama. Pegou roupas limpas e foi para o banheiro disposta a tomar um banho 
de chuveiro. O xampu estava na mala. Sem fazer rudo, para  me acordar Luke, voltou ao quarto, pegou o xampu. Enquanto tomava banho, a idia de ir embora antes que 
Luke acordasse passou-lhe pela mente. Agora no tinha medo de que ele falasse com Elaine. Luke sabia que nada houvera entre ela e Bob. Mas no podia sair dali antes 
de limpar meu corpo completamente das lembranas da noite passada.
         Ocupada em se ensaboar, no ouviu os passos leves no quarto e s o barulho da porta alertou-a: no estava s. Voltou-se e viu Luke  porta do banheiro, 
braos cruzados junto ao peito nu, uma toalha enrolada na cintura.
         -  Tentando limpar as manchas das minhas carcias? - perguntou, desagradvel. - No adianta. Dizem que uma mulher carrega pelo resto da vida a lembrana 
do seu primeiro homem.
         -  Eu s queria tomar um banho - respondeu.
         A toalha estava fora de seu alcance e ela desejou, desesperadamente, ter coragem de puxar a cortina do boxe. Luke examinava-lhe o corpo com uma calma quase 
clnica, e ela se lembrou mais vividamente do modo como ele a acariciara. Morta de vergonha e horror, Glria sentiu que seus seios endureciam, s com o olhar dele.
         -  Queria ficar "limpa" antes de me deixar? Era isso que estava planejando, no ? Vamos ficar juntos, Glria - avisou. - Eu j disse que ningum me faz 
de bobo duas vezes. No quero que digam por a que minha mulher me deixou depois da nossa primeira noite. Se me deixar, digo a Elaine que voc e Bob tinham um caso. 
Eu sei que no  verdade, claro. Mas ela no sabe, do contrrio voc no teria concordado em se casar comigo. No sei por que est to ansiosa em proteger o casamento 
deles, mas, se o medo de ver esse casamento destrudo obriga voc a ficar comigo... eu vou destru-lo, se me abandonar.
         -  No podemos viver juntos! - protestou Glria, como se aquilo fosse uma sentena de priso.
         - Por que no? Porque destru a sua virgindade? Porque "machuquei" voc? Se  isso que a est afligindo, e eu acho que , talvez agora seja um bom momento 
para lhe mostrar que no vai haver mais dor.
         Tirou a toalha da cintura e, antes que Glria pudesse fazer um movimento, estava embaixo do chuveiro com ela. Abraou-a e comeou a acariciar-lhe as costas 
de leve, at que sentiu os msculos tensos se relaxarem.   Ento,   as   mos   dele   pararam  na  cintura  fina  por  uns momentos; depois comearam a descer lentamente, 
explorando a curva delicada dos quadris. O estmago de Glria comeou a se contrair, protestando contra o poder das mos fortes, mas a sensao de fraqueza, de derretimento, 
da noite anterior manifestou-se mais intensa. Os dedos de Luke percorreram a coluna dorsal, fazendo-a estremecer, numa mistura de prazer e medo,
         -  Pelo que vejo, voc  uma dessas garotas antiquadas que no adotaram o banho de sol em nu total. Ontem pensei que era apenas uma jogada para entusiasmar... 
a maioria dos homens gosta de pensar que so os primeiros a ver e a possuir um corpo... E eu consegui essas duas coisas, no?
         Glria quis negar, mas ele j cobria de pequeninos beijos os lbios, os ombros, a garganta dela, enquanto acariciava com os dedos a pele sensvel atrs 
da pequenina orelha. Glria tremia, enquanto seus olhos percorriam, de maneira irresistvel, o corpo forte, moreno, que a dominava.
         - Sei que est com vontade de me acariciar - disse Luke, calmo, erguendo-lhe o queixo com uma das mos. - No tem que se envergonhar disso.  muito natural 
querer dar prazer, quando se recebe prazer. Sua pele  to macia.
         Beijou-a delicadamente, as mos pegando-a pela cintura e trazendo-a mais para junto de si. Glria ergueu as mos para empurr-lo, mas o contato com o corpo 
musculoso despertou o mesmo desejo que tivera de descobrir mais sobre aquele homem, ao acordar.
         -  Glria...
         Ela ergueu os. olhos. Os dedos de Luke introduziram-se em seus cabelos e ele comeou a beij-la de novo; beijos rpidos, quentes, torturantes em sua provocao, 
prometedores, at que ela esqueceu que aquele era o homem que prometera odiar e queria apenas que aqueles lbios se unissem aos dela, num beijo profundo, como na 
noite anterior. Soltou um gemido de frustrao, quando os lbios de Luke se afastaram um pouco; passou os braos pelo pescoo dele e encostou-se inteira nele, oferecendo-lhe 
a boca ansiosa. E, de novo, o beijo foi completo, a lngua ardente explorando o interior macio da boca sequiosa de Glria, enquanto as mos dela se movimentavam 
pelo corpo dele, sentindo todos os msculos tensos sob a pele morena.
         -  Voc est aprendendo... mas eu vim aqui para tomar banho - disse   Luke,   largando-a,   afastando-se   dela   e   pegando   o   sabonete.
         Glria teve uma ridcula sensao de perda. O que estava havendo com ela?, perguntou a si mesma. Devia sentir-se aliviada, e no... Angustiou-se por instantes; 
depois sua honestidade inata obrigou-a a admitir a verdade. Estava desapontada. Amargamente desapontada porque Luke no queria fazer amor com ela.
         Comeou a afastar-se, quando ouviu Luke rir.
         -  Aonde pensa que vai? - perguntou ele. - Ontem eu disse que amos tomar banho juntos, e  o que vamos fazer.
         -  Eu no quero.
         -  Mas vai fazer.
         Ele estava se ensaboando e ela observava, sem conseguir pensar, passando a lngua pelos lbios secos, os msculos se movimentando, rijos, sob a pele.
         -  Veja se consegue... - Ele lhe pegou as mos e colocou-as sobre o prprio corpo, olhando-a divertido. - Voc estava se ensaboando muito bem, quando entrei 
aqui. Me ensaboe... Feche os olhos e tente se convencer de que sou um ser humano tambm, apesar de um pouquinho diferente.
         Um pouquinho!, disse Glria a si mesma, desgostosa, enquanto esfregava, relutante, a pele dele. Mas quando Luke comeou a ensabo-la, estremeceu. Logo depois 
estavam se acariciando ardentemente. Cada carcia acompanhada por um beijo, cada beijo cada vez mais faminto, intenso. Glria cobria de beijos febris os ombros e 
a garganta de Luke. Nem mesmo a gua do chuveiro quebrava o encanto do toque das mos de Luke em seu corpo. Quando ele a carregou para a cama, ela desejava apenas 
ser amada. Todas as suas inibies tinham desaparecido. Correspondia com ardor a todas as carcias das mos e dos lbios de Luke e gemeu alto quando as mos ansiosas 
lhe envolveram os seios duros de. desejo. A dor da noite passada tinha sido esquecida.
         -  Diga, Glria - murmurou Luke com voz rouca, enquanto o corpo dela se arqueava contra o dele, demonstrando o quanto o desejava. - Diga que me quer.
         -  Eu quero voc. 
         Ele   a  beijou   com  violncia  e   ela  correspondeu,   perdendo-se   na intensidade da posse to desejada. Dessa   vez   no  havia  dor,   apenas  
um  gradual  comparecimento  do prazer, to prolongado que ela comeou a murmurar o nome dele, a repeti-lo mais intensamente, lbios nos lbios, at que o xtase 
os envolveu ao mesmo tempo, arrebatando-os pelo espao.      
         -  Nunca mais tente me dizer que no nos entendemos sexualmente - disse Luke, com voz rouca, algum tempo depois. - Voc pode amar Bob, mas sou eu que consigo 
lev-la a um estado onde nada mais importa, a no ser a nossa unio completa.
         Levou alguns segundos para Glria entender que Luke pensava que ela amava Bob. Abriu a boca para corrigir o engano, mas o sexto sentido a fez calar-se. 
O que sentia por ele era apenas desejo, claro. Como poderia ser algo mais? No entanto, em seu ntimo, sabia que nunca corresponderia a um homem com tanto abandono, 
se no o amasse. Amor? Por Luke? Isso era ridculo. Era?, indagava uma vozinha. Ser que na agressividade inicial e no medo que sentira dele no houvera uma necessidade 
primitiva de auto proteo? Naquele momento devia ter sabido, instintivamente, que aquele homem ameaava sua paz de esprito, que representava a espcie de perigo 
que ela prometera manter afastado de si desde que aquilo acontecera com Richard.
         Mas no podia amar Luke. Por que no?, indagou a mesma vozinha.
         No podia ser verdade. Recusava-se a acreditar nisso. Era s atrao sexual. Fechou os olhos, deixando-se levar pelo sono. Sonhou com Luke e acordou chorando. 
Ele estava sentado perto da janela, lendo um jornal.
         -  Voc sempre chora dormindo? - perguntou ele.
         -  No sei - respondeu, assustada, pois ele parecia zangado.
         O fato de ele estar vestido e ela nua sob o lenol dava-lhe uma profunda sensao de desvantagem.
         -  Por favor, no me olhe desse jeito! - Luke quase gritou. - Sonhe com Bob, se quiser, mas aviso voc, Glria: se eu souber que est pensando nele quando 
estiver nos meus braos, tiro de voc o meu prazer, como um homem que paga pela mulher que est com ele!
         Ela se encolheu e Luke jogou o jornal no cho, ergueu-se e caminhou para a porta.
         -  Vou dar um passeio e volto para almoarmos. No esquea: este casamento vai durar enquanto eu quiser!
         Depois de ele sair, Glria chorou como nunca mais tinha chorado, desde a morte de seus pais. No por Bob, mas por si, porque estava sonhando com Luke, implorando 
para que a amasse, e ele lhe voltara as costas, dizendo que a ultima coisa que sentiria por ela seria amor. Sozinha, encarou a realidade. Ela o amava, amara-o desde 
o comeo, sem saber. Estremeceu. S podia rezar para Luke cansar-se dela depressa, antes que no conseguisse mais esconder o que sentia por ele. No suportaria ver 
Luke desprezar seu amor. Ele dissera que se entendiam sexualmente, mas ela sabia que a resposta de seu corpo era a de uma mulher profundamente apaixonada pelo homem 
que a possua. Amava-o! Se, pelo menos, tivesse descoberto isso antes de se casarem, nunca teria ido at o altar. Agora era tarde. Estavam casados. Era mulher de 
Luke. A mulher com quem ele casara apenas porque queria possu-la; a mulher que ele julgava pertencer a outro homem.
         Pela primeira vez, lamentava no ter tido experincia. Se tivesse, talvez soubesse como manter o interesse dele, como fazer para ele jamais se cansar dela.
         Estava sendo ridcula, pensou. Desejo no era base para nenhum casamento. Devia existir, sim, mas no podia ser a nica coisa. E iria ser abandonada sem 
ficar com nada.
         No. Nada, no, ficaria com o corao partido.
         
         
        CAPTULO VI
         
         A manh ia terminando. Se estivesse sozinha, Glria teria ido dar uma volta junto ao lago. Mas no estava s. Da janela, olhava atentamente o bosque que 
subia pela colina. No havia sinal de Luke. Aonde ele teria ido? Ao lembrar como se entregara, sentiu angstia de novo. Como pudera ser to cega e no ver o perigo? 
Como no percebera o que estava lhe acontecendo? Aquilo se chamava amor  primeira vista, mas, pelo antigo medo de virar gozao das companheiras, como acontecera 
quando era uma adolescente romntica, convencera a si mesma de que detestava aquele homem. Uma mulher que detestava um homem no poderia corresponder ao amor dele 
como ela correspondera ao amor de Luke.
         Ele chegou pouco antes do almoo. Comeram em silncio.
         -  Resolvi que  melhor voltarmos para Londres - disse Luke, de repente, quando estavam tomando caf.
         Algo devia ter acontecido durante o passeio, para ele mudar de idia. Estava distante, sua atitude com ela era de um frio e bem-educado estranho. No entanto, 
h pouco, o simples olhar daquele homem pusera o corpo dela em chamas.
         -  No  o que eu tinha planejado - continuou ele, depois de tomar um gole de caf. - Mas acho que  o melhor a fazer, agora.
         Glria subiu para arrumar as malas, enquanto Luke pagava a conta do hotel. Tinha fechado sua mala e estava olhando para a dele, imaginando se devia assumir 
as obrigaes de uma esposa, quando ele entrou e, calmo, resolveu o impasse. Comeou a arrumar sua mala, com uma rapidez e perfeio que indicava longa prtica. 
Claro, devia ter viajado muito e nem sempre sozinho.
         Sentiu o aguilho do cime. Quantas mulheres tinham tido o prazer que ele lhe dera? No queria pensar naquilo, mas no conseguia. Quantas dessas mulheres 
ele amara? Ou tinha amado uma s: Wilma? Wilma, que fugira com o cunhado dele porque preferira ser uma amante rica a ser uma esposa pobre.
         - Pronta? - perguntou Luke.
         Glria fez que sim com a cabea e saram do apartamento. No corredor, no pde deixar de olhar para trs. Tinha-se tomado uma mulher completa naqueles aposentos 
impessoais; ali conhecera a dor e o xtase; ali aprendera a diferena entre iluso - o que tivera em relao a Richard - e amor.
         Chegaram quase no fim da tarde. Luke no dissera uma palavra sobre o futuro e Glria sentia como se sua cabea estivesse apertada por uma tira de ao. Quando 
entraram na cidade, Luke falou:
         -  Preciso passar no escritrio. Tenho que pegar uns documentos.
         Tudo estava igual, mas havia uma diferena. Era difcil acreditar que a ltima vez que estivera ali era uma mulher solteira, sem saber o que estava por 
lhe acontecer.
         Bob ergueu-se assim que entraram. A maioria do pessoal j tinha ido embora.
         - No espervamos vocs hoje - disse Bob. - Como  que foi?
         Gil sorriu para eles e Luke pediu-lhe que fizesse uma ligao telefnica. Enquanto conversavam, Glria perguntou a Bob como ia Elaine. A expresso dele 
tornou-se grave:
         -  Tem que sofrer uma operao maior. O mdico quer ter certeza de retirar tudo. - Ele parecia prestes a chorar.
         -  A medicina faz maravilhas, hoje em dia -- disse ela, pondo a mo no brao dele, num gesto quase maternal.
         -  Eu sei... - Bob tentou sorrir. - No  a operao que me apavora tanto.  depois, quando Elaine compreender"o que ela significa. Tive que dar o consentimento 
para operarem. Antes de ir para o hospital, ela implorou que eu no deixasse removerem seu... nada, mas o mdico me disse que, se no retirar o seio, ela pode morrer. 
Meu Deus, Glria! - Ele cobriu o rosto com as mos e comeou a soluar.
         Glria abraou-o, acariciando os cabelos, aflita.
         -  Voc agiu certo, Bob, tenho certeza. A operao vai ser um choque, mas, quando ela compreender que voc ainda a ama, que ainda sente o mesmo por ela...
         -  Claro que sinto. - A voz de Bob estava rouca. - Amor no  uma coisa que voc liga e desliga como um rdio.
         -  Contou a nossa novidade a Bob?
         Nenhum dos dois tinha percebido Luke se aproximar. Glria ergueu a cabea e apavorou-se com a fria que viu nos olhos cinzentos. Ele a odiava, depois de 
ter descoberto a verdade. Pensava que ela era uma mulher sofisticada, experiente, capaz de dar todo prazer a um homem, e descobrira que no passava de uma virgenzinha 
inspida. No era  toa que a olhava como se quisesse mat-la!
         -  Que novidade? - perguntou Gil, alegre, juntando-se a eles. - No me, diga que Glria acabou por fazer uma trgua na guerra que declarou aos homens!
         -  Acho que sim - replicou Luke, seco -, seno no estaramos casados.
         -  Casados?! - Bob e Gil exclamaram, surpresos, ao mesmo tempo.
         -  Vocs casaram? Ah, Glria, como fez isso sem me contar? - reclamou Gil. - Quero saber de tudinho! O que voc vestiu no casamento? Quando resolveram casar? 
Sua mentirosa! Me dizendo o tempo todo que no gostava de Luke... Sabe? Ela at me convenceu de que no sabia que voc estava interessado nela - disse a Luke. - 
Mas eu percebi que voc se apaixonou assim que ps os olhos nela!
         -  Muito perspicaz... - comentou Luke.
         Ser que s ela havia percebido a ironia na voz de Luke?, pensou Glria, desanimada. O entusiasmo de Gil preencheu o silncio que se teria seguido  notcia 
dada por Luke. Bob cumprimentou-os sem muita nfase e Glria sabia que era porque estava preocupado com Elaine. Coitado! Pensou se havia algum modo de ajud-lo.
         -  Voc vai parar de trabalhar? - indagou Gil. - Luke tem casa aqui? Se for um apartamento, no  bom, porque as crianas ficam muito presas, sem liberdade 
- comentou a moa, seguindo os prprios pensamentos, cheia de animao.
         -  No. Eu no moro aqui em Londres. Moro numa casa a uns cinqenta quilmetros daqui. Fica no campo e  gostoso voltar para aquela paz, depois de um dia 
de trabalho.
         -  Vai ser mais gostoso ainda, agora que vai ter Glria esperando - murmurou Gil, sonhadora. - Voc sempre gostou do campo, no , Glria? No fundo, ela 
sempre foi uma moa do interior... mas acho que voc j sabe disso, no ?
         -  No tivemos muito tempo para falar de ns mesmos - respondeu Luke. - Ficamos muito envolvidos por outras solicitaes.
         Gil riu, deliciada, e Glria ficou vermelha.
         -  Acho isso maravilhoso! S sinto no ter sido convidada para o casamento!
         
         -  Foi uma cerimnia muito simples - disse Glria. - Casamos na igrejinha da cidade natal de Luke, em Lake District.
         -  E o que voc vestiu? - perguntou Gil. - Conte com todos os detalhes!
         -Um conjunto verde-claro - respondeu Luke, antes que Glria pudesse falar; passou um brao pela cintura dela, puxando-a para si e acrescentou, com ternura: 
- Ela estava linda!
         Era apenas para manter as aparncias, claro, mas, assim mesmo, o corao de Glria bateu, feliz, at que disse a si mesma que no havia motivo para isso.
         -  Um de seda? Ah, aquele conjunto sensacional que voc comprou a semana passada, Glria? - indagou Gil. - Aquele que ia usar no batizado da filha de Rose 
e Donald?
         Glria sentiu que Luke a olhava e teve a impresso de que o cheque dele ia pegar fogo, dentro da bolsa.
         -  Ento, foi to econmico quanto bonito - disse Luke.
         O tom gelado a fez estremecer. Ele dissera que no queria casar com ela usando roupas pagas por ningum mais, e ningum pagara aquele conjunto, a no ser 
ela. Portanto, ele no tinha motivo para se zangar.
         -  Voc est muito quieto, Bob...
         Glria estremeceu, com o desafio que havia por trs do calmo comentrio. Ser que Luke estava querendo lembr-la de que ainda tinha uma arma contra ela? 
No precisava!
         -  Acho que  a velhice chegando - respondeu Bob, rindo. - Glria sabe que lhe desejo toda a felicidade do mundo. Ela merece e desconfio que vai ser muito 
difcil substitu-la, aqui.
         -  Muito - concordou Luke, frio. - Mas acho que vai ter de conseguir. Glria ter muito que fazer, cuidando da nossa casa, e todo mundo gosta de encontrar 
uma mulher bem-disposta, ao chegar do trabalho, todas as noites.
         Glria corou e Gil murmurou-lhe:
         -  Que sorte! Eu nem sei o que daria para poder esperar Luke em casa, todas as noites!
         Despediram-se rapidamente. Luke ps os papis que pegara no escritrio no assento de trs do Maserati e abriu a porta para Glria. Dessa vez, o silncio 
entre eles parecia hostil, e ela teve que lutar contra a sensao de angustia que queria domin-la.
         Dirigiram-se para o oeste de Londres e, a uns quarenta quilmetros da cidade, o carro saiu da estrada principal e pegou uma secundria estreita.
         Luke ps um cassete no toca-fitas e notas de Debussy soaram, suaves. Glria tentou se descontrair, mas no conseguia. A intimidade do carro pesava sobre 
ela. Luke parecia tranqilo. Olhou-o rapidamente. Estava com a ateno concentrada na estrada e a raiva que demonstrara na firma parecia ter passado. A camisa dele 
estava aberta no peito e a lembrana de como o corpo dele reagira s suas carcias emocionou-a.
         - O que foi? Por acaso virei um monstro de duas cabeas?
         Glria desviou os olhos, irritada por ter sido apanhada olhando para ele.
         De repente, viu uma enorme casa de fazenda estilo Tudor, ao longe. A fachada preta e branca estava iluminada pelo luar e a casa dava uma impresso profunda 
de paz e solidez. Glria imaginou que devia ser de algum fazendeiro rico. De frente, parecia um "E", com o trao do centro menor, as duas alas laterais parecendo 
proteger a ala central.
         Quando o carro se dirigiu para o enorme porto de ferro, ela se surpreendeu. Luke acionou um aparelho do painel e o porto abriu-se. Dessa vez Glria no 
desviou os olhos dele, quando a encarou.
         -  Esta  a sua casa?
         -  Claro. Eu no ia levar voc para a casa dos outros.
         -  ...  lindssima! - disse ela, num sussurro.
         -  O que voc esperava? - perguntou ele, rindo. - Uma monstruosidade vitoriana projetada por um arquiteto do interior? Vi esta casa h vinte anos, quando 
ainda era um estudante, e decidi que um dia seria minha. Pode-se dizer que foi amor  primeira vista.
         -  Engraado voc acreditar numa coisa como essa.
         Falou sem querer e lembrou que h pouco tempo tambm no acreditava "numa coisa como essa", mas agora aprendera...
         -   porque no me conhece - respondeu Luke, frio. - O amor no  coisa que acontea segundo planos. Tem suas leis prprias. J reparou como elas so inexplicveis... 
cruis? Disso voc tem alguma experincia, no ?
         Por instantes, Glria achou que Luke sabia o que sentia por ele. Empalideceu, abriu a boca para negar, depois compreendeu que ele devia estar se referindo 
aos pais dela. No podia saber o que ela sentia, pois escondia isso dele com o maior cuidado.              
         Luke parou o carro diante da porta principal, desceu e foi abrir a porta do carro para ela. A casa estava s escuras.
         - Todas as manhs, uma senhora vem, faz a limpeza, a comida, cuida de tudo e vai embora. Prefiro no ter empregados em casa.
         Acendeu a luz e Glria observou o hall. Tinha um painel de madeira, coberto de patina pela ao do tempo; o assoalho de tbuas largas era limado por tapetes 
persas. Sobre um consolo havia um enorme jarro com rosas.
         -  A sala  ali - indicou Luke, tocando-lhe o brao. - Do outro lado  a biblioteca e l o escritrio, onde gosto de ficar  vontade. Mandei que deixassem 
um jantar frio para ns. Vou pegar as malas.
         Glria estava na biblioteca, olhando uns livros, quando ele voltou. Era uma sala mais confortvel do que luxuosa, e ela teve a sensao de estar cm casa.
         -  Acho que consegue fazer bons negcios, dando recepes aqui - comentou Glria,
         Ele foi at um armrio, abriu, pegou uma garrafa e dois copos.
         -  Esta  a minha casa, no um centro de encontros - disse, enquanto servia a bebida. - No comprei esta casa para deduzir dos impostos, se  o que est 
pensando. Quando quero tratar de negcios, uso o escritrio na firma. Quando quero descansar, venho para casa. Pode ser que uma vez ou outra precise de voc para 
recebermos algum, mas isso vai ser ocasional. No ter que trabalhar para viver, se isso a est preocupando. E por falar em "viver"... - Pegou num dos copos e entregou 
a ela. - Usque... voc est plida. Beba, que vai lhe fazer bem... Enquanto estivermos casados, eu cuido do seu sustento. Se bem que no espere que aja como minha 
secretria social, voc ter certas... responsabilidades. Vai precisar de roupas...
         -  No quero o seu dinheiro! - Glria ps o copo numa mesa, sem tomar sequer um gole, e sua voz tremia de raiva. - Tenho todo o dinheiro que preciso. No 
quero o seu, Luke.
         -  Mas vai us-lo. Os msculos dos maxilares, junto s tmporas, comearam a pulsar, e ele apertava o copo de cristal com fora. - Voc rasgou o cheque 
que eu lhe dei para o vestido de casamento... o seu orgulho impediu que usasse algo pago por mim. Eu tambm sou orgulhoso, Glria, e, enquanto for minha mulher, 
vou sustent-la. Est entendido?
         Por instantes, ela pensou em se rebelar, mas o olhar dele avisou-a para no fazer isso.     
         -  Ser que posso ficar com o meu carro? - indagou,  sarcstica.
         -  O que faria se eu dissesse "no"? Ficaria entre as paredes desta casa como uma prisioneira, sem tocar em nada que eu lhe desse? No estou com a peste, 
sabia, Glria? No vou contaminar voc!
         -  J contaminou.
         Ela falou to baixo que pensou que Luke no ouvira, at que o' som de cristal estilhaando-se a fez erguer a cabea. O copo dele estava na lareira, feito 
em pedaos.
         -  Inferno! No quer que eu esquea, no ?! - gritou Luke. - O que quer que eu faa? Que passe o resto da minha vida penando por causa da sua virgindade? 
O que mais voc odeia, Glria? O fato de eu no ser Bob ou o fato de ter gostado de fazer amor comigo assim mesmo?
         -  Voc  desprezvel!
         -- Desprezvel ou no, sou seu marido. No esquea disso!
         Quando a porta bateu atrs dele, Glria sentou-se na cadeira mais prxima. Ouviu o ronco do motor do Maserati se afastando e custou a se convencer de que 
Luke a deixara sozinha. Esperou meia hora. Gomo ele no voltasse, ergueu-se para conhecer a casa.
         Do outro lado do hall, diante da biblioteca, ficava o escritrio, uma sala bem proporcionada, evidentemente reformada durante o perodo georgiano. O teto 
alto, trabalhado, e a lareira com tampo de mrmore eram lindos. A decorao era toda em tons de verde-claro e Glria compreendeu que ele preferisse aquela sala para 
se descontrair. Era mais familiar. Famlia! Qualquer famlia que viesse a viver naquele casa maravilhosa no seria dela e de Luke. Pensar nos filhos que ele teria 
com outra mulher causou-lhe um aperto doloroso no corao.
         Pegada  biblioteca ficava a sala de jantar, mobiliada em estilo antigo e com um belssimo lustre de cristal. Glria fechou a porta dupla devagar, tentando 
no imaginar aquela enorme mesa de mogno rodeada por uma numerosa e alegre famlia.
         A cozinha era moderna, mas conservava o encanto tradicional. Havia um bilhete na mesa, avisando que a salada e o frango assado estavam na geladeira.
         Glria no estava com fome. Seus ouvidos mantinham-se alerta, esperando ouvir o ronco do motor do Maserati. Voltou  biblioteca, relutando em subir para 
o primeiro andar, como se fosse uma visita.
         Estava adormecida, encolhida numa das poltronas da biblioteca, quando algo a acordou. Estremeceu, percebendo que era a porta da frente abrindo-se,   e  
ouviu   passos   lentos   cruzando   o   hall.   Ela   conteve a respirao.  Eram duas horas da manh.  Onde Luke tinha estado? Ele ficou parado, fitando-a com 
um brilho estranho nos olhos.
         -  Esperando por mim como uma mulherzinha dedicada? - disse com voz arrastada, e ela percebeu que estivera bebendo. - Por que, hein? Ser que sentiu a minha 
falta? Est me querendo, Glria? Est, sim, apesar de os seus olhos quererem negar isso. Mas desta vez est salva - murmurou. - Bebida demais bloqueia o desejo, 
sabia? Est chocada? - O sarcasmo dele arrepiava os nervos de Glria. - Devia estar contente por estar livre dos meus ataques... Voc me odeia, no ? No odeia? 
- indagou, feroz. - Tirei a sua virgindade e voc no tem coragem para confessar que gostou. Em vez disso, me acusa, me detesta...
         -  Quer me dizer onde  meu quarto? - pediu ela, tomando cuidado para no provoc-lo.
         Tinha medo do que Luke poderia fazer, bbado como estava.
         -- Fique com o que quiser. Poderia ficar no meu, mas no vai querer, no , Glria? Quem sabe, uma noite, voc vai me procurar e ser minha mulher, no 
? No... Isso nunca vai acontecer. Ningum deve macular o que  para ser sacrificado no altar do seu amor por Bob! Sua idiotinha! - A voz dele enrouqueceu e agarrou-a 
pelos ombros, arrancando-a da poltrona. - Vai desperdiar a sua vida inteira com um homem que no te ama?
         Glria encarou-o, firme, e respondeu:
         -  Sim.
         E era verdade, se bem que o homem que amava no fosse Bob. Era Luke. Ele a largou sem dizer mais nada. A mala dela era muito pesada para carreg-la escada 
acima. Ento, abriu-a e pegou o quimono de seda, cansada demais para procurar outra coisa. Tudo o que queria era dormir. E esquecer.
         A primeira porta que abriu dava para um quarto decorado em tons masculinos, e, apesar da colcha de seda sobre a cama de casal, percebeu que era o de Luke. 
Fechou a porta, foi para a que ficava mais longe, abriu-a e acendeu a luz. Era, certamente, um quarto para hspedes, decorado em tons suaves de rosa, com banheiro 
anexo. Glria despiu-se, tomou um banho rpido e enfiou-se na cama.
         Um telefone tocando em algum lugar acordou-a. Algum devia ter atendido, pois o toque foi interrompido no meio. Abriu os olhos e olhou ao redor. O sol entrava 
pela janela. Pulou da cama e abriu as cortinas. Ficou encantada com o jardim elisabetano, restaurado, l embaixo. 
         -  Glria! - Houve uma breve batida na porta.
         Teve apenas tempo de vestir o quimono e Luke entrou. Vestia uma cala jeans, camisa esporte e todo sinal de bebedeira tinha sumido. Disse:
         -  Minha irm telefonou. Soube do nosso casamento por Amy e vem para c. Deve chegar hoje  tarde. Parece que a crise terminou.
         Os olhos dele estavam fixos no quimono de seda e Glria teve a impresso de que algo o fizera esquecer momentaneamente do que estava falando. Pouco depois, 
achou que sabia o que fora.
         -  Marina quer que Lucy fique uns dias conosco. Quando conhecer minha irm melhor, vai ver que ela  mestra em estragar os planos dos outros, mas quando 
algum estraga os dela... Bem, acho que devemos ajud-la. Philip procurou-a, quer voltar para ela.
         Calou-se e Glria no teve dificuldade em adivinhar o que ele estava pensando: h cerca de quarenta e oito horas, tinha se ligado a ela e acabava de saber 
que a mulher que amava estava livre. Talvez Wilma tivesse descoberto que a riqueza no substitui o amor, talvez tivesse compreendido que com Luke teria as duas coisas! 
A maldade dessa suposio fez Glria sentir vergonha.
         -  Marina no sabe como Lucy vai receber a coisa. A culpa  dela! Avisei-a para no encher a cabea da menina com acusaes contra o pai, mas Marina no 
me ouviu. Agora est com medo de que Lucy rejeite o pai. A situao entre os dois est difcil e ela acha que precisa ficar algum tempo sozinha com Philip.
         -  Espero que ela tenha razo - disse Glria.
         -  Marina vai trazer Lucy para c.  uma garotinha simptica, apesar de mimada. Sensvel, mas est naquela idade em que se sente tudo com intensidade. No 
quero que ela fixe a idia de que s existem casamentos infelizes.
         -  O que est querendo dizer?
         -  Que enquanto Lucy estiver aqui, voc vai dormir no meu quarto, comigo. J levei a sua mala para l. Arrume as suas coisas no armrio, enquanto eu fao 
caf. Sei que a vinda de Lucy d a voc uma boa oportunidade para se vingar de mim, mas peo que me ajude por ela. Ela adorava o pai e sofreu muito, quando ele foi 
embora.
         Glria passou a lngua pelos lbios secos. De repente, tivera uma idia maluca.
         -  Est bem - concordou. - Mas com uma condio... - Os olhos de Luke fixaram-se nos dela. - Enquanto Lucy estiver aqui, eu vou representar o papel de uma 
recm-casada felicssima. Mas, assim que ela for embora, quero que voc trate do nosso divrcio. Conseguiu este casamento com uma chantagem, Luke, Tenho o direito 
de tambm usar unia chantagem para me livrar dele.
         -  Sei... - murmurou ele, e, era impossvel avaliar o que sentia. - lista bem. Agora ambos sabemos em que terreno pisamos. Devo isso a Marina. Afinal, fui 
eu que apresentei Wilma a Philip.
         E Wilma agora est livre, lembrou Glria, triste. Luke no se oporia  separao...
         -  Est bem... Mas se voc trapacear, o acordo ficar desfeito, Glria.
         -  Vou arrumar as minhas roupas.
         Ele estava parado na porta e Glria teve que passar bem perto. Sentiu o cheiro suave da colnia dele e por instantes teve vontade de abra-lo, de apertar 
seu corpo contra o de Luke e sentir que ele a queria.
         -  A Sra. Meadows deve chegar logo. Avise-a de que Lucy vem para c - disse ele, indo at a cama e ajeitando as cobertas que ela mal desarranjara. - No 
quero falatrios na cidade. Lucy pode ficar sabendo.
         -  Eu arrumo a cama, depois que me vestir.
         Eram inimigos. Glria sentiu isso no silncio que se seguiu. Teve que piscar muito para conter as lgrimas que lhe subiram aos olhos.
         Pouco depois das quatro horas, um Citroen parou diante da casa. Uma elegante mulher morena saiu dele e Glria a identificaria em qualquer lugar como irm 
de Luke. Uma garota de doze anos, de cabelos crespos, vestindo uniforme, estava com ela. Parecia to pequenina e vulnervel que Glria sentiu-se imediatamente ligada 
 menina. Ser que Marina lhe tinha falado da volta do pai?
         -  Luke, seu bandido, como foi se casar sem me dizer nada? Sabe que roubou a nica chance de Lucy ser dama de honra da sua noiva? - disse Marina, enquanto 
entrava na casa.
         Havia nela um nervosismo que Glria sentiu imediatamente. Ser que estava zangada com Luke? Olhou para o marido. Ele estava com ar preocupado, mas olhava 
para a sobrinha, e no para a irm, A menina parecia sem jeito, insegura.           
         -  Lucy detestaria ser dama de honra - disse Luke, positivo. - Como  que vai na escola, garota?
         - Uma droga! ,
         Ficou evidente que havia entre sobrinha e tio um entendimento que no 
         havia entre me e filha. Fisicamente no se pareciam, mas, quando a menina riu, ficou extraordinariamente parecida com Luke.
         -  Ela est pensando em passar as frias com voc - disse Marina, e voltando-se para Glria: - Luke  um amor. Lucy sempre passa as frias com ele. Quando 
volta para casa,  um trabalho ajeitar tudo o que ele estraga nela.
         Glria sorriu, bem-educada, mas estava surpreendida com a atitude de Marina em relao  filha. No era nada maternal.
         - No posso demorar muito, Luke. - Ela falava depressa, muito depressa, achou Glria, que esperou que Luke protestasse. - Lucy, v l para cima guardar 
as suas roupas. Preciso falar com seu tio e tenho que ir embora logo depois do jantar.
         -  Ela no  mais uma criancinha, Marina - observou Luke, depois de a menina ter subido. - Falou a ela sobre Philip?
         -  Queria falar, mas at agora no tive chance - respondeu Marina, evasiva.
         -  E o fato de planejar ir embora logo depois do jantar acaba com qualquer chance, no? - indagou ele, irnico.
         -  Oh, Luke, eu acho que  melhor voc falar - choramingou Marina. - No posso... os meus nervos...
         -  Em primeiro lugar, no devia ter envenenado a menina contra o pai - disse Luke, seco. - Voc  maluca, Marina.
         -  Isso  jeito de tratar sua irm?! - rebelou-se Marina. - No  sempre que peo para me ajudar, Luke. Afinal,  um favorzinho!
         -  Voc acha? - A voz dele estava ainda mais spera. - Trazer para c uma garota de doze anos, sensvel, quando ainda estamos em lua-de-mel; querer que 
ela saiba por ns que o pai est voltando para casa depois de quatro anos de ausncia... Isso  um "favorzinho"? Eu gostaria de saber se agora Philip.sabe o que 
est fazendo!
         -  Que besteira! - A voz de Marina tremeu e Glria teve a impresso de ver lgrimas nos olhos dela. - Vou l para cima!
         -  No fique me olhando como se eu fosse um monstro - disse Luke a Glria, depois que Marina saiu. - Marina chora fcil, quando acha que as lgrimas vo 
ajudar a conseguir o que quer.
         -  Ela  sua irm... - observou Glria, calma.
         -  Eu sei. Esse  um dos motivos pelos quais no consigo ter raiva de Philip. Pobre coitado!
         -  Ele deve amar Marina, se quer voltar para ela. Voc vai falar com Lucy?
         -  Acho que vou ter que falar. Marina  bem capaz de ir embora sem dizer nada e a menina s vai ficar sabendo das coisas quando voltar para casa. Minha 
irm foi muito mimada por meus pais e espera que todo mundo a mime. Espero que Philip saiba, mesmo, o que est fazendo!
         Desconfiando que Marina era do tipo de mulher que sempre troca de roupa para jantar, Glria subiu enquanto Luke ia para a biblioteca. Iriam partilhar do 
mesmo quarto, mas ela estava determinada-a passar o menor tempo possvel com ele l.
         Estava sentada  penteadeira, maquilando os olhos, quando bateram  porta. Enrolara a toalha no corpo, por cima das roupas de baixo; por isso, hesitou.
         -   Marina... Posso entrar?
         Por momentos, Glria ficou desapontada. Ser que esperava que fosse Luke? Ele no bateria  porta de seu prprio quarto... apesar de tambm querer evitar 
ao mximo qualquer intimidade com ela, s que por motivos diferentes. Enquanto ela temia que a proximidade a fizesse demonstrar o que sentia por Luke, ele sentia 
apenas tdio por sua inexperincia sexual. Esperara encontrar nela uma mulher que sabia amar, mas descobrira que ela nada sabia de amor, a no ser o que ele mesmo 
lhe ensinara!
         -  Oh, desculpe! No sabia que estava despida - disse Marina. - Onde est Luke? L embaixo?
         -  Na biblioteca - respondeu Glria. - Quer falar com ele?
         -  No, a no ser que ele seja menos grosseiro - retrucou Marina francamente. - s vezes acho que ele esquece que sou cinco anos mais velha. O sucesso que 
teve nos negcios subiu-lhe  cabea. Dizer aquela besteira de vocs estarem em lua-de-mel... - Olhou para Glria com ar confidencial. - Ns duas somos mulheres 
inteligentes, querida... Conheo meu irmo e sei que ele no  nenhum santo, nem bobo... mas teve muita sorte em escapar de uma vigarista como Wilma. Ela iria arrancar 
at o ltimo centavo dele. E, se bem a conheo, garanto que ainda vai tentar. Agora que perdeu Philip, vai ver se consegue fisgar Luke de novo. Ele era doido por 
ela, sabe? - Ento parou de falar, lembrando que aquilo no era exatamente o que se devia dizer a uma recm-casada. Acrescentou, depressa: -- Mas, claro, Luke nunca 
a aceitaria de volta. Ele  duro, no costuma perdoar. Ento, como eu dizia, aquela bobagem de vocs estarem em lua-de-mel... Voc tem que concordar comigo em que 
meu irmo no  homem de estar seguindo regras, preconceitos, i hoje em dia...
         -  Todo mundo dorme junto antes de casar... no  o que voc ia dizer? - interferiu Luke, surpreendendo as duas. - Errado, minha querida irm. Eu no conheci 
Glria com tempo bastante para isso e ela no aceitaria esse tipo de jogada. Est deixando que o seu cinismo atrapalhe o seu julgamento. Acontece que minha mulher 
veio para mim to pura quanto Lucy .
         Pelo olhar de Marina, Glria percebeu que ela estava perplexa com o que Luke dissera. Sentiu-se morrer de vergonha. Como Luke se atrevia a falar dela daquele 
jeito?
         -  Uma virgem? - Os olhos de Marina se arregalaram. - Eu devia ter imaginado: para meu irmo, apenas o melhor, jamais algo de segunda ou de terceira mo! 
Wilma, agora, no tem a menor chance, no?
         -  Voc est deixando Glria sem jeito - disse Luke, frio - e me insultando. Eu me casei com ela por um simples motivo: amor.
         Ele era excelente ator, pensou Glria, amargamente. Marina ficou em silncio, olhando o irmo. Por fim, ele falou:
         -- Agora, se voc der licena, vamos nos vestir para jantar. Depois resolvemos o que deve ou no ser dito a Lucy,
         Dizendo que ia ver se a mesa estava em ordem, Glria vestiu-se rapidamente e ia sair do quarto. Luke parou de abotoar a camisa e fitou-a, irnico:
         -  Fugindo? De quem? De mim ou de voc mesma?
         Glria encontrou Lucy na saia de jantar. Tinha trocado o uniforme por um vestido bonitinho, de algodo. A menina sorriu, hesitante, fazendo-a lembrar de 
Luke.                                         
         -  Desculpe a minha me me trazer para c... -disse, insegura. A atitude dela era adulta, mas as mozinhas torcendo-se, nervosas, no eram. Glria sorriu, 
amvel.
         -  No tem nada! Sabe que Luke adora ter voc aqui. A garota sorriu tambm, descontraindo-se.
         -  s vezes mame  o fim! Ela no pensa, sabe? - Lucy foi para perto da janela. - Sei que papai est querendo voltar para casa. Ele me escreveu contando, 
sabe, e eu no disse nada a ela. Papai no  desonesto, sabe?  que ficou envolvido com ela... Eu ia conversar com tio Luke sobre isso... papai e Wilma...
         -  Tenho  certeza  de  que  ele  vai  entender - acalmou-se  Glria, sentindo uma raiva repentina da inocncia dos adultos. Como os pais de Lucy haviam 
tido coragem de pr pesos to grandes em ombros to frgeis? - Est certo voc gostar tanto de seu pai quanto de sua me - continuou. - Deve ficar contente por tudo 
ter-se arranjado..
         -  Eu queria ficar - explicou Lucy -, mas estou com medo... de que eles se separem de novo - explicou depressa. - Sabe, mame  to... inconstante, avoada,.. 
Papai sofreu muito com ela. Acho que foi por isso que acabou indo embora com Wilma. Eu sei que no devia estar dizendo isto, mas foi Wilma que virou a cabea de 
papai. E no estou dizendo isto para defend-lo. Ela pensava que papai tinha mais dinheiro que tio Luke. Sabe que ela e meu tio estavam noivos? - perguntou, hesitante.
         -  Eu sabia, sim. J sabia de tudo isso. - Houvesse o que houvesse, Glria no queria aumentar o peso nos ombros daquela criana. - Espere Luke descer e 
converse com ele. Podemos atrasar um pouquinho o jantar. Sei que ele vai ficar aliviado, quando souber que voc j est a par da reconciliao de seus pais.
         -- Mame me trouxe aqui para ele me contar, no ? Coitado do tio Luke!
         Quando Marina desceu, Glria tratou de distra-la e, quando Lucy sumiu na direo da biblioteca e voltou, pouco depois, com Luke e um sorriso feliz nos 
lbios, ela sentiu uma ponta de inveja. Como era bom ser Lucy, ter confiana absoluta em Luke e contar-lhe seus problemas, com a certeza de que ele os resolveria!
         Notou que Luke nada disse  irm sobre as confidencias de Lucy e achou que era o modo de ele castig-la pela falta dela para com os deveres de me. Como 
ele a castigaria, se descobrisse que cometera a loucura de ' am-lo?
         -  Tome cuidado com Wilma, meu bem - avisou Marina, em voz baixa, a Glria, enquanto se dirigiam para seu carro, depois do jantar. - Sei que Luke est apaixonado 
por voc, mas Wilma  uma mulher muito determinada e bonita,
         Apaixonado por ela! Se Marina soubesse!, pensou Glria, enquanto o Citroen se afastava. Soprou uma brisa e ela cruzou os braos nus, estremecendo.
         -  Voc est com frio, vamos entrar - disse Luke, com ar impessoal" - Eu tenho que terminar um trabalho.  melhor voc e Lucy irem deitar. Prometi a ela 
que podia fazer umas compras enquanto estivesse aqui. Assim, voc e a garota tero o que fazer s assim que sabe
         - Que amvel! - disse Glria, irnica. -  satisfazer uma mulher, Luke? Pagando as contas dela?
         Ele se voltou e ela tremeu, ao suportar-lhe o olhar, mas recusou-se a demonstrar que estava intimidada. Lucy estava  espera deles, na porta e olhava-os, 
tmida.
         -- Que tal uma partida de batalha naval? - sugeriu Luke
         A menina olhou de um lado para o outro, incerta, e, imaginando o que ela estava pensando, Glria disse, animada:
         - Eu topo! Adoro batalha naval! E voc, Lucy?
         Fazia aquilo pela garota, que j fora bastante magoada por adultos prometeu a si mesma que seu casamento pareceria o mais feliz do mundo enquanto Lucy estivesse 
ali.
         
         
        CAPTULO VII
         
         Glria abriu os olhos devagar. Estava deitada de lado, virada para a janela, o sol insinuando-se entre as cortinas. Olhou o relgio. Mais de oito horas! 
Virou a cabea, temerosa, mas no precisava se preocupar: o outro lado da cama, que tinha sido ocupado por Luke, estava vazio. Havia apenas a marca de sua cabea 
no travesseiro e o lenol estava levemente amassado.
         No percebera quando ele viera deitar. Quando ela estava para subir, o telefone tocara e Luke fora para a biblioteca. Lucy era uma criana sensvel e Glria 
no sabia at que ponto iria acreditar na farsa representada por eles. Levantou-se e foi surpreendida por uma sensao de nusea. Havia comido bem na noite anterior 
e, como comera pouco at ento, devia ser alguma perturbao digestiva.
         Quando chegou ao banheiro, a nusea aumentou e acabou vomitando. S ento se sentiu aliviada. A ltima coisa que queria era ficar doente! Tinha certeza 
de que Luke iria se irritar e achar que a "doena" era um jeito de tentar escapar das ordens dele.
         Lucy estava se servindo de caf quando Glria entrou na cozinha. Com um jeans e uma camiseta, a menina parecia ainda mais criana.
         -  Oi! Eu ia levar caf para voc. Tio Luke disse para no acordar voc muito cedo e para avisar que ele foi para o escritrio e volta ali pelas cinco horas.
         Glria sentou  mesa e tomou o caf que Lucy servira, iria passar um dia sem ter que se controlar diante de Luke.
         -  Acho que vou andar a cavalo - disse Lucy.  - Tem uma estrebaria aqui perto. Quer ir comigo?
         O sol brilhava l fora e convidava a sair.
         -  Gostaria - respondeu Glria -, mas no sou boa amazona. Estava pensando em dar uma volta no jardim e no parque atrs da casa.
         -  Mas d para a gente fazer tudo! - insistiu Lucy. - Vamos andar a cavalo agora de manh e depois do almoo a gente d uma volta por aqui.
 como todos os outros parques das casas por aqui:  um jardim,  um bosque e um lago lindo.
         Glria acabou concordando e Lucy foi mudar de roupa, enquanto ela ajeitava a loua do caf e escrevia um bilhete para a Sra. Meadows. Quando Glria dissera 
que no tinha roupa de montaria, a menina respondera que podia muito bem ir de jeans.
         Fazia tempo que Glria no sentia o prazer de respirar o ar puro do campo. O cu estava de um azul profundo. Por trs dos campos cultivados de trigo, uma 
impressionante extenso dourada, vinha o vermelho-escuro de um campo de papoulas.
         - Sinta s este ar! - exclamou Lucy, deliciada. -  como respirar liberdade! Eu odeio a escola. Mame foi esperta, ia estudar em Cambridge, mas antes encontrou 
papai... Ela vive dizendo que eu preciso seguir uma carreira. No quer entender que eu tenho os meus interesses.
         - O que voc gostaria de fazer? - perguntou Glria, sabendo o quanto o ponto de vista de uma garota podia mudar entre os doze e os vinte e quatro anos.
         Dali a doze anos, Lucy poderia lamentar amargamente no ser capaz de se sustentar. Glria sabia que o dinheiro no resolvia tudo, mas muitas de suas  contemporneas 
tinham achado que seguir uma carreira era to estimulante que no haviam querido saber de. outra coisa. Lembrando-se da prpria adolescncia, dos anos antes de conhecer 
Richard, lembrou    tambm que era um horror uma moa de vinte anos ainda estar solteira, na sua cidadezinha. Todos tinham pena das "solteironas". Desconfiava que 
as garotas modernas no eram muito diferentes, mas Lucy parecia ter amadurecido depressa demais, talvez por ter acompanhado o problema dos pais.
         A estrebaria onde alugavam cavalos ficava a cerca de um quilmetro. Glria ficou sabendo que tinha mudado de dono recentemente, pela mocinha que as atendeu. 
Disse, tambm, que tinha certeza de que o Sr. Lawson alugaria dois cavalos a elas, assim que terminasse a aula de equitao que estava dando. Podiam esperar alguns 
minutos?
         Glria at que gostou de sentar na sala sossegada e ficar olhando um gatinho que brincava no jardim, enquanto Lucy conversava animadamente com a mocinha.
         No percebeu a intensidade da tenso a que estava submetida desde o casamento at comear a sentir um profundo cansao apoderar-se de todo seu ser. Provavelmente 
era tambm.um pouco efeito da caminhada ao ar livre, pensou, bocejando. Nossa! No podia adormecer ali. No entanto, estava quase dormindo, quando uma voz masculina 
a fez sobressaltar-se.
         -  Bela Adormecida, acho... - brincou o rapaz. - Que pena ter acordado! Eu tinha esperana de conseguir que acordasse da maneira tradicional!
         Como estava sentada, Glria precisou erguer muito a cabea para ver o rosto moreno e os alegres olhos azuis do homem que entrara do jardim. Ele vestia uma 
camisa esporte, jeans e velhas botas de montar. Devia ser o dono da estrebaria.
         -  Sou Trevor Lawson - apresentou-se o rapaz. - Belinda disse que quer alugar dois cavalos.
         -  Sim, isso mesmo - concordou Glria, levantando-se. - A sobrinha de meu marido quer andar a cavalo e vou com ela, apesar de no ter nenhuma prtica.
         -  Marido? Voc  casada? - perguntou ele, decepcionado; ou seria impresso dela? - Vamos at o escritrio e eu vejo o que se pode arranjar. Entrei para 
este negcio recentemente, apesar de morar por aqui h alguns anos. -- Saiu andando e s ento Glria percebeu que mancava; ele bateu numa das pernas e disse: -- 
Consegui isto numa corrida de motos. Tive sorte de no perder a perna. O mdico recomendou equitao como terapia. Gostei tanto de andar a cavalo que comprei este 
estabelecimento. Ningum quer um motociclista com medo de correr. Apesar de estar completamente bom, perdi a raa, entende?
         Surpresa de ele fazer confidencias a uma estranha, Glria sorriu com simpatia.
         -  Mora   por   aqui?   -   perguntou   Trevor,   quando   entraram   no escritrio.
         -  Aqui perto - respondeu Glria, preenchendo o formulrio que ele entregou.
         O rapaz ficou olhando o que ela escrevia e indagou:
         -   casada com Luke?
         Ele parecia to surpreendido que Glria enrubesceu.
         -  Oh, desculpe - disse Trevor imediatamente. -  que conheo bem Luke e, como ele no me disse nada...
         -  Eles   se   apaixonaram   e   se   casaram   logo   -   disse   Lucy,   materializando-se atrs deles. - Achei isso to romntico!
         Como seria bom ter a idade de Lucy de novo!, pensou Glria. A vida lhe parecia to fcil, naquele tempo!
         - Bem, eu acho melhor arranjar um cavalo bem manso para voc - disse Trevor. - No quero que Luke me acuse de descuido. Ele me ajudou com um bocado de dinheiro 
para entrar neste negcio - contou a Glria, enquanto Belinda levava Lucy para escolher um cavalo. - Uma poro de gente acha que ele  um bicho-papo... por causa 
da sua reputao como homem de negcios. Mas comigo foi maravilhoso e a nica condio que imps foi que eu desse aulas de equitao para as crianas excepcionais 
daqui, duas vezes por semana, o que, afinal,  um prazer para mim. Ver o jeito como aquelas crianas vibram, se divertem com a sensao de liberdade que tm quando 
andam a cavalo...
         Falou sobre seu relacionamento com as crianas, enquanto arreava a gua que escolhera para Glria e ela tentava enxergar Luke pelo novo e surpreendente 
ngulo de benfeitor!
         - Luke no admite que ningum fale da sua generosidade - comentou Trevor, ajudando-a a montar. - Mas acho que voc j sabe disso. Ele tem uma personalidade 
complicada. Eu no gostaria de cruzar com Luke de modo errado... Ele  uma pessoa incrivelmente boa, a no ser que haja algum problema emocional... - Olhou pensativo 
para Glria, que montava uma bonita gua baia. - Dizem que guas paradas so profundas, e eu acho que Luke  um cara mais do que profundo. Mas voc parece ser daquelas 
mulheres que tm coragem para enfrentar qualquer parada que a vida apronte.
         Era mesmo?, pensou Glria, enquanto ela e Lucy cavalgavam por pastos onde havia grupos de tranqilas vacas. Precisaria de um bocado de coragem para sobreviver 
ao tempo que iria passar com Luke e para emergir da agonia que a separao iria lhe causar,
         Voltaram para casa na hora do almoo. A Sra. Meadows tinha feito um gostoso almoo frio. Enquanto comiam, Lucy disse que achava que Trevor havia "paquerado" 
Glria. Sem fazer referncia  gria da menina, Glria respondeu, um tanto seca:
         -  Acho que ele faz isso com tudo quanto  mulher. Deve ser um tipo metido a conquistador.
         -  Hum... Acho que Belinda est apaixonada por ele - disse Lucy, surpreendendo Glria por sua perspiccia. -- Ela olha para Trevor do mesmo jeito que tio 
Luke olha para voc... Com uma cara de quem est com fome!
         Glria poderia responder que havia vrios tipos de fome, mas no quis  desiludir a garota. Em vez disso, lembrou-a de que prometera lev-la para conhecer 
o jardim e o parque da casa. No tinha a menor idia do que Luke costumava fazer  noite. A Sra. Meadows mantinha o freezer sempre bem abastecido e no seria problema 
improvisar um jantar. Tirou alguns fils do congelador, imaginando fazer uns bifes e uma salada com pat, e apanhou frutas frescas para sobremesa.
         Primeiro, passearam pelo jardim, ao redor da casa. De repente, Glria se sentiu esquisita e sentou-se num banco. O mal-estar foi seguido por nusea, como 
acontecera de manh. Imaginou se teria comido alguma coisa que a intoxicara.
         Lucy ficou aflita, perguntou-lhe se queria voltar para casa, mas Glria fez que no. Se ficasse sozinha no quarto, comearia a pensar em Luke, imaginando 
como seria se ele a amasse de verdade, em vez de apenas sentir desejo por ela. S de pensar em fazer amor com ele, comeava a tremer. Houvesse o que houvesse, nunca 
mais devia se deixar apanhar numa situao daquelas, que a tornava to vulnervel. Ele havia dito que se casara com ela para satisfazer seu desejo. Mas isso tinha 
sido antes, antes de ele saber que ela no tinha experincia alguma em sexo, e, agora, o desejo desaparecera e ele lamentava ter-se casado. Quando chegaram ao lago, 
Glria tinha certeza de que, se no fosse pelo orgulho c pelo fato de Lucy ter vindo para ali, ele j teria proposto que se divorciassem.  Desde  que tinham chegado 
de Lake District,  ele nem tentara toc-la.
         Dizendo a si mesma que devia sentir alvio, e no aquilo que se parecia tanto com desapontamento, foi com Lucy at um velho barco que estava amarrado a 
um rstico ponto.
         - Eu quis passear nesse barco o ano passado, mas tio Luke disse que no era seguro. Queria, primeiro, drenar o lago e limp-lo, porque o laudo  muito lamacento 
e esse barco afunda fcil.
         Olhando a gua turva, Glria sentiu-se inclinada a concordar com ele, apesar de, como Lucy, sentir vontade de passear no lago.
         - Luke quer criar carpas a no lago - disse a garota. - Elas so mansas, vm at comer na mo da gente!
         - Eu sei... - concordou Glria, lembrando-se de umas frias na Itlia, onde alimentara carpas que viviam num tanque de mrmore.
         - Acha que meus pais vo ficar juntos, desta vez? - perguntou Lucy de repente.
         - No sei, Lucy - respondeu Glria, tentando ser o mais cuidadosa possvel. -- A vida no d garantia de nada e s vezes  meio difcil de a gente aceitar. 
Pense que j  bastante eles gostarem um do outro a ponto de tentarem de novo. Acho que so formidveis, os dois.
         -  Ou malucos... - retrucou a garota, com voz rouca. - Glria" como  que a gente sabe quando um amor  verdadeiro?
         -   uma coisa que no d para a gente explicar. - A tarde ia adiantada, Glria sabia que devia sugerir que voltassem, mas sentia que Lucy estava procurando 
um apoio e no podia deixar de tentar ajud-la. - Olhe, em primeiro lugar, a gente tem que diferenciar "verdadeiro" de "eterno". Quando a gente ama, acha que esse 
amor vai durar para sempre. s vezes no dura. Isso no quer dizer que a gente falhou ou que algum seja culpado. A vida e as pessoas no so sempre iguais. Tudo 
muda. Uma das coisas mais difceis de aceitar  que a felicidade no  eterna.
         -- Sabendo disso, como  que algum pode ligar sua vida  de outra pessoa?
         A angstia que transparecia nos olhos da menina contagiou Glria.  mesmo, como?, teve vontade de dizer. Em vez disso, pegou a mo da menina.
         - Isso  fcil. No consigo encontrar palavras para dizer a voc como isso acontece, Lucy. Entendo como se sente. Quando eu era um pouco mais velha do que 
voc, me aconteceu uma coisa; achei que nunca mais na vida iria confiar em algum... que nunca mais iria amar. - Distrada, falando com a menina, Glria no ouviu 
rudos de passos, no notou que j no estavam ss. - Mas tornei a amar e, quando a gente ama, no tem medo de enfrentar as incertezas da vida. Isso  uma coisa 
inerente a todo ser humano. Voc vai ver. Amor, verdadeiro amor, no deve causar medo, sabe? Medo de que tudo d errado, medo de se machucar. Quando eu me apaixonei 
por...
         Ento, ouviu um barulho mais forte e voltou-se. Luke estava junto de uma rvore, perto delas. Estava plido.
         -  Tio Luke! - Lucy correu para ele e o olhar sombrio desapareceu imediatamente.
         Lucy conversou com o tio, toda animada, durante todo o caminho de volta, parando apenas para tomar flego.   
         -  Ns andamos a cavalo, hoje de manh - disse. - E acho que Trevor "paquerou" Glria. Ele no tirava os olhos dela! No ?
         Voltou-se para Glria, esperando confirmao. Apesar de a trilha ser larga o bastante para trs, ela ficara para trs, achando que no suportaria a proximidade 
de Luke.
         - J disse a voc - replicou ela - que ele deve ser assim com toda mulher que vai l. Eu no sabia bem o que fazer para o jantar - disse a Luke. - Preparei 
uma salada e uns fils. - O que voc quiser T- cortou Luke. - Eu vou jantar fora. Assim que chegaram em casa, ele subiu e Glria foi para a cozinha, no querendo 
ir para o quarto enquanto ele estivesse l.
         Lucy queria ver um programa de tev e foi para o quarto dela. Pouco depois, Glria percebeu que a porta da cozinha se abria. Luke estava elegantssimo, 
com  uma cala cor  de  areia e  uma camisa de  seda azul-escura, um palet esporte na mo. Aquela roupa, apesar de fina e cara, no era a indicada para um jantar 
de negcios, e Glria sentiu cime ao pensar a que tipo de.lugar ele iria. Uma boate, talvez, tom restaurante da moda... Mas com quem? Seus lbios tremeram. E Luke 
dissera que no queria que Lucy percebesse qual era a verdadeira situao deles! Mil palavras amargas subiram-lhe aos lbios, mas tudo o que ela disse foi:
         -   assim que voc espera convencer Lucy de que nos amamos? Saindo e nos deixando aqui sozinhas?
         -  Ela iria ficar mais desiludida se eu ficasse - respondeu Luke, spero. - Porque, do jeito que estou me sentindo, vou acabar estrangulando voc. No se 
preocupe em me esperar.xx
         O telefone tocou, quando o Maserati saiu, com os pneus rangendo. Glria atendeu. Uma insinuante voz de mulher perguntou por Luke e, quando Glria respondeu 
que ele sara, era riu maciamente. - Bom. Ele sabe que detesto esperar. Glria mal tocou no bife. Vises de Luke jantando num restaurante,  luz de velas, com a 
dona daquela voz aveludada, no cessavam de atorment-la. No devia ser uma virgenzinha boba! Aquela voz dizia que H "lona sabia tudo o que era importante para agradar 
um homem.
         Depois do jantar iriam danar, Luke a apertaria contra si para sentir todos os movimentos sinuosos do corpo dela e, depois... Glria! Voc est se sentindo 
bem? A voz preocupada de Lucy trouxe-a de volta  mesa de jantar e  comida esquecida no prato.
         Estou bem. - Mas no estava, sentia as pernas trmulas e lgrimas teimavam em brotar-lhe nos olhos.
         Puxa! No sei por que tio Luke teve que ir trabalhar, hoje  noite!
         Era um trabalho urgente - disse Glria,  depressa,  procurando dominar o tremor da voz. Ps de lado a taa de morangos com creme, sem sequer toc-la. - 
Se no se importa, Lucy, vou me deitar. Estou cansadssima. Acho que foi o ar livre, o passeio a cavalo.
         -  Eu tambm estou cansada. Mas primeiro vou escrever uma carta para mame. Depois me deito. Quer que ajude a lavar a loua?
         Havia uma luxuosa mquina de lavar pratos na cozinha, mas Glria preferiu lavar a loua na pia. Era pouca e, enquanto isso, Lucy falava sobre a escola e 
demonstrava que, apesar de parecer no gostar de estudar, interessava-se muito por literatura e arte.
         -  J pensou em ser bibliotecria? - indagou, quando Lucy se queixou da dificuldade que se encontrava em carreiras artsticas. -  o tipo da profisso ligada 
com uma poro de campos, uma boa carreira. As estaes de rdio e tev esto sempre precisando de pesquisadores, de assessores... Quem tiver uma boa qualificao 
profissional consegue empregos timos.
         Era algo em que Lucy nunca tinha pensado. Ficaram conversando to animadas sobre isso que, quando Glria percebeu, j era tarde.
         Procurou diminuir a tenso com um bom banho, certa de que Luke no iria deixar uma agradvel companhia s dez e meia, para ir ficar com uma esposa que no 
queria.
         Encheu a banheira com gua bem. quente, ps bastante da sua essncia preferida e deitou-se, tentando fazer todos os msculos tensos relaxarem. Depois, envolveu-se 
numa toalha felpuda e comeou a enxugar os cabelos.
         A sute que ocupava com Luke era, na certa, a melhor da casa. Tinha um luxuoso banheiro anexo ao quarto, todo decorado em bege e marrom. A banheira era 
enorme, embutida no cho; dava folgadamente para duas pessoas, pensou Glria, antes de perceber a direo que seus pensamentos estava tomando.
         Do outro lado do quarto ficava o quarto de vestir, com vrios guarda-roupas e um enorme espelho. Luke dissera que devia usar o quarto de vestir e ela guardara 
suas poucas coisas num canto de um dos armrios. Precisava ir at Londres para pegar o resto de suas roupas e objetos pessoais. Luke no lhe dera tempo para isso, 
quando haviam chegado de Lake District. Precisava ir buscar seu carro tambm.
         Os cabelos caam-lhe pelos ombros como uma cascata de seda dourada. O quarto era decorado em tons de pssego e marrom-caf; nem era muito masculino, nem 
muito feminino. Os lenis eram de macio algodo, e Glria achava linda e colcha de croch feita  mo.  A cama estava fresquinha e gostosa, quando se enfiou sob 
as cobertas. Ouviu o relgio do av bater onze horas, pouco antes de fechar os olhos.
         Abriu os olhos. O quarto estava s escuras e a princpio no soube identificar o som que a acordara. Ouviu o pio de uma coruja, l fora, e estremeceu, quando 
percebeu um vulto contra a parede.
         -  Luke?
         -  Quem pensou que fosse? - perguntou ele em resposta, irnico. - Bob? Ou Trevor Lawson?
         Ela nem achou o que responder a tanta agressividade. Ele ficou parado, a silhueta recortada contra a plida luminosidade da janela, ficando apenas de cala, 
depois de tirar a camisa.                                           .
         -No vai me perguntar se a minha noite foi agradvel?
         O tom de voz dele arrepiou os nervos de Glria. Sentou-se na cama, sem imaginar como seus traos pareciam lmpidos e lindos,  luminosidade do luar, os 
cabelos numa massa revolta, macia.
         -  Eu no sabia que agir como uma esposa ofendida fazia parte do acordo. O que quer que eu faa? Que pergunte se gostou de fazer amor com outra mulher? 
Casar comigo foi um preo muito alto para satisfazer o seu desejo, Luke, principalmente agora que no me quer mais.
         - Por   que   pensa   isso?   -   perguntou   ele,   em   tom   levemente zombeteiro. - Quanto a estar satisfeito.
         O corao de Glria comeou a saltar. Emitiu um gemido de protesto, quando ele afastou o lenol, revelando as curvas de seu corpo.
         - Alguns apetites so estimulados pelo jejum - disse Luke, baixinho, os olhos seguindo o contorno do corpo dela. - Outros aumentam quanto mais se come.
         Pelo jeito, o desejo por ela no diminura, depois de ele ter feito amor Com outra mulher, pensou Glria, tentando dominar a sensao de nusea que a invadia. 
Talvez a noite de Luke no fora to boa quanto ela imaginara. Talvez aquela mulher o tivesse excitado, no indo alm disso... Nesse caso, ela seria usada simplesmente 
para aplacar o desejo que ele estava sentindo por outra. Achara que j havia sentido o mximo de sofrimento pelo qual um ser humano podia passar, mas agora via que 
no era bem assim. Imaginar que Luke iria fazer amor com ela s por pura necessidade fsica provocou-lhe uma agonia intensa, um insuportvel mal estar fsico.
         Estou cansada, Luke. - Evitou olhar para ele, enquanto mentia, esperando que ele acreditasse e a deixasse em paz.
         Ele comeou a acariciar-lhe os quadris com mos suaves, e Glria desejou desesperadamente dissolver-se apaixonadamente nele, sentindo a mesma fora que 
emanava de Luke, que j quebrara sua resistncia antes.
         -  Cansada? No pode arranjar uma desculpa melhorzinha?
         -  Est bem. No quero voc - mentiu ela, desesperada. - Detesto que voc me toque, Luke. Quero que v embora e me deixe em paz.
         -  Sim, eu vou - disse ele, entre dentes. - Mas s depois que fizer voc gemer e implorar por mim, Glria... s depois que essa sua voz,"-agora fria e distante, 
soluce o meu nome, entrecortada de paixo... uma paixo que eu sei que voc pode sentir.
         A voz dele se tornara rouca e a atingia profundamente. Tentou retrucar, desmentir o que ele dissera, mas a lngua parecia paralisada. Pde perceber a silhueta 
de Luke contra a luminosidade plida que coava pela janela; a linha firme do peito que arfava com a respirao, os quadris estreitos, as coxas musculosas, rijas, 
cobertas de plos sedosos. Ele se aproximou e ela se retraiu instintivamente, at chegar  beirada da cama, o corpo tenso, esperando pelo toque das mos dele. Luke 
ps as mos uma em cada lado da cabea dela, prendendo-a  cama, o corpo quase encostando no dela, e inclinou a cabea para beij-la de leve, como se a experimentasse...
         Glria tentou evitar o beijo, virando o rosto, mas, cada vez que o fez, para um lado e para outro, encontrou as mos dele que a obrigaram a endireitar o 
rosto. Mantinha os braos rigidamente apertados ao corpo, as mos fechadas, como se tivesse receio de que elas acariciassem Luke por vontade prpria.
         Os lbios dele desviaram-se da fronte dela para a face. Glria virou o rosto depressa e percebeu o engano tarde demais: sua boca j estava encostada  de 
Luke. Ele no teve pressa, no forou o beijo, no tentou entreabrir os lbios dela  fora nem a acariciou. Ela ficou tensa, antecipando a sensual exigncia implcita 
na intimidade do beijo, mas isso no aconteceu. Em vez disso, quando o desejo dela cresceu, dominador, fazendo-a entreabrir os lbios, ele libertou-lhe a boca, deixando-a 
ansiosa, insatisfeita, e comeou a beijar-lhe os cabelos, o rosto, o ouvido, o pescoo.
         Glria agentou aquela doce tortura enquanto pde, dizendo a si mesma que no podia se rebaixar, demonstrando a que ponto ele a excitara. Se conseguisse 
suportar aquilo, quieta, imvel, talvez Luke se aborrecesse e desistisse. Mas logo foi obrigada a reconhecer que sua resistncia estava no fim, que os minutos pareciam 
sculos, que todo seu corpo gritava para que enfiasse os dedos nos cabelos dele, para que o puxasse   para   si   e   completasse   o   beijo   que   ele   interrompera 
to cruelmente.
         De repente, sentiu como se uma corrente eltrica lhe passasse pelo corpo. Fechou os olhos. As mos de Luke envolveram-lhe os seios, acariciando-os intensamente, 
antes de se movimentarem lentamente para baixo, enquanto o esforo de Glria era sobre-humano para se impedir de abra-lo desesperadamente.
         No ia fazer isso, dizia a si mesma. Apesar de todo o esforo, no conseguiu conter um gemido que lhe subiu aos lbios cerrados. Tentou abaf-lo, mas no 
antes de Luke ouvi-lo.
         -  No  to fcil quanto voc pensava, no , Glria? - disse ele, suave. -  duro se dominar, quando o corpo clama por satisfao, no ? Bem, agora sabe 
como me sinto. E acha que eu gosto disso? - perguntou, selvagem. - Acha que um homem gosta de querer uma mulher como eu quero voc?
         -  Querer  sem  amar  ...   degradante!  -  murmurou  Glria,   entre lgrimas.
         -  Pensa que eu no sei disso? Mas no  impossvel. Por isso, desa do seu pedestal e confesse que  um ser humano, como todo mundo!
         Disse a si mesma que ele queria humilh-la, queria se vingar porque a desejava. Mas quando Luke deslizou as mos por suas costas e passeou os lbios pela 
sedosa suavidade de seu corpo, ela no se dominou mais. Cada toque dos lbios ardentes parecia provocar chamas que nunca mais se apagariam, que revelavam uma sensualidade 
que ela jamais desconfiara existir, e, enquanto sua mente se agoniava diante do castigo que Luke deliberadamente lhe infligia, seu corpo respondia com uma intensidade 
que aumentava a fome j imensurvel.
         O nome dele subiu-lhe aos lbios, abrindo caminho entre o prazer e o sofrimento. Se bem que percebesse a satisfao nos olhos dele, ao erguer a cabea para 
contemplar a vitria, as carcias das mos sbias no cessavam, o tormento continuou, at que ela no pde deixar de erguer os dedos trmulos, de percorrer o corpo 
dele com as mos ansiosas, a mtua paixo fazendo-os mergulhar num inferno, num fim de mundo onde havia
         Belas labaredas ardentes. - Por  favor,   Luke!  -  murmurou  Glria,   sentindo-se  fraca,  no suportando mais a necessidade que tinha dele.
         Lgrimas ardentes corriam-lhe pelo rosto, seu orgulho estava em pedaos, mas ela no se importava. Tudo o que queria era o prazer da posse completa de Luke. 
A pele dele estava mida de suor, e Glria a acariciava com uma fome que no conseguia mais esconder, sacudida pela profundidade de seu desejo, ansiando pela unio 
completa que faria um s ser deles dois. Os braos dele a envolveram, trazendo-a mais para junto de si, enquanto a respirao de Luke se acelerava. Ela podia sentir 
a spera presso do desejo intenso dele e se desmanchou num gemido, quando, afinal, seus corpos se transformaram num s.
ntima e instintivamente, sabia que aquela era a primeira vez que ele a possua completamente, sem que nada se interpusesse entre os dois. Sentia, tambm, 
que ele a queria to desesperadamente quanto ela o queria, e isso tornava mais fcil aceitar a submisso de seu corpo  atrao que Luke exercia sobre ela.
         Mais tarde, quando Glria estava no limiar do sono, Luke inclinou-se e I virou-lhe o rosto, de maneira a olh-la nos olhos.
         - Nunca mais diga que no me quer - disse, cruel. - "Por favor, Luke..."   -   acrescentou,   imitando   maldosamente   o   gemido   dela, fazendo-a estremecer. 
- Acho que eu devia ter gravado isso,  para lembrar a mim mesmo que, afinal, voc  humana. E poderia fazer Bob ouvir a gravao, para ele saber o que est perdendo.
         Nada tinha mudado, pensou Glria, enquanto lgrimas lhe corriam silenciosamente pelo rosto. Tinha sido uma louca, ao pensar que as coisas haviam mudado 
s porque partilharam momentos de intenso prazer. Ela havia se entregado a Luke com amor, mas ele a tomara apenas por vingana e desejo. Era disso que precisava 
se lembrar. Sempre.
         
         
        CAPTULO VIII
         
         Estava sozinha quando acordou. Se no fosse pelas marcas doloridas que tinha nos braos, poderia pensar que os momentos de amor da noite anterior tinham 
sido apenas sonho, que seu selvagem e pago abandono s exigncias de Luke no havia acontecido.
         Glria e Lucy foram a Londres depois do almoo. A garota deliciava-se olhando as vitrinas e Glria a observava com indulgncia, contente por saber que naqueles 
momentos ela conseguia deixar de pensar nos pais.
         A tarde foram tomar ch no Fortuna - uma casa de ch da moda, que deixou Lucy encantada - e depois foram at o apartamento dela.
         -  Vocs se casaram s pressas, no foi? - perguntou Lucy, enquanto Glria abria o guarda-roupa. - Que casaco de pele mais lindo! - exclamou, acariciando 
a pele de raposa. - Eu nunca teria deixado isto aqui.
         -  No d para ningum usar um casaco desses no vero - comentou Glria.
         Ver as roupas de inverno a fazia pensar, aflita, que provavelmente no inverno estaria de volta ao seu apartamento, sozinha. S ela sabia o quanto estivera 
perto de revelar seu amor, na noite passada, s ela sabia que quase se trara. Cada beijo, cada carcia tinha sido a confisso muda de seus sentimentos, mas Luke 
no sabia disso. Na certa, ele estava acostumado com mulheres que encaravam o sexo da mesma maneira que os homens, como um apetite que deve ser satisfeito e esquecido, 
ao passo que para ela a posse sexual era o clmax do amor que tinha por ele.
         O bolo com chantilly que comera no Fortuna, por insistncia de Lucy, pesava-lhe no estmago. Sentiu o enjo de novo, forte, enquanto a cabea pitava. Mal 
pde chegar at a cadeira mais prxima e sentou-se.
         - O que foi, Glria? - perguntou Lucy, assustada. - Voc no est ...
         - No  nada - acalmou-a Glria. - Estou meio enjoada. Acho que foi o bolo.
         Uma idia horrvel tinha-lhe passado pela cabea. Afastara-a, apavorada, Achava impossvel que a suposio que jogara num cantinho escuro da mente pudesse 
ser realidade, mas, enquanto dirigia, voltando para casa, a idia voltava  tona, apesar de seus esforos para anul-la. Aquilo era besteira, disse a si mesma mais 
de uma vez. Era cedo demais para isso... Sabia to pouco sobre essas coisas! Contou os dias ao contrrio, devagar, com os dedos fortemente contrados sobre a direo, 
enquanto verificava que realmente a menstruao que devia ter chegado h alguns dias no viera. Achou que estava imaginando coisas. Crises emocionais s vezes alteravam 
o ritmo da natureza, faziam efeitos estranhos sobre o corpo. No havia com que se preocupar, nada de criar fantasmas. Mas estava to abstrada na preocupao, ao 
chegar em casa, que Lucy foi a primeira a ver o elegante BMW estacionado no parque.
         -  Temos visita! - gritou. - Tio Luke j deve ter chegado.
         Luke sara de manh, sem deixar "recado algum para Glria dizendo a que horas chegaria, e ela imaginou se ele iria se encontrar com a mulher de voz sedutora. 
Saiu do carro devagar, aturdida pela idia de talvez estar carregando um filho no ventre.
         Assim que pisou no hall, percebeu a presena de algum estranho; no pelo pesado perfume que pairava no ar, nem pelo jeito que a porta da biblioteca estava 
entreaberta. Era uma certeza, uma sensao agudamente fsica.
         -  Querido, at que enfim. Pensei que voc nunca fosse chegar! Reconheceu   de   imediato   a  voz,   antes  que  a   mulher  caminhasse languidamente pelo 
hall. O sorriso que tinha nos lbios transformou-se num "oh" de surpresa e tributo  beleza da outra mulher.
         Era alta, de cabelos pretos, com a elegncia fluida das modelos, muito bem vestida e pintada, alguns anos mais velha do que Glria. Um enorme brilhante 
faiscava em sua mo direita e as unhas longas estavam pintadas de um vivo vermelho-escuro. Parou e olhou Glria de alto a baixo, com ar um tanto desdenhoso.
         -  A jovem esposinha, acho... Desta vez Luke no cometeu erros, escolheu uma noiva-menina, no ?' Por falar nisso, onde est ele? Prometeu que estaria 
aqui s seis horas. Acho que vamos sair para jantar.
         Tanta audcia deixou Glria sem respirao. Lucy estava atrs dela e, quando Glria se voltou, surpreendeu-se com a averso que transtornava o rosto da 
mocinha.
         -  O que est fazendo aqui?! - explodiu, furiosa. -- Voc estragou o casamento dos meus pais e quer fazer a mesma coisa com o de Glria?! Tio Luke no quer 
voc de volta! Agora ele sabe bem quem voc .
         Enganou-o uma vez, mas... - Chega,  Lucy - interferiu Glria com suavidade,  vendo que a garota estava por perder todo o controle.
         Tinha sido o bastante para saber quem era a visitante e quase no conseguia acreditar. Na noite anterior, quando atendera ao telefone, em seu ntimo j 
sabia quem era. Ento, essa era Wilma, a mulher que seu marido amara. E ainda amava? Por isso tinha feito amor com ela com tanta intensidade? Por causa daquela mulher!
         Dessa vez no conseguiu dominar a nusea. Correu para o lavabo e vomitou, com uma aguda sensao de humilhao. Quando voltou, plida e abatida, Wilma olhou-a 
com as sobrancelhas erguidas.
         -  Que dramtica! - murmurou, cida. - Ainda no aprendeu, menina, que Luke detesta emotividade?
         Lucy tinha subido para o quarto dela, imaginava Glria. Como  que algum deve agir com a ex-amante do marido e sua possvel futura esposa? Tinha certeza 
de que era uma pergunta que no tinha resposta correspondente nos livros de etiqueta e bom-tom.
         -  No h jeito de voc ficar com ele, sabe? - continuou Wilma. - Oh, tenho certeza de que ele no queria mago-la. E se voc for esperta o bastante, pode 
sair disso agradavelmente... gratificada.
         -  Com dinheiro e sem Luke - disse Glria, admirada ao ver como era capaz de falar com calma, como se fosse outra pessoa.
         -  Claro, sem Luke - concordou Wilma, suave. - Voc no pode ter esperana de ficar com ele... mal passa de uma criana! - Moveu-se sinuosamente,  revelando 
as curvas perfeitas do corpo,  uma expresso felina,   triunfante,   nos   profundos   olhos   negros.   -   Veja,   querida: comparada  comigo,   voc   se  torna 
sem  graa,   desajeitada.   No  h necessidade   de   qualquer   problema   entre   ns.   Luke      um  homem profundamente sensual e eu sei como acender, aumentar 
e apaziguar essa sexualidade como nenhuma outra mulher.  verdade que me deixei levar por um estpido desejo de segurana financeira, mas felizmente percebi a tempo 
que Luke  o meu homem, assim como eu sou a nica mulher para ele. Ele deve ter-se divertido com voc, deve ter gostado da novidade de fazer amor com  uma novata, 
mas  voc  no  vai  conseguir mant-lo satisfeito por muito tempo.
         Aquelas palavras eram como ecos dos sentimentos e dos temores de Glria. Era claro que Luke fizera confidencias a Wilma; tinha contado a ela do casamento 
e no sabia o que era mais difcil de suportar, se o fato de saber que ele comentara abertamente sobre ela com Wilma ou se o fato de ser verdade o que Wilma estava 
dizendo. O simples ato de Luke ter convidado Wilma para ir  casa dele, onde Glria podia v-la, revelava a amarga verdade. Ele precisava daquela mulher intensa 
e dolorosamente.
         Mas ainda tinha um resto de dignidade, um instinto atvico que a fez erguer a cabea e dizer com orgulho:
         -  Se Luke quiser me deixar,  s dizer. No tenho a menor inteno de ficar onde no sou querida, mas enquanto ele me quiser, esta  a minha casa, e voc, 
a intrusa. Vir aqui sabendo que iria encontrar Lucy foi de pssimo gosto, uma vez que viveu com o pai dela at h pouco tempo. Como voc disse, no precisamos criar 
problemas entre ns, por isso tenho certeza de que vai me entender e no levar a mal: vou l para cima, ficar com Lucy. Assim, voc pode esperar meu marido mais 
 vontade.
         -  Seu marido! - Wilma riu, irnica. - Voc fala de boca cheia, mas logo essas palavras no vo querer dizer nada. Luke  meu!
         Essas palavras ecoavam na mente de Glria, enquanto ela subia a escada correndo. Como esperava, encontrou Lucy jogada na cama, com uma expresso angustiada.
         -  Ela disse que tio Luke lhe pediu para vir aqui! - exclamou, assim que Glria abriu a porta. - No acredito. Ele nunca faria isso, odeia essa mulher!
         -  Tenho certeza de que, se ele fez, h algum motivo - disse Glria, achando que afinal isso era verdade: o amor de Luke por Wilma era motivo bastante para 
ele coloc-la antes de tudo e de todos. - Olhe - sugeriu -, por que no liga para seus pais? Tenho certeza de que eles vo ficar contentes de falar com voc. Telefone... 
Eles no iam viajar, iam?
         Lucy moveu a cabea e Glria percebeu que sua idia fora aceita. A menina correu para o telefone e pediu a Glria que ficasse com ela enquanto falava com 
os pais.
         -  Papai quer que eu v para casa - disse, assim que desligou. - Oh, Glria, parece que eles esto to felizes! Mame est diferente de como era.antes... 
antes de...
         -  Precisa falar com seu tio, antes de fazer qualquer plano de voltar  Frana - avisou Glria.
         Enquanto Lucy estava ao telefone, ouvira um carro chegar e seu corpo todo ficara tenso: chegara a hora da confrontao. Luke j devia estar com Wilma, quela 
altura. Ser que estavam abraados? Ele devia estar dizendo que Glria iria embora dali assim que fosse possvel. A criana que trazia em si estava destinada a no 
conhecer seu pai. Tentou no deixar que tal pensamento a ferisse muito.
         Estava em seu quarto quando Luke subiu. Ele atirou o palet em cima da cama e tirou a gravata com gesto impaciente.
         -  Wilma me disse que voc foi desagradvel com ela. Por qu? - indagou ele, sem prembulos. - Ela  uma hspede, na minha casa, e deve ser bem tratada.
         -  Enquanto que a mim, sua mulher, no se deve nada, acho - desafiou-o Glria. - Tem alguma idia de como Lucy se sentiu, ao encontr-la aqui?
         Por instantes, passou pelo rosto dele uma expresso que ela no soube definir, mas logo desapareceu.
         - No se esconda atrs de Lucy, Glria - disse Luke, spero. - Voc insultou Wilma e eu quero saber por qu.
         -  Eu a insultei? Ao contrrio. - Glria respirou fundo e calou-se; qualquer coisa que dissesse sobre a amante dele, Luke ficaria do lado de Wilma, e ela 
s iria sofrer mais. - Eu fui a nica insultada, Luke - disse baixinho, afinal. -- Insultada por ter sido obrigada a suportar sexo sem amor, por um casamento que 
 uma caricatura do que deve ser um casamento de verdade.
         Ouviu a porta bater, minutos antes de conseguir virar a cabea, minutos em que ficara lutando desesperadamente contra as lgrimas. Mas no adiantou. Estava 
sozinha no quarto e pouco depois ouviu o barulho do motor do BMW. Olhou pela janela. Havia duas pessoas no carro.
         Lucy estava esquisita, durante o jantar, e Glria imaginou se ela teria ouvido sua discusso com Luke. Achou ento que, se tinha acontecido, ajudaria Lucy 
a compreender que homens e mulheres poderiam ser felizes juntos, sempre que se amassem de verdade e fossem sinceros. Mas percebia que a garota estava magoada pela 
atitude de Luke.
         - Voc vai ficar acordada, esperando tio Luke? - perguntou Lucy, ansiosa, depois do jantar.
         Glria fez que no com a cabea, tentando demonstrar uma segurana que no sentia. No queria destruir a amizade que ligava tio e sobrinha, se bem que desconfiasse 
que Wilma iria fazer o possvel para demonstrar que aquela casa era dela e que seria s dela.
         Deitou-se e no conseguiu dormir. A manh vinha raiando quando ela admitiu, por fim, que ele no iria voltar. No naquela noite, pelo menos. A angstia 
que sentiu foi indescritvel.
         Tratou de demonstrar tranqilidade a Lucy, dando a entender que o tio voltara e j sara de novo, rezando para a garota no fazer nenhum comentrio sobre 
o fato de o carro de Luke estar ali.
         Sentiu-se mal de novo e no pde mais enganar a si mesma. Estava esperando um filho de Luke. A alegria quase doentia que sentiu, ao ter essa certeza, foi 
empanada pela certeza de que teria problemas para criar esse filho sozinha e que ele iria sentir falta do pai. Ainda era cedo para ir ao mdico. Mas tinha absoluta 
certeza de que esperava um filho de Luke.
         Lucy quis ir andar a cavalo de novo, mas dessa vez Glria no a acompanhou. Lera em algum livro que cavalgar podia ser perigoso, no incio da gravidez. 
O fato de se sentir to preocupada em proteger a vida que tinha dentro de si demonstrava como essa vida era preciosa para ela, apesar de to recente.
         Estava sentada no jardim, tentando se concentrar na leitura de um livro que pegara na biblioteca, quando ouviu passos na alameda de seixos. Primeiro, pensou 
que fosse Luke, e seu corao comeou a pular. Voltou-se e, surpreendida, viu Bob.
         -  Luke no est? - perguntou ele, franzindo as sobrancelhas quando ela fez que no com a cabea. - Ele me telefonou, pedindo que trouxesse alguns papis 
para c, hoje. Disse que era urgente.
         -  No tenho idia de onde ele est - disse Glria. - Quer ficar e almoar comigo ou tem que voltar logo?
         -  Acho que d para almoar com uma mulher bonita - disse Bob, com uma careta. - Voc est plida, garota! Est tudo bem?
         -  Por que no estaria? - retrucou Glria. - Vamos l para dentro. Vejo alguma coisa para a gente comer. Enquanto isso, voc me conta de Elaine.
         -  Ela est tima, muito melhor do que o mdico esperava. Foi muito valente... voc nem imagina. Nunca pensei que ela fosse to forte. Houve momentos em 
que pensei que ela fosse simplesmente se deixar morrer, mas est lutando com todas as foras.
         -  Estou contente -- disse Glria. - Mas ela tem muito por que lutar, Bob. O marido, o filho...
         -  Ei! Voc est me parecendo... infeliz! Desculpe, Glria, mas, para ser franco,  estranhei voc casar com Luke to de repente.  No me interprete mal: 
no fiquei surpreso dele se apaixonar por voc, mas a conheo bem e sei que no  pessoa de agir apressadamente. J sou um velhote passado, mas palavra que no 
esqueci a fora que uma atrao sexual pode ter. s vezes chega a se confundir com amor.
         -  No h nada errado, Bob. O nico problema  que descobri o quanto o amava tarde demais. Oh, Bob!
         Nem tentou conter as lgrimas. Bob abraou-a, dizendo palavras de conforto,   oferecendo-lhe   um   leno,   batendo-lhe   amigavelmente   no ombro.
         -  O que h, Glria? No quer me contar?
         -  Luke no me ama. - O alvio de Glria, ao dizer isso, foi apenas momentneo. - Ele nunca me amou, Bob. Ele s me queria... - Explicou mais ou menos o 
que acontecera, chorando, e Bob ouviu, paciente. - E agora que Wilma voltou, ele no vai me querer mais.
         -  Sinto muito, Glria - suspirou Bob, quando ela se calou. - Eu queria muito poder ajudar.
         -  J ajudou me ouvindo.
         -  Tente pensar que amar  sempre gratificante, acontea o que acontecer. O amor faz a gente sofrer, faz chorar, obriga a gente a lutar por ele... mas a 
vida seria muito pobre, se ele no existisse. O amor  uma coisa incrvel, muito especial, Glria.
         -  Eu sei.
         -  Desculpe interromper uma cena to emocionante, Bob. Se eu soubesse que estava tendo um colquio amoroso na minha cozinha, teria batido  porta. No sou 
marido h tempo bastante; por isso, no aprendi as sutilezas desse complicado relacionamento. Sendo assim, tem que me desculpar. Trouxe os papis?
         Luke atravessou a cozinha ignorando Glria completamente. Ele tomara um banho e trocara de roupa. Glria sentiu como se todos seus ossos se derretessem. 
Tinha uma vontade imensa de correr para ele, de abra-lo, mas Luke a olhou com uma fria to gelada que teve certeza de que seus sentimentos no eram correspondidos. 
Estava quase por dizer que aquela acusao dele era ridcula, depois de ter passado a noite com Wilma, mas se conteve.
         - Vou l para cima - disse, com voz incolor. Depois voltou-se para Bob: - No vou esquecer o que me disse. - Sorriu, triste. - Diga a Elaine para continuar 
lutando, firme!
         Estava sentada junto da janela, olhando pensativamente para fora, quando a porta do quarto bateu, depois de Luke entrar.
         Dedos de ao agarraram-na pelos ombros, ele a obrigou a levantar-se e sacudiu-a como se fosse uma boneca de trapo, at que Glria sentiu o quarto girando 
pavorosamente.
         -  Sua vagabundinha! - disse Luke, entre dentes, a voz rouca. - Como teve coragem de fazer isso na minha casa? Usou a minha cama para fazer amor com o seu 
amante? Diga, usou?
         -- O que interessa o que eu fiz? - indagou ela, com voz fraca.
         -  Voc  minha mulher! - gritou Luke. - Isso interessa! E Bob  um dos meus empregados. Fez isso para se vingar de mim, Glria? Para me castigar por causa 
da noite passada?
         Se, pelo menos, pudesse escapar das mos dele... Mas era impossvel. Alm da fora com que Luke a segurava, seu corpo sentia a proximidade dele de modo 
atordoante. Tinha uma necessidade febril de senti-lo perto, de acarici-lo, de sentir o corpo dele ansiar pelo dela, como ansiava quando tinham feito amor.
         -  Este  um jogo que precisa de dois parceiros - disse Luke, contido.
         Sentiu a mo dele descer o zper, nas costas do vestido, expondo seu corpo apenas com a calcinha e o minsculo suti de renda. Estremeceu, quando ele soltou 
o suti e tirou-o, fitando os seios com um olhar que a assustou.
         -  Ele viu voc assim? - perguntou, rouco. - Acariciou voc assim? As mos dele pareceram queimar-lhe a pele. Luke parecia possudo por uma fora primitiva 
que nada poderia conter. Para seu respeito prprio, Glria no podia permitir que ele a possusse daquele modo, por raiva e vingana, mas, quando Luke a levou para 
a cama, sentiu que perdia as foras. A exigncia de seu corpo era mais poderosa. Percebeu o brilho de triunfo nos olhos dele quando envolveu os seios dela com as 
mos em conchas e sentiu os bicos se enrijecerem contra as palmas ardentes. Como se quisesse castig-la mais, comeou a acariciar os mamilos com os polegares, sempre 
observando o rosto de Glria, vendo-a arquear-se, arfar de prazer.
         Dessa vez, ela no sussurrou o nome dele, no tentou faz-lo prolongar a carcia. Em seu ntimo, sentia-se aflita, desgostosa. Era horrvel o que estava 
acontecendo: Luke usando seu corpo como um instrumento, observando-lhe as reaes. O orgulho rebelou-se, suplantando o desejo.
         Dessa vez no seria como na noite anterior. Lembrou-se, angustiada, de que daquela vez tinham sentido o mesmo desejo envolv-los. Mas agora ele estava agindo 
fria e calculadamente, determinado a humilh-la, a provar que era o dono do corpo dela.
         -  Est saciada, no ? - disse Luke, cruel. - Mas da prxima vez voc vai estar faminta. Agora acabou de sair dos braos do seu amante.
         - V para o inferno! - exclamou Glria, amarga, odiando-o naquele instante.
         -  Se eu for, garanto que a levo comigo! - replicou ele, selvagem. - No vou forar, violentar voc, Glria. Quero que tudo seja ansiado, desejado.
         -  Guarde-se para Wilma - aconselhou Glria, irnica. - Vocs so da mesma massa e, felizmente, posso me orgulhar de ser diferente de vocs!
         Ouviu-o descer a escada. Sara do quarto sem olhar para trs. Ia para junto de Wilma, pensou ela. Provavelmente tinha vindo para casa apenas para dizer-lhe 
que iriam se separar. Ao encontr-la com Bob, tivera a mesma reao da noite em que se haviam conhecido: sentira o orgulho ferido e a sede de vingana o dominara. 
Wilma devia estar provocando-o e deixando-o insatisfeito - era o tipo de mulher que devia usar essas tticas -, e ela se deixaria usar como substituta, como objeto 
sexual, que se toma sem amor nem piedade? Estremeceu, sentindo medo e nusea. No queria que isso acontecesse, mas, se ficasse naquela casa, no poderia evitar. 
Ainda amava Luke, sentia-se muito forte quando estava sozinha, mas, assim que ele a olhava, sentia-se derreter e, por mais que no quisesse, seu corpo ficava em 
brasa, querendo Luke.
         Disse a Lucy que iria a Londres e a carinha da garota ficou sombria quando soube que no podia ir junto. Fez a mala s pressas e jogou-a no banco de trs 
do Mercedes. Voltou para dentro de casa, abraou e beijou Lucy, depois foi embora.
         Ia telefonar de Londres para Lucy e dizer-lhe que no voltaria mais.
         No tinha coragem de dizer-lhe isso frente a frente. A estrada estava quase sem movimento, mas Glria dirigiu com a maior   ateno,   como   sempre   fazia. 
No   entanto,   no   conseguia concentrar-se devidamente na direo: seu crebro insistia em pensar em Luke, na sua situao, de um modo obsessivo. Viu a criana 
no ltimo instante, quando estava terminando de fazer a curva. 
         Teve tempo apenas para a deciso: salvar a vida da criana ou a dela.
         Ouviu os pneus rangerem pavorosamente, sentiu a cabea bater em algo duro; percebeu o rudo de ferragens retorcidas, gritos, depois silncio total, cortado 
apenas pelo choro da criana, distante. "Que meu filho esteja salvo, meu Deus!", pensou antes de mergulhar numa espessa escurido.
         
        CAPTULO IX
         
         - A senhora tem muita sorte... - dizia o mdico, enquanto lhe segurava o brao, auscultando a pulsao. - Quando vi o jeito como estava, imprensada entre 
a direo e o encosto do assento, o carro todo amassado, achei que no havia esperana. Foi muito corajosa, agindo como agiu -- acrescentou, mais gentil. - Uma menina 
de seis anos deve-lhe a vida.
         Glria estava ainda na maa da ambulncia que a levara para um hospital, depois do acidente. Uma enfermeira aproximou-se e disse que ficasse sossegada, 
que nada havia a temer. Algum levara suas roupas, a mala... Pouco depois estava num quarto, numa cama alta e estreita, vestida apenas com um avental, enquanto um 
jovem mdico a examinava.
         -  Doutor...
         Ao ouvir a voz trmula, ele ergueu a cabea, parando de examinar as marcas que o cinto de segurana tinham deixado no trax delicado.
         Glria passou a lngua pelos lbios, nervosa. Desde o momento em que recuperara a conscincia, s se preocupava com uma coisa.
         -  Eu... eu acho que estou grvida - disse, embaraada. - Ser que... o nen...
         -  De quantos meses? - indagou o mdico depressa, e quando Glria respondeu, pareceu ficar tranqilo. - Teve sorte mesmo - disse com franqueza. -- Mais 
algumas semanas de gravidez e certamente o choque teria provocado um aborto espontneo. Mas como a gravidez est bem no incio, no h esse perigo. Vamos querer 
que fique aqui por uns dias, apenas para ter certeza de que tudo est bem. Trate de no se preocupar.
         Isso era fcil de dizer, pensou Glria, meia hora mais tarde, quando precisou da ajuda de uma enfermeira para ir ao banheiro.
         - Isso passa logo - animou-a a moa -, no se preocupe - acrescentou, como um eco do que o mdico dissera. - Seu marido logo estar aqui. A irm-chefe j 
telefonou para ele.
         ..... Luke!
         O estmago de Glria se contraiu. Nem lembrara que o hospital devia ter entrado em contato com seus parentes, claro. Ser que ele percebera que ela estava 
indo embora de casa? E se percebera, como iria reagir?
         Notou, ento, que a gua que a enfermeira lhe dera para beber devia conter algum tranqilizante, pois alguns instantes mais tarde sentiu-se envolta numa 
nuvem macia de paz.
         -  Procure dormir - disse a enfermeira. - Vai fazer bem para a senhora e seu nen. A natureza  o melhor dos remdios.
         Quando acordou, Glria percebeu que seu corpo estava dolorido em vrios lugares. Sentiu perfume de rosas. Voltou a cabea devagar, gemendo baixinho, ao 
sentir uma dor aguda na coluna. Havia um enorme vaso com rosas  sua cabeceira e, imvel, sentado numa poltrona, ali estava Luke.
         -- Como est se sentindo? - perguntou ele.
         Glria teve a impresso de que Luke estava abatido e aflito. Na certa, Wilma ficara zangada ao saber que ele vinha para o hospital, mas Luke era o tipo 
de homem que sempre insiste em cumprir suas obrigaes.  .
         -  Na polcia me disseram que voc teve muita sorte em sair do acidente com vida - acrescentou.
         Os msculos dos maxilares fortes estavam pulsando, e Glria imaginou se, ao receber a notcia, Luke no teria ficado decepcionado por no ter acontecido 
o contrrio.
         -  S no atropelou a menina por ter reagido rpido e seguramente. Sabe que podia ter morrido?
         -  Eu no podia salvar a minha vida  custa da vida de uma criana - disse, e lgrimas comearam a correr-lhe pelo rosto, enquanto levava as mos ao ventre, 
num gesto protetor.
         -  O mdico me disse que voc est grvida.
         A voz sem cor deu a impresso de que ela estava mais do que certa em suas suposies. A criana que trazia em si nada tinha a ver com Luke, a julgar pela 
indiferena dele.
         -  E, pelo que ele me disse, voc quer ter esse filho.
         Enquanto falava, ele fitava as rosas, evitando o olhar de Glria. Rosas vermelhas, pensou amargamente. Uma concepo s convenes sociais: exatamente o 
tipo de flor que um marido deve levar para a mulher que est hospitalizada, grvida e que escapou por pouco da morte.
         -  Quero.
         Percebeu que sua voz soava, tambm, sem cor, morta. Aquela simples palavra significava muito, pois ter o filho de Luke significava transformar completamente 
a prpria vida. :- Meu Deus, que confuso! -- A desesperada veemncia da voz dele fez com que Glria o olhasse.
         Luke estava muito plido, os dentes cerrados numa expresso de raiva que parecia mais dirigida a si mesmo do que a Glria. Respirou fundo e continuou:
         - O mdico disse que voc precisa ficar aqui por uns dias... para ter certeza de que no sofreu mais do que contuses. Assim que ele lhe der alta, eu a 
levo para a nossa casa! - Como se soubesse o que ela estava pensando, prosseguiu: - Sei que voc estava me abandonando, Glria, e sei por que, mas no vou deixar 
que volte para o seu apartamento.
         A insistncia de lev-la de volta para casa era mais uma concesso s convenes sociais; mais um exemplo de que ele s agia de modo correto, no lhe importando 
o que custava para si ou para os outros. Ele no podia lev-la para a sua casa... agora, no! Wilma ficaria uma fera. E como Glria iria suportar viver ao lado de 
Luke, sabendo que ele amava outra mulher?
         -  Posso me arranjar sozinha - disse. --  melhor, Luke... - As lgrimas redobraram e a garganta apertou-se dolorosamente, fazendo a voz sair entrecortada. 
- Agradeo por voc se sentir obrigado a me ajudar, mas...
         -  Mas prefere ir para junto de Bob, apesar de ter dentro de si meu filho, no ? - Luke ergueu-se, furioso, aproximando-se da cama. - Voc vai comigo, 
seno digo ao mdico que est querendo ficar sozinha num apartamento e ele vai obrig-la a permanecer aqui mais tempo.
         No tinha argumentos nem foras para discutir com ele. Era mais fcil largar-se na cama e deix-lo mandar. E, na verdade, no havia uma esperana pequenina, 
bem em seu ntimo? Estava esperando um filho de Luke. No podia querer que ele a amasse como amava Wilma, mas ser que ele no ia... Ia o qu?, indagou a si mesma, 
sarcstica, obrigando os pensamentos a pararem. Luke iria deixar Wilma por causa de um filho que nunca quisera? Continuava acalentando sonhos romnticos. O que o 
amor fizera com ela, se chegava a ponto de pensar em ficar ao lado de Luke, de qualquer modo?
         Quando tocou a sineta anunciando o fim da hora de visitas, Luke parou ao lado da cama, olhando-a com expresso enigmtica, estranha, como se quisesse abra-la 
mas no se atrevesse. Estava imaginando coisas de novo, disse Glria a si mesma, achando que o amor que sentia por ele a fazia ver coisas que no existiam. Ele se 
inclinou .e beijou-lhe a face de leve, o tipo de beijo que um homem d  sua mulher quando esto em pblico. Mas no era o tipo de beijo que Glria queria e seus 
lbios tremeram. Sentia-se profundamente infeliz.
         Era difcil adaptar-se  rotina do hospital, principalmente porque ela no se sentia doente, mesmo, pra apreciar devidamente os cuidados que recebia. Gil 
foi visit-la, uma tarde. Sentou-se na poltrona junto da cama, radiante.
         -  Humm! Lindssimas - disse, olhando para as rosas. - Nem preciso perguntar de quem so. Luke estava no escritrio, quando a notcia chegou. Disseram-lhe 
que o carro tinha derrapado para fora da estrada e que havia se espatifado! Ele ficou alucinado, como um homem que perdeu tudo na vida.
         Glria sorriu mecanicamente. Coitada de Gil! Se ela soubesse! Gil no comentou sobre a gravidez e Glria no disse nada. O mdico afirmara que tudo estava 
bem, que no havia nenhum perigo, mas Glria preferiu guardar a notcia para si. Tinha certeza de que, se contasse a Gil, a firma inteira ficaria logo sabendo.
         Glria recebeu outra visita no fim da tarde. Gil tinha sado h poucos minutos e ela estava quase adormecendo, quando percebeu rumores de saltos altos e 
sentiu algum ao lado da cama.
         -  Quero falar com voc.
         A voz e o perfume pesado, intenso, chegaram a ela ao mesmo tempo. Abriu os olhos e seu corao deu um salto, quando viu Wilma observando-a. Ela vestia um 
duas-peas azul, de seda. Estava linda, elegantssima, enquanto Glria nunca se sentira to abatida e feia. O acidente a esvaziara da energia que tinha. O rosto 
estava plido, os cabelos pareciam sem vida. Perto de Wilma, sentia-se horrvel e desajeitada.
         -  Ento, somos uma pequena herona, no ? - sibilou Wilma. - Olhe, no vai adiantar. Luke vai lev-la de volta para casa apenas por senso de dever... 
Besteira dele, mas  assim. E voc? No tem um pingo de orgulho? - indagou. - Rebaixa-se a partilhar da cama de um homem que deseja outra mulher? Ah, sei que o ama! 
Mas se pensa que tem a menor chance de tirar Luke de mim, est muito enganada. Voc pode amar Luke, mas ele me ama e, se voc tem alguma dignidade, algum respeito 
por si mesma, deveria evitar que ele seja forado a uma situao que no quer.
         Glria ficou imvel, olhando sem ver, por muito tempo, depois de Wilma ter ido embora.
         Ela estava com a razo: tinha que se recusar a voltar para casa com Luke. Seria melhor para eles dois!
         Ele a visitava todas as noites e, quando os ponteiros do relgio iam se aproximando do meio do horrio de visitas noturnas, a tenso de Glria aumentava. 
Seria fria, firme. No deixaria Luke perceber como tinha vontade de voltar para casa com ele. Iria lembr-lo de que no queria casar com ele e que o deles nunca 
fora um casamento de verdade.
         Quando o relgio marcou sete horas, tinha-se convencido de que seria capaz de fazer Luke concordar em que ela estava certa. No entanto, no contara com 
a possibilidade de ele no chegar sozinho. Foi visit-la com Lucy, que lhe contou, toda feliz, que seus pais estavam para chegar e que os trs iriam passar o resto 
das frias dela juntos, em Londres.
         Glria achou que Luke estava agindo de modo mais atencioso, mais terno, por causa da presena de Lucy. Ele ria, brincava com a garota e, em certo momento, 
a mo dele pegou a dela, sobre a cama. Ela tentou retirar a mo, depressa, mas Luke a segurou, firme. Quando se despediu, beijou-lhe a mo, dizendo que o mdico 
iria lhe dar alta na manh seguinte.     
         - No vai ter que fazer nada, por enquanto - disse. - A Sra. Meadows concordou em trabalhar o dia inteiro, por algum tempo, at voc ficar boa.
         Se estivesse se sentindo bem, iria embora do hospital antes de Luke chegar, pensou Glria, depois de ele ter sado. Mas o que iria adiantar? Ele parecia 
determinado a cuidar dela, e ela, fraca e incerta como estava, mal podia pensar nos ltimos dias que passara com ele. Com mais uma semana, estaria melhor, mais forte 
para fazer o que achava que devia fazer.
         Luke insistiu para que ela se acomodasse no banco de trs do carro. Ao entrar no automvel, a lembrana do acidente atingiu-a, ntida, provocando medo, 
mas a proximidade de Luke, seus braos amparando-a, fizeram-na reagir e se acalmar.
         - No fique nervosa -- disse ele. - O mdico me avisou de que voc poderia ter uma reao, por causa do choque traumtico do acidente. Mas teria que enfrentar 
isso, mais cedo ou mais tarde.
         Luke era um excelente motorista e Glria sentiu-se segura, pelo menos at o momento em que chegaram a um cruzamento e um carro atravessou na frente deles, 
perigosamente. Apesar de estar sentada atrs, ela "freou" instintivamente.
         O carro parou bruscamente e, por entre o mal-estar e a nusea, ouviu Luke praguejar, enquanto saa do carro e batia a porta com violncia,
         Ela tremia da cabea aos ps e no resistiu quando ele entrou na parte de trs do carro e a tomou nos braos, acalentando-a como se acalenta uma criancinha 
assustada. Era como estar no paraso, sentir-se nos braos dele assim, to perto, recebendo o calor de seu corpo, aspirando o cheiro familiar. Dizendo a si mesma 
que era uma boba, Glria fechou os olhos e aninhou-se contra o peito forte, estremecendo ao sentir a mo dele descer-lhe pela coluna. Enfiou o rosto entre o ombro 
e o queixo de Luke, numa reao automtica, aspirando profundamente o cheiro da pele dele. Queria que aqueles instantes no terminassem, mas, por fim, Luke a afastou 
e olhou-a, com os dentes cerrados.
         -  Eu sou um homem, no um santo, Glria - disse, sombrio. - Ns dois sabemos que isto  perigoso.
         Voltou para seu lugar e dirigiu o resto do caminho em silncio, enquanto ela olhava pela janela do carro, sem ver nada. Ser que ele quisera dizer que, 
apesar de ela o deixar excitado, sua reao era puramente fsica e que era em Wilma que ele pensava nas ltimas vezes que tinham feito amor?
         Enquanto Luke guardava o carro na garagem, Glria subiu e foi automaticamente para o quarto onde ficara com ele nos ltimos dias. Sua mala estava em cima 
da cama e, ao v-la, lembrou-se de tudo o que tinha acontecido desde que quisera ir embora daquela casa. Tirou as roupas da mala e, quando abriu a porta do guarda-roupa, 
levou um choque, empalideceu. Na semana passada, os ternos de Luke estavam pendurados ali, junto de seus vestidos. Agora, o armrio estava vazio.
         -  Mudei as minhas coisas para outro quarto - disse Luke, entrando. - Acho que, na situao em que estamos,  melhor para ns dois... Se precisar de alguma 
coisa, Glria, voc me chama. Espero que o que aconteceu entre ns no a impea de me chamar, se precisar de mim. Seja qual for a extenso da minha culpa, quero 
que saiba que estou sinceramente disposto a fazer tudo para ajud-la.
         -  Eu sei - murmurou Glria, num fio de voz.
         Olhou a cama enorme que partilhara com Luke e que agora iria usar sozinha. Teve que se esforar para impedir as lgrimas de escorrerem.
         -  Por que no se deita e descansa um pouco? - sugeriu Luke. - Vou buscar um ch para voc.
         -  Obrigada - agradeceu Glria, de modo automtico. Lembrou   que. ele   deveria   estar   querendo   telefonar   para   Wilma.
         Prometeu a si mesma atrapalh-los o menos possvel. Afinal, ele poderia estar querendo muito a companhia da amante.
         Estava despida e na cama, quando Luke voltou com o ch.
         -- Se voc quiser ir para o escritrio... -- comeou Glria, tentando dar-lhe uma chance para sair, se quisesse.
         Mas ele fez que no com a cabea, decidido, e disse:
         -  O trabalho pode esperar. Posso cuidar de muita coisa daqui mesmo. No vou deixar voc sozinha, Glria. Se no conseguir dormir, me chame. O mdico me 
deu um remdio para isso, se for preciso.
         -  No quero, obrigada - disse ela, com expresso triste. - J tomei remdios demais para dormir, ultimamente.
         No era bem verdade. No hospital, tinham-lhe oferecido sonferos, mas ela sempre os recusara, pensando na vida que se desenvolvia em seu ventre. As enfermeiras 
a haviam compreendido e no tinham insistido. E ela ficara acordada, muitas noites, at o amanhecer, pensando no futuro vazio que tinha pela frente.
         Adormeceu e acordou  tarde, respirando com prazer o ar fresco e perfumado que entrava pela janela aberta. Pde ouvir  telefone tocar l embaixo e seu 
estmago se contraiu. Seria Wilma, ligando para Luke?
s sete horas ele entrou no quarto, com uma bandeja enorme e uma garrafa de vinho. Ps a bandeja sobre a cama.
         -  apenas uma omelete - disse,  surpreendendo-a. - No sou nenhum grande cozinheiro, mas a Sra. Meadows no podia ficar aqui hoje. No se importa se eu 
jantar aqui com voc, no ? Importar-se? Se ele soubesse!
         A omelete estava uma delcia, e Glria tomou dois copos de vinho, sem perceber. Sentia-se bem, corajosa o bastante para pedir que Luke ficasse com ela por 
mais meia hora. Depois, ele disse que estava na hora de ela dormir e saiu do quarto. Pouco depois, ouviu o barulho do carro se afastando e compreendeu, dolorosamente, 
que jamais se satisfaria apenas com as atenes e a piedade dele!
         Trs dias depois, Glria estava de p, j passeava lentamente pelo jardim e tentava se manter sempre fora do caminho de Luke. Ele continuava trabalhando 
em casa e ela o evitava o mais que podia. A sensao feliz de voltar para casa tinha-se dissipado e uma estranha angstia se havia apoderado dela. Morar na mesma 
casa que Luke, mas agindo como estranhos, estava lhe fazendo mais mal aos nervos do que uma separao brusca faria. Se estivesse em seu apartamento, pelo menos poderia 
dar rdeas soltas aos sentimentos, certa de que sua fraqueza no estava sendo observada por ningum. Ali sentia-se como algum caminhando  beira de um precipcio, 
sempre prestes a rolar l para baixo.
         Aconteceu uma tarde, num dia em que Luke ficara fechado na biblioteca desde cedo. Glria passeara pelo jardim, triste e pensativa, antes de subir, tomar 
um banho e se arrumar para jantar.
         Sempre com profunda sensao de tristeza, escolhera um vestido simples, de jrsei, de um suave verde pastel que fazia sobressair a cor dos cabelos e dos 
olhos. Vestindo apenas calcinha e suti', estava se maquilando, diante do espelho, quando Luke bateu  porta e entrou antes de ela pegar o penhoar.              
         - Preciso falar com voc - disse ele, de modo abrupto, fazendo um arrepio gelado percorrer a espinha de Glria.
         Mas ela tratou de se controlar, rezando para ele no perceber o tumulto que se desencadeara em seu ntimo.
         -  No podemos continuar deste jeito - desabafou Luke. - No  possvel. Sei que voc quer ter essa criana, assumo a responsabilidade e vou lhe dar tudo 
o que precisar. Sim, eu sei que voc pode arcar com isso sozinha...
         -  Mas voc quer acalmar a sua conscincia - completou Glria, amarga. - No precisa, Luke. Vou ter este filho porque quero. Foi uma deciso minha, que 
no envolve voc. Como disse, financeiramente no tenho problemas. Provavelmente, vou vender o meu apartamento e comprar uma casa pequena, fora da cidade. - Esquisito, 
como as palavras se sucediam, formando sentenas, expondo idias que a magoavam profundamente. - No vou levar muito tempo para arrumar as minhas coisas e posso 
ir embora logo.
         Luke estava assustadoramente plido, tenso.
         -  Como voc quiser. Eu vou ter que sair, hoje  tarde... Um encontro de negcios que venho adiando h dias. Depois, vou ter que viajar. Tudo o que peo 
 que me deixe o seu endereo, Glria.
         -  Por enquanto, no vai ser preciso. - Ela ouviu a prpria voz, que parecia de uma estranha. - Vou ficar no apartamento at decidir o que fazer. E, depois 
de a criana nascer, no vai haver nenhum motivo para continuarmos em contato. Voc vai ter sua vida e eu a minha.
         -  Se voc quer assim...
         Se no fosse to doloroso, at que seria engraado, pensou Glria, mais tarde, depois de Luke sair. Sabia que ele sara porque ouvira o carro se afastar. 
Ser que ia se encontrar com Wilma? Para dizer-lhe que logo iria ficar livre dela?
         Glria havia dito a Luke que iria embora logo, mas de repente sentia-se vazia de toda energia. Seu carro havia sido consertado e estava na garagem, mas 
no tinha coragem para dirigir. Iria esperar at de manh, decidiu, e chamaria um txi que a levasse  estao. Quando estivesse em seu apartamento, poderia comear 
a fazer planos para o futuro. Um futuro onde no haveria lugar para Luke.
         Na manh seguinte, a firma de txis disse que s poderiam atender seu pedido  tarde. Verificou os horrios dos trens e viu que chegaria a Londres  noite. 
Com tudo arrumado e o tempo sobrando, percorreu a casa toda, como se quisesse grav-la na memria para lembrar dela no futuro vazio.
         Ficaria marcado que o txi iria peg-la s duas e meia. Quando, logo depois de uma hora, ouviu o rudo de um carro chegando, achou que tinha havido algum 
engano. Estava no alto da escada, pronta para descer, quando a porta se abriu e Luke entrou no hall. Ele olhou para cima e deu com Glria, a olh-lo, surpresa, tentando 
convencer-se de que ele era real e no uma viso.
         -  Luke!
         Ele empalideceu, ao v-la.
         -  Esqueci uma coisa - disse, brusco. - Pensei que voc j tivesse ido embora.
         -  No me sentia capaz de dirigir, ento resolvi ir de trem. O txi vem me pegar s duas e meia.
         V-lo ali, no momento em que estava por sair da vida dele para sempre, era a tortura mais cruel que o destino lhe infligia. A cabea de cabelos negros, 
o corpo forte, vestido com um terno elegante, fizeram alguma coisa quebrar-se dentro de Glria. A escada pareceu comear a oscilar diante dela. No conseguia focalizar 
as coisas e segurou-se no corrimo, cambaleante. O gemido abafado chamou a ateno de Luke. Ele subiu a escada correndo, no instante em que ela caa e gritava, apavorada.
         -  Est tudo bem... tudo bem - ofegou ele.
         Erguera-a nos braos e ela sentia o tecido spero do palet contra o rosto gelado.
         -  Vou lev-la para o quarto - disse ele.
         Pouco depois, estava no quarto, onde vivera tantas horas angustiantes. O mal-estar passara, mas sua pulsao ainda estava acelerada. Mas dessa vez no era 
de medo. Luke a colocou na cama. Ao perceber a expresso angustiante dele, o corao de Glria se apertou.
         -  Meu Deus, Glria! - murmurou ele, abraando-a. - No posso deixar voc ir embora! No me pergunte por que, por favor! Juro que nunca mais ponho as mos 
em voc... que s vou fazer o que voc quiser. Vamos comear de novo e eu prometo que desta vez...
         Glria devia ter reagido de algum modo, pois ele a soltou bruscamente e foi ficar na janela, de costas para ela.
         -  No voltei porque tinha esquecido alguma coisa - comeou a dizer, amargo. - Voltei porque queria entrar neste quarto, queria lembrar de voc aqui, na 
minha cama... nos meus braos. Deus sabe quantos motivos voc tem para me odiar e desprezar... - murmurou. - Primeiro, roubei a sua virgindade; depois, fiz um filho 
em voc. Deve estar achando que o orgulho devia ter-me mantido longe de voc, quando eu soube o que sentia por Bob... pois no ouvi o que voc disse a Lucy sobre 
o amor? Mas nada disso fez diferena para mim. Eu s queria estar com voc, ter voc. Eu te amei desde o momento em que a vi, na casa de Greg Hardman. At ento, 
no acreditava em amor  primeira vista. Estava l, aborrecido, tinha resolvido ir embora, quando voc chegou, e foi como se uma luz tivesse explodido diante dos 
meus olhos. Assim que a vi, soube que te amava. Voc olhou para mim e, presunoso, achei que estava sentindo a mesma coisa. Os meus sentimentos por voc eram to 
intensos que no podia acreditar que voc no sentia nada por mim. - Parou um instante, depois continuou:
         -  Ento, depois, voc me arrasou. Quis odiar voc, machuc-la como tinha me machucado. Ento me lembrei de que era a moa que Greg me disse que estava 
tendo um caso com Bob. No podia imagin-lo abraando, acariciando voc... Tinha que tirar voc dele. Ento forcei o nosso casamento. Voc tinha que me amar! Naquela 
noite, quando a possu, acho que eu estava louco. O instinto me dizia que voc nunca tinha estado com um homem, mas eu no podia ouvi-lo. Sabia que Bob era seu amante! 
Quando descobri a verdade, tive vontade de me matar.
         Mas no o fiz... - Os lbios dele apartaram-se, amargos. - Acho que teria sido melhor... Afinal, seria uma morte rpida. Deste jeito, morrer aos poucos; 
di muito mais.
         O silncio caiu, pesado, antes de ele continuar:
         - Qualquer homem decente teria deixado voc livre, ento. Mas eu no podia. Prometi a mim mesmo nunca mais pr as mos em voc; compreendi que precisava 
esperar, ensinar voc a me amar, mas eu a queria tanto! Sabia que a estava obrigando a me corresponder sexualmente e que isso estava fazendo voc me detestar mais; 
no entanto, era o nico jeito de sentir voc viva comigo. Bob possua o seu corao, ento eu ia ser dono do seu corpo: Achei que seria uma compensao, mas no 
foi. Eu no agento mais, Glria! Bob  casado, no pretende deixar a mulher... Ser que no pode me dar uma chance? Juro que no ponho um dedo em voc, a no ser 
que me pea. Eu...
         Glria no podia ouvir mais. Luke j se humilhara bastante e, ouvindo-o, ela passara por vrias gamas de emoes, desde a descrena at a dolorosa alegria, 
quando ele descrevera as emoes que pensara que s ela sentia! Luke a amava!
         Ele ainda estava de costas para ela. Glria saiu da cama e aproximou-se dele sem fazer o menor rudo, mas algum sexto sentido deve t-lo alertado. Voltou-se 
e segurou-a com tanta fora pelos ombros que a machucou. Afastou-a de si. Se Glria no acreditara em suas palavras, esperava que sua expresso sincera a convencesse 
de que dissera a verdade. Era o rosto de um homem que sofrer indescritveis agonias, e ela desejou intensamente afastar aquele sofrimento dele.
         - Voc disse que no iria pr as mos em mim - lembrou Glria. Foi impressionante  modo como ele a largou e entrelaou as mos, forando-as a ficarem longe 
dela. - A no ser que eu pedisse - continuou ela.
         Ele se afastou e Glria sentiu-se angustiada. J haviam perdido tempo demais e no estava certo atorment-lo daquele jeito.
         - Por favor, me abrace, Luke... - implorou, deixando que sua expresso, que seus olhos dissessem o quanto o queria. - Me acaricie, me ame, me faa sentir 
viva outra vez, porque, sem voc, no sou nada! Voc me ensinou o que  o amor, voc tornou o meu corpo o de uma verdadeira mulher, me mostrou coisas que nunca sonhei 
existirem. Eu te amo! As palavras saam febris dos lbios ansiosos, e o corpo dela tremia de desejo, quando Luke a puxou para si. Por instantes, nenhum dos dois 
falou, contentando-se com um ardente beijo que dizia tudo o que era preciso dizer. As roupas eram uma barreira fcil de ultrapassar e nenhum dos dois hesitou em 
livrar-se delas. Glria gemeu, quando sentiu a fora da paixo de Luke, e uniu-se a ele feliz, fazendo-o demonstrar que aquilo no era um sonho.
         Ele a levou at a cama, deitou-a com cuidado, beijou-a inteirinha, numa reverncia amorosa  feminilidade dela, enquanto Glria lhe correspondia, subjugada 
por sua intensa masculinidade.
         Dessa vez no havia barreiras. Ela podia demonstrar tudo o que sentia, tudo o que escondera at ento. Escondera o amor que sentia por Luke, enquanto ele 
escondera o amor que sentia por ela. Seu corpo estremecia de prazer, abandonado s mos ardentes de Luke, que a levavam ao pice do prazer, o corpo to sensvel 
a ele que, ao ser tocado pela leve e ofegante respirao de Luke, arqueava-se e ondulava, ardentemente vivo.
         E as mos dela exploravam o corpo do amado com uma liberdade que jamais supusera ter. Com a posse total, chegou um prazer que superou tudo o que Glria 
sentira at ento.
         Na doura do depois, ela ficou deitada de costas, a cabea sobre o peito de Luke, ouvindo o corao dele bater, certa de que o prazer de ambos tinha sido 
intenso e igual. No havia vergonha das palavras cheias de amor que Luke murmurara entre os beijos, nem no grito-gemido que ela soltara ao ser possuda. Vira isso 
no rosto transtornado de Luke, depois de ele ter confessado que a amava, soubera que sempre houvera amor e desejo nos momentos em que ele a possura.
         Afinal, Gil estava certa. Ele a amara  primeira vista. Sentia-se feliz, agradecida por ter tido uma chance de conhecer a enormidade daquele amor que ignorara 
to tolamente.
         - Eu nunca amei Bob... nunca, do jeito que voc pensou - disse baixinho. - Mas eu no podia deixar que voc falasse Com Elaine...
         Ento contou sobre o problema doloroso do casal, sobre a operao de Elaine.
         - Posso entender... - disse Luke, sombrio. - Quando me disseram, no hospital, que voc estava esperando um filho nosso, tive vontade de matar Wilma por 
ter-me impedido de chegar a tempo de no deixar voc sair de casa!
         Glria estremeceu. Wilma! Tinha esquecido dela!
         Luke percebeu a reao dela, pegou-lhe  queixo e obrigou-a a olh-lo:
         - O que foi? - perguntou.
         - Wilma... Pensei que voc a amasse:.. - murmurou. - Ela veio falar comigo. Disse que voc queria se livrar de mim...
         Lgrimas subiram-lhe aos olhos e escorreram. Luke beijou-as uma a uma e, aos poucos, a brasa do amor incendiou-se de novo. E a explicao de Luke teve que 
esperar at que os corpos se separassem, de novo satisfeitos, aplacados do violento desejo.
         - Ela me procurou assim que Philip voltou para Marina - contou ele. - Disse que me queria e ameaou que, se no a aceitasse, iria interferir entre minha 
irm e meu cunhado de novo. Eu no podia deixar que ela fizesse isso imediatamente; tinha que segur-la para dar tempo aos dois de fazerem as pazes, para se entenderem 
de novo. Tratei de ganhar tempo, e ela agora sabe disso.
         -  Mas voc a amou - disse Glria, surpreendendo-se ao ver como era doloroso dizer aquilo, mesmo agora.
         -  No - negou Luke, positivo. - Eu a queria, mas nunca me iludi a respeito dela. Sabia como e quem era. Quando Wilma comeou a espalhar que estvamos noivos, 
tratei de esclarecer tudo com ela. Ento, deu em cima de Philip... e eu nunca vou me perdoar por isso. Eu sabia como Wilma era, sabia que no prestava... Tive vontade 
de mat-la por magoar voc, tambm! - Calou-se por instantes. - Diga que me ama - pediu ento, com voz rouca. - Voc ainda no me disse isso assim... tranqila, 
quando no estamos fazendo amor.
         - Engraado! - brincou Glria. - Acho que j mandei essa mensagem mil vezes, de modo bem claro.
         A tenso do corpo de Luke comunicou-se ao de Glria e ela o encarou, sentindo o corao disparar diante do olhar dele. S ela era capaz de deixar aquele 
homem assim: cheio de amor e desejo!
         Ergueu as mos e acariciou o rosto dele com suavidade.
         -  Eu amo voc, Luke - disse, baixinho, trazendo o rosto dele para perto do dela, os lbios trmulos,  espera.
         Gemeu, feliz, quando suas bocas se uniram. Quando se separaram,
         Luke falou:
         -  Nunca mais quero passar as noites andando de carro por a, com receio de forar voc a fazer o que no quer.
         Aquelas palavras afastaram para sempre a impresso que Glria tinha de que, naquelas noites, Wilma havia negado a ele o que julgava que Luke   ia   procurar 
nela;   quando   pensava   que   ele   estava   apenas descarregando nela o amor, o desejo que tinha de Wilma. No entanto... Suspirou, com vontade de rir da prpria 
loucura.
         -  E o nen - disse Luke, de repente. - Pensei que voc ia sentir dio de mim e dele... mas o mdico me disse que as suas primeiras palavras tinham sido 
para ele, que ficou com medo de perd-lo.
         -   seu filho - murmurou Glria, simplesmente -, uma parte de voc. Uma prova viva de que voc havia me desejado... que eu tinha sido sua...
         Ouviram o barulho de um carro chegando.
         -  O txi! - exclamou Glria, aflita, levando as mos  boca. - Esqueci dele!
         -  Deixe comigo - disse Luke, erguendo-se sobre os cotovelos. Levantou-se e, quando chegou  porta, parou e riu, dizendo: - Voc no quer ir embora, quer?
         -  O que vai dizer ao motorista? - perguntou Glria. Luke riu de novo:
         -  Vou dizer que minha mulher vai ficar aqui, na casa dela. A, vou voltar para c e mostrar a ela o quanto a amo... se ela quiser, claro!
         O sorriso de Glria foi radiante como a luz do sol depois de uma tempestade. Enquanto ela descia, recostou-se nos travesseiros, as mos sobre d ventre ainda 
liso e chato.
         O filho de Luke! Sentiu a garganta se apertar, mas dessa vez eram lgrimas de felicidade. E, quando ele voltou, abriu-lhe os braos, recebendo-o, feliz. 
E a amargura do passado foi completamente esquecida, enquanto voltavam a demonstrar o intenso amor que os unia.
         
          FIM
         
         
         
         
Uma Aventura Alucinante - Penny Jordan
(Sabrina 303)




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